Crítica


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Sinopse

Noeli e Júlio estão juntos há anos. O casal leva uma vida humilde, mas enriquece quando o molho de tomate Juno, criado por eles, torna-se um sucesso. Com o passar dos anos, os dois abrem uma grande empresa, mas o dinheiro e a rotina os distancia. E um mal entendido é a gota d’água para a separação. Para defender o patrimônio, cada um tenta achar o melhor advogado para si, o que gera um processo cheio de confusões e cenas hilárias.

Crítica

Um carro serpenteia veloz pelos corredores das plantações de Ribeirão Preto. A música agitada entra em consonância com a montagem para conferir agilidade à sequência, que ainda apresenta Júlio (Murilo Benício) dirigindo e se desvencilhando como pode das cordas que o prendem. Em paralelo, uma cerimônia de casamento em andamento, com a noiva, Noeli (Camila Morgado), demonstrando flagrante inquietude. Esse é o começo de Divórcio, comédia que, então, desde o seu prólogo muito bem filmado, demonstra uma qualidade patente, por utilizar as ferramentas do cinema para tornar seu transcorrer dinâmico e expressivo. A subsequente retirada da noiva do altar é um dos vários clichês com os quais o diretor Pedro Amorim brinca inteligentemente no filme. Ao som da canção Evidências ­– tornada sucesso na voz da dupla Chitãozinho e Xororó, mas que aqui ganha roupagem roqueira e interpretação de Paula Fernandes – temos sintetizado o percurso longo do casal à considerável fortuna.

Por se passar no interior do estado de São Paulo, Divórcio tem acentos característicos da região, não apenas no que tange aos sotaques, mas também à ambiência, especificamente, de uma cena sertaneja feita de pessoas endinheiradas e inclinação ao kitsch. Todavia, o realizador passa ao largo de ridicularizar o meio que lhe serve de inspiração, tratando com habilidade seus códigos particulares, tais como o comportamento de homens e mulheres em festejos sintomáticos. Murilo Benício e Camila Morgado demonstram uma sintonia fina, tanto ao deflagrar o amor de seus personagens quanto, mais tarde, ao construir o clima bélico, a tensão que predomina por conta da separação em curso. Noeli e Júlio possuem risadas histriônicas, são suscetíveis às inúmeras possibilidades da riqueza, e, em medidas semelhantes, acabam sucumbindo aos encantos da futilidade. Fazer graça, dentro do itinerário desse longa-metragem, felizmente, passa pela criação prévia de vínculos e demais bases sólidas.

O aspecto puramente cômico é fértil em Divórcio. Boa parte das piadas surge justamente das brincadeiras com os estereótipos e as convenções, inclusive as do gênero. Ao invés de apostar em caras e bocas, de operar numa frequência superficial, como muitos artistas em obras congêneres fazem, Murilo e Camila utilizam seus talentos em função da instituição de situações verdadeiramente engraçadas. Pedro Amorim aproveita os traços do cotidiano pré-divórcio para construir uma atmosfera disposta a criticar o comportamento dos chamados “novos ricos”, o que, ao longo da trama, serve organicamente à mensagem subjacente, fundamentada na necessidade de valorizar o que é refratário aos ditames do dinheiro. Outra observação servidora dos anseios jocosos da produção diz respeito ao comportamento predatório dos advogados contratados. A briga judicial pela divisão dos bens e a guarda das filhas consegue ampliar essa sensação de corrupção derivada do acúmulo de bens materiais.

Valendo-se de personagens carismáticos e de uma preocupação evidente em transcender as esferas mais epidérmicas da comédia, Pedro Amorim cria um filme com os dois pés da realidade, embora a manipule exatamente com fins pitorescos. Luciana Paes vive a melhor amiga de Noeli com naturalidade e timing impressionantes. Outro destaque entre os coadjuvantes é Gustavo Vaz, que encarna um famoso cantor sertanejo com trejeitos e palavreado típicos, posto entre Júlio e sua amada, pois apaixonado por ela desde os tempos da escola. No centro de uma trama marcada por afetos e conflitos está o amor, celebrado no início com um ato de coragem e rebeldia, em estado letárgico logo depois, em decorrência da passagem dos anos e da acomodação à vida nababesca, e reconduzido ao patamar de força motriz e imprescindível quando as atitudes passam novamente a valer mais que as posses. Sem pieguice (a não ser a contestada), o filme nos cativa por suas virtudes.

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é crítico de cinema, membro da ACCRJ (Associação de Críticos de Cinema do Rio de Janeiro) e da ABRACCINE (Associação Brasileira de Críticos de Cinema,). É, também, professor da Escola de Cinema Darcy Ribeiro/RJ.
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