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Em Justino: Nos Bastidores do Reino, na periferia do Rio de Janeiro do início dos anos 1980, um rapaz encontra em uma influente igreja neopentecostal a oportunidade de superar a pobreza e transformar sua vida. Sua rápida ascensão como pastor é marcada por ambição, segredos, desejos reprimidos e traições. Quinze anos depois, ele decide revisitar o próprio passado em busca de respostas para as escolhas que moldaram sua trajetória. Drama.
Crítica
Baseado no livro “Nos Bastidores do Reino: A Vida Secreta na Igreja Universal do Reino de Deus”, o filme Justino: Nos Bastidores do Reino talvez possa surpreender crentes e fieis que porventura se deparem com essa narrativa. No entanto, é também difícil imaginar que esses teriam um interesse natural em assistir a um longa cujo mote é uma denúncia contrária a tudo que acreditam e profetizam em suas práticas e orações. Por mais que o autor desse texto seja alguém que esteve intrinsicamente conectado com muitos dos segredos e articulações que se dão longe dos olhares dos seguidores e distante dos púlpitos e do registro das câmeras. Fala-se de Mário Justino, que é tanto fonte quanto protagonista de uma história que os mais críticos poderiam antever sem muito esforço, e cujos meandros merecem ser estudados tanto por sociólogos e analistas da sociedade brasileira, como pelos cinéfilos curiosos por uma reflexão tão diretamente conectada com os tempos atuais. A trama pode estar ambientada décadas atrás, mas seus efeitos, causas e consequências seguem repercutindo até os dias de hoje. E a pertinência deste debate, aqui resgatado por meio da arte, justifica os esforços envolvidos.

Um dos profissionais mais constantes do cinema brasileiro contemporâneo, José Eduardo Belmonte está mais uma vez no comando de um enredo digno da atenção despertada. Este é nada menos do que o terceiro longa do cineasta a participar da mostra competitiva do Festival de Gramado em menos de cinco anos – após O Pastor e o Guerrilheiro (2022) e Uma Família Feliz (2023). Nesse meio tempo ainda esteve no Festival de Brasília, com Assalto à Brasileira (2025), no Festival do Rio, com Quase Deserto (2025), e comandou uma série (Vizinhos, 2023). Um volume de entrega tão impressionante como esse tem seu preço, e algo disso pode ser percebido durante o desenrolar dos (muitos) acontecimentos que fazem parte da narrativa de Justino: Nos Bastidores do Reino. É tanta coisa abordada para dar conta do tanto que foi visto – e vivido – pelo personagem-título que por vezes nem tudo ganha a abordagem, ou o desenvolvimento, necessário. Caberá ao espectador identificar a relevância de cada desdobramento e destacar as passagens mais transformadoras, diferenciando-as dos momentos meramente casuais.
Sim, pois esses também existem, como em qualquer cinebiografia. Justino, vivido com intensidade por Christian Malheiros, que se confirma com este trabalho como um dos mais interessantes intérpretes de sua geração, foi um rapaz de origem humilde que encontrou na religião uma forma de escapar de uma existência de violências e resignações. Sua jornada, ao menos nesse ponto, não se difere de milhares semelhantes percorridas de norte a sul do Brasil. Ele, no entanto, foi além. Não contente em apenas sentar na audiência, reconheceu ali uma oportunidade de crescimento pessoal. E dono de um carisma próprio, foi logo abraçado – e absorvido – por um sistema que fazia da igreja um negócio como qualquer outro. O importante era lucrar. E os que se saiam melhor, é fato, cresciam na vida. Tanto financeiramente, como diante dos olhos de seus superiores, ganhando novas responsabilidades, mas também desfrutando de outras facilidades.
Entre essas estavam as condições necessárias para ser quem ele, de fato, era, longe dos holofotes e dos interesses dos demais. Justino é um homem gay, e ainda jovem se apaixonou por um colega de atividade, Lúcio (Lucas Leto). As cenas íntimas dos dois elaboram bem o quão difícil deveria ser a entrega de ambos a um desejo tão fortemente reprimido, como também reforçam o contraste no qual eles estavam imersos. Tal condição não poderia se manter por muito tempo, e entre mudanças de destino, intervenções de superiores e até mesmo casamentos forçados, a verdade se impôs de tal forma que sua continuidade se mostrou inviável. Abandonado pelo império que ele próprio ajudou a construir, Justino se viu sozinho e sem ter a quem recorrer em um país que lhe era estranho e onde nem mesmo a língua compreendia. Foi somente então que, enfim, teve início sua verdadeira transformação. Uma mudança tamanha que resultou tanto numa forma lúcida de ver e encarar a vida, como em desdobramentos práticos, tal qual o livro e esse filme que dele se originou.

Por meio de belas reconstituições, um elenco coeso – as construções, tanto dramáticas, como de composição, dos tipos defendidos por Caio Blat, Bruno Garcia, Gustavo Vaz e, principalmente, Angel Ferreira (também conhecido por Igor Angelkorte), oferecem nítida sensação do ambiente de controle e exploração que surgia por meio dos cenários visitados pela trama – e uma mão segura no comando, Justino: Nos Bastidores do Reino peca apenas por tentar abraçar o muito a ser dito por meio de um conjunto nitidamente limitado. A força dessa exposição talvez ganhasse ainda mais evidência por meio de uma minissérie, ou, por outro lado, caso o roteiro tivesse optado por abrir mão de tantas arestas e fosse direto aos pontos de revolta e espanto: a ganância, a ousadia, o desprezo e a ausência de consideração por todos os envolvidos. Mario Justino foi mais um dentre tantos. Aqui, ao menos, sua voz se eleva. E sua trajetória encontra, finalmente, a justiça merecida.
Filme visto durante o 54o Festival de Gramado, em agosto de 2026
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