La Perra

Crítica


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Sinopse

Em La Perra, Silvia vive em uma ilha no sul do Chile até que a adoção de uma cadela chamada Yuri transforma sua rotina. A convivência com o animal desperta lembranças, traumas antigos e desejos que permaneciam reprimidos, levando a protagonista a revisitar aspectos profundos de sua própria história. Drama.

Crítica

Uma cachorra em alto-mar, sobrevivendo a muito custo, sabe-se lá como, é resgata por pescadores que a encontram quase ao acaso. Uma mulher que vive como catadora de algas em uma ilha no Pacífico, tão distante do continente quanto de qualquer sentimento de entrega ou pertencimento. Uma família que decide na distância ter identificado uma chance de recomeço, de descanso ou mesmo de mero respiro. Três momentos isolados, aparentemente, mas conectados pela tragédia. Uma que ficou no passado, mas que segue repercutindo até os dias de hoje. Em La Perra, a diretora Dominga Sotomayor espalha as peças do quebra-cabeça sobre o qual está disposta a se debruçar como um fino retrato de dor e desilusão, em um emaranhado por sentir algo que há muito lhe foi roubado. O filme não revela seus segredos, assim como suas verdades, sem cobrar um preço por isso. Há que se ter resiliência, da mesma forma como se fazer necessário um compartilhamento de crenças, esperanças e frustrações. O plano comum no qual o que se espera encontra o que foi depositado, restando arestas que por vezes poderão se mostrar afiadas, assim como em outras se confirmarão apenas irrelevantes.

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Responsável pelo intenso Tarde Para Morrer Jovem (2018), Sotomayor representa hoje a cara do novo cinema chileno. Esse filme de agora nasce do trabalho dela a partir do roteiro escrito por Inés Bortagaray (A vida invisível, 2019), que se encarregou de adaptar o romance homônimo da escritora colombiana Pilar Quintana. Ou seja, foram muitos os olhares femininos que permitiram que La Perra se tornasse realidade. Essa é uma característica do produto final que não passa desapercebida. E não por qualquer clichê do gênero, como “nossa, como é sensível”. Pelo contrário, Silvia, interpretada por Manuela Oyarzún (No, 2012) é uma mulher embrutecida pelo passar dos anos, cujos sentimentos são apenas confidenciados àqueles que mais próximo dela conseguem chegar, vencendo barreiras, dissimulações e desvios. E ainda assim, a esses ela entrega apenas partes de um todo complexo e de difícil elaboração. Pois não resulta de eventos e construções simples. O mergulho no âmago de uma pessoa não se dá em piscina aquecida, mas em mar bravio, rebelde e arrepiante.

Quando Silvia decide levar para casa um filhote recém-nascido, tem em si tanto o intuito de salvá-lo de um desfecho cruel, como buscar uma companhia que possa lhe oferecer o necessário, sem exigir muito em troca. Enganada estava, portanto. Pois a cadela cresce e, mesmo tanto tempo depois, segue mantendo o mesmo espírito inquieto de suas primeiras semanas. Ela foge e volta por si só, desaparece nos olhares atentos da cuidadora para latir para cavalos, afugentar vacas e explorar destinos. Porém, quando os dias se acumulam e ela não é mais vista, o sinal de que algo sério pode ter acontecido é dado. A busca pelo animal parece não ter limites, mas eis que um se apresenta: a caverna rochosa na costa, de árduo acesso e segurança instável. Ali se esconde também um passado ainda difícil de ser processado. E a simples menção dessa possibilidade obriga a que estava focada no bicho de estimação a voltar-se para o esconderijo onde há anos habita, que dele já fez lar e cujo conforto não possui intenções de abrir mão. Nada mais, afinal, parece importar.

O sofrimento que com tudo retornou a levou para décadas atrás, quando ainda pequena e criada pelos tios. A mãe havia partido para buscar uma vida melhor longe dali, e prometeu um dia buscá-la. Enquanto isso, a menina fazia daquele canto do mundo o seu universo. Quando uma família abastada para lá se dirige, num breve monomotor, vislumbrando ali um paraíso a ser levantado, como destino de férias e encanto, para os locais parecia ser apenas mais um trabalho a ser executado até o sol se por. Enquanto isso, as crianças seguem soltas. Mas há uma diferença entre as que ali nasceram e foram criadas, e que veem cada desnível ou formação como uma aventura a ser vivida, e a que vem de fora, experimentando talvez pela primeira vez um misto de curiosidade e insegurança. Eis a fórmula do desastre. E as consequências de algo tão banal, que tantas vezes antes fora percorrido, agora irão se impor de modo transformador. Eis, enfim, um antes e um depois. Tanto para os estrangeiros, que não saberão a quem recorrer. Como para aquela que se mostrara diferentemente envolvida, que não terá direito às respostas que tanto sonha em questionar.

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Por vezes se estendendo para além do necessário – o terço final, principalmente, poderia ser mais objetivo – e apostando em um entendimento que nem todos na audiência poderão se mostrar dispostos a abraçar, La Perra aponta para a inocente e audaz figura citada no seu título, quando desde o início tudo o que lhe interessa é o redemoinho de inquietações, tristezas e angústias que aos poucos começam a transbordar de dentro de Silvia. Oyarzún carrega estas emoções nos gestos contidos e em olhares oblíquos, permitindo acesso a eles apenas por meio de decisões tomadas de forma repentina ou afetos observados por meio de reflexos e fretas enviesadas. Nota, ainda, para a participação delicada do brasileiro Selton Mello, que surge por meio de um personagem essencial ao conjunto, permitindo-se ir desde o encantamento paternal que dedica à protagonista, como um acúmulo de decepção e imobilidade que tão bem representa o conflito geográfico onde a ação – ou falta dessa – ocorre. Um registro lento, de calor sofrido e ventos fortes. Mas que, ainda assim, encontra sentido, mesmo que pelo mais inesperado dos reencontros.

Filme visto durante o 54º Festival de Gramado, em agosto de 2026

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é crítico de cinema, presidente da ACCIRS - Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul (gestão 2016-2018), e membro fundador da ABRACCINE - Associação Brasileira de Críticos de Cinema. Já atuou na televisão, jornal, rádio, revista e internet. Participou como autor dos livros Contos da Oficina 34 (2005) e 100 Melhores Filmes Brasileiros (2016). Criador e editor-chefe do portal Papo de Cinema.

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