Crítica

James Wan ainda recebe crédito por ter atribuído alguma novidade aos thrillers sobre assassinos seriais em Jogos Mortais (2004), inesperado sucesso de público e crítica que, posteriormente, sucumbiu ao lançamento de cada uma de suas descerebradas sequências. A preocupação do cineasta em não subestimar o espectador e ressignificar alguns clichês recorrentes do suspense também garantiram a Invocação do Mal a consistência necessária para ser o mais intrigante exemplar recente do gênero.

Pense em todos os filmes que você já viu ou evitou ver sobre uma família que se muda para uma casa nova e passa a ser atormentada por entidades sobrenaturais. Invocação do Mal tem a exata mesma premissa, com a particularidade de ser supostamente baseada em fatos, inspirada num dos casos estudados pelos investigadores paranormais Ed e Lorraine Warren. O ótimo insight comercial que colabora com a mítica história diz que tal experiência, com a família Perron, foi a única que o casal manteve em segredo absoluto – até agora.

Os roteiristas gêmeos Chad e Carey Hayes, responsáveis pelo involuntariamente hilário A Casa de Cera (2005), dividem sua narrativa em atos claros que desenvolvem satisfatoriamente a interação entre as famílias Warren e Perron, e gradativamente atribuem elementos de terror a serviço do verdadeiro suspense – aquele que não se vale somente de sustos fáceis e recursos sonoros óbvios. A despretensão de algumas situações e a seriedade com que apresentam as das verdades do filme – como a boneca demoníaca Anabelle – tornam a experiência com a produção ainda mais interessante.

Wan alcança uma tensão crescente ao utilizar o silêncio como seu principal aliado, prolongando perturbadoramente sua câmera em determinados planos; a construção do clima é inteligente e inusitada. Christine, pequena filha do casal Perron, tem seus pés puxados para fora da cama. Aterrorizada, ela grita e chama sua irmã, que passa a encarar com ela a estranha escuridão atrás da porta entreaberta. Nada realmente ocorre na sequência, porém o simples enquadramento fixo nas sombras cria na mente do espectador mais suscetível ao medo quaisquer imagens assustadoras que sua criatividade lhe permitir. Eis uma solução simples para fragilizar uma plateia, que gradativamente e involuntariamente se submete ao horror – estratégia que marcou gerações com o talvez insuperável O Exorcista (1973).

Uma das razões para o filme funcionar tão bem são suas atuações. Lili Taylor, escolada no sobrenatural por conta do esquecível A Casa Amaldiçoada (1999), é totalmente convincente como a apavorada mãe Carolyn, assim como Vera Farmiga na pele da mulher investigadora. Patrick Wilson reprisa sua parceria com James Wan em Sobrenatural (2010), mas quem merece maior atenção é a jovem Joey King (Christine), que demonstra em mais de um momento um olhar de puro terror em sua face de 12 anos de idade – e deixa a curiosidade de como os realizadores atingiram tal pavor de uma atriz iniciante.

Com o êxito comercial e crítico com que Invocação do Mal foi recebido nos EUA, não será surpresa caso o filme ganhe continuidade em outras obras brevemente, uma vez que Edward e Lorraine Warren possuem uma extensa carreira que já rendeu argumento para filmes como Horror em Amityville (1979) e Evocando Espíritos (2009). Independente do futuro da provável franquia ou série, o compromisso com a simplicidade deste capitulo faz da produção uma sessão divertida e até mesmo arrepiante – ainda mais para aqueles que apreciam o que existe escondido nas sombras.

As duas abas seguintes alteram o conteúdo abaixo.
avatar
é crítico de cinema, membro da ACCIRS - Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul. Graduado em Publicidade e Propaganda, coordena a Unidade de Cinema e Vídeo de Caxias do Sul, programa a Sala de Cinema Ulysses Geremia e integra a Comissão de Cinema e Vídeo do Financiarte.
avatar

Últimos artigos deConrado Heoli (Ver Tudo)

Veja também

Comentários