Crítica


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Sinopse

Jessie e o marido, Gerald, viajam para uma casa de campo para aproveitar um momento romântico, que envolve um jogo, a princípio, inofensivo. Até que ela é algemada na cama e de repente tudo se transforma numa luta angustiante pela sobrevivência.

Crítica

Os chamados filmes de câmara se chamam assim por serem ambientados em praticamente um único cenário na maior parte do tempo – são bons exemplos desse estilo 12 Homens e uma Sentença (1957), Cães de Aluguel (1992) e Deus da Carnificina (2011). Entretanto, os gêneros de terror e suspense parecem ter um interesse especial nessa configuração de trama, já que o confinamento costuma dar uma boa premissa de tensão, gerando títulos igualmente eficientes como Cubo (1997), Jogos Mortais (2004), Enterrado Vivo (2010) e Locke (2013). Porém, da mesma forma como oferecem desculpas para desenvolver o horror claustrofóbico e a limitação de recursos impostas a seus personagens, esse subgênero também requer de uma dose de criatividade para funcionar, uma vez que precisa inventar obstáculos convincentes e interessantes para preencher a trama – algo que este Jogo Perigoso consegue fazer, surpreendentemente, investindo menos nos sustos e no choque, e mais num sensível aprofundamento psicológico de sua protagonista.

Ou, talvez, que o filme funcione dessa maneira não devesse ser surpresa alguma, afinal, trata-se de mais um projeto comandado por Mike Flanagan, um realizador ainda pouco falado, mas que já demonstrou ter grande talento para conseguir arrepiar e deixar tenso o espectador. Isso porque parece compreender muito bem no que é baseada a dinâmica entre público e obra que nos leva ao susto ou à torcida nervosa por essa ou aquela figura em tela: a empatia. Costumamos temer apenas por personagens com os quais temos uma identificação (normalmente nascida da fragilidade, já que defender indivíduos nessa situação é um instinto universal), e o cineasta é especialmente hábil em desenvolver a personalidade e o drama dos seus. Então, é apropriado que ele seja agora responsável por uma adaptação de Stephen King, que enquanto escritor, tem talentos similares. E depois dos ótimos O Espelho (2013) e Ouija: A Origem do Mal (2016) – muito superior ao primeiro – e ainda os bons Hush: A Morte Ouve (2016) e O Sono da Morte (2016), o diretor volta aqui a apresentar um projeto que trabalha pelas suas reações.

Jessie (Carla Gugino) e seu marido (Bruce Greenwood) estão a caminho de sua casa à beira do mar para passar um final de semana tentando reavivar seu casamento. Para a ocasião, ele trouxe duas algemas para os dois brincarem na cama, onde as usa para prender Jess na estrutura da cabeceira. Porém, as coisas não saem como o esperado e ele acaba sofrendo um ataque cardíaco, morrendo por cima da esposa antes de soltá-la das algemas, deixando a mulher presa ao móvel e sozinha numa casa isolada de tudo. Para piorar a situação, um cão aparece farejando o corpo do homem, e começa a se alimentar dele, deixando a entender que, uma vez satisfeito com aquela fonte de carne, irá se focar nela. Com os braços praticamente inutilizados e sem quase nada ao alcance do corpo, ela agora tem de descobrir como vai sobreviver até alguém encontrá-la ou um modo de se soltar.

Num cenário tão limitado, o longa não demora a exaurir as opções de Jess, e logo começa a introduzir outros elementos, como sua consciência, que toma a forma do marido e dela própria, o que agiliza o andamento da trama – sendo até divertido acompanhar como os diálogos entre o trio traduzem o raciocínio lógico da protagonista. Além disso, essa mistura de realidade e projeção também funciona para colocar em dúvida o que está realmente acontecendo no quarto e o que está se passando apenas na cabeça dela. E ao invés de soar como uma desculpa pobre para alongar a narrativa, quando o recurso permite ao filme mergulhar nas lembranças de Jess, Flanagan aproveita para criar uma nova e imersiva dimensão para a história, desenvolvendo eficientemente uma atmosfera gradativamente mais ameaçadora, usando para isso a progressiva cor cada vez mais avermelhada com que um eclipse solar vai pintando o céu. Ao mesmo tempo, aproveita para enquadrar a versão jovem de Jessie ao lado de seu pai, que surge recorrentemente com o rosto cortado fora do plano, insinuando o perigo que ele representa. Aliás, na contramão do que qualquer filme de horror parece se sentir obrigado a fazer atualmente, o cineasta prefere extrair seus sustos não de um efeito sonoro alto que salta nas caixas de som, mas de planos simples, como aquele que revela uma figura parada num canto escuro onde não deveria haver ninguém, ou de um travelling que sugere a aproximação de uma ameaça entrando na casa.

Obviamente que, apesar da inteligente condução de Flanagan, boa parte da responsabilidade do sucesso da obra acaba recaindo sobre Carla Gugino, sozinha em tela por quase toda a duração – isso quando não contracenando consigo mesma. Embora a versão idealizada do marido dê a Bruce Greenwood a chance de construir um homem que encarna tanto a visão que Jess tinha do esposo quanto sua própria consciência autocrítica, é mesmo a atriz quem confere ao longa uma sensibilidade insuspeita, rebatendo a bola levantada pela direção. Com seus grandes olhos claros, ela consegue admiravelmente evocar tanto a insegurança natural de Jessie e o medo experimentado por ela naquela situação, quanto sua força para superá-la – surgindo como uma mulher que consegue ser simultaneamente indefesa e empoderada.

Por isso, inclusive, que os minutos finais do longa tropeçam justamente por tentar ilustrar essa situação, tentando reforçar algo que Gugino já tinha deixado estabelecido. Além de também retirar boa parte da magia extraída da ambiguidade de certos elementos ao oferecer explicações demais sobre eles. Apesar disso, o desfecho ao menos comete esses pecadilhos no intuito de proporcionar uma conclusão à altura do arco percorrido pela protagonista, e consegue – o que ressalta algo: Mike Flanagan e Carla Gugino são artistas que merecem bem mais atenção do que recebem.

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é formado em Produção Audiovisual pela PUCRS, é crítico e comentarista de cinema - e eventualmente escritor, no blog “Classe de Cinema” (classedecinema.blogspot.com.br). Fascinado por História e consumidor voraz de literatura (incluindo HQ’s!), jornalismo, filmes, seriados e arte em geral.
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Grade crítica

CríticoNota
Matheus Bonez
8
Thomas Boeira
7
MÉDIA
7.7

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