Crítica


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Crítica

Poucos cineastas ainda vivos possuem uma assinatura autoral tão marcante e imediatamente reconhecível quanto David Lynch. Não à toa, o termo lynchiano já é amplamente difundido no meio cinematográfico para tratar de obras com características oníricas e surreais, de tramas intrincadas e de estética sombria, que remetem ao estilo idiossincrático do responsável por filmes como Coração Selvagem (1990) e A Estrada Perdida (1997). Tais aspectos peculiares transmitem a nítida sensação de estarmos diante de produtos concebidos por uma mente tão complexa e atormentada quanto criativamente efervescente, e é justamente essa inquietação artística e psicológica o tema medular de David Lynch: A Vida de Um Artista, documentário dirigido por Jon Nguyen em colaboração com Rick Barnes e Olivia Neergaard-Holm.

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A proposta de Nguyen e de seus parceiros, entretanto, foge da esperada análise da filmografia de Lynch, optando por um relato extremamente pessoal sobre sua ligação com arte, externada na tela através de outra de suas facetas: a de pintor. É na pintura, atividade que primeiro atraiu o diretor na juventude e a qual se dedicou com maior intensidade – dividindo-a com a música e a literatura - desde o lançamento de seu último longa, Império dos Sonhos (2006), que o documentário encontra a via para investigar tanto o seu processo criativo quanto a sua personalidade. Nguyen apresenta um mergulho na intimidade de Lynch, guiado pelo próprio por meio de um verdadeiro monólogo, extraído de mais de 20 entrevistas em áudio captadas ao longo de três anos.

Ao colocar Lynch como a única voz de toda a projeção, o longa evita buscar interpretações e impressões de terceiros sobre sua figura ou seu trabalho, estabelecendo uma conexão mais franca e direta entre o cineasta e o público, algo que remonta ao impacto da experiência do primeiro contato com seus filmes. Assim temos o registro de Lynch falando em primeira pessoa sobre sua vida desde a infância na cidade de Missoula, Montana, com alguns planos que reencenam as entrevistas em um cenário típico de seu imaginário – um cubículo escuro com um microfone vintage e um abajur de luz vermelha – entrecortado por imagens de arquivo pessoal, filmes e fotos de família, imagens de seus quadros e filmagens de seu dia a dia atualmente, trabalhando em novas criações em seu ateliê ao lado da filha mais nova, Lula.

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No decorrer da narração de suas memórias, Lynch acaba quebrando alguns paradigmas a respeito de sua persona, ou daquilo que se fantasia sobre ela, tendo em vista as já citadas características de seu cinema. A aura tétrica e angustiante, presente também em suas pinturas – realizadas com as mais diversas técnicas - muitas vezes bizarras e sinistras, contrasta com a descrição lúdica de uma infância feliz em um lar acolhedor, com pais amorosos e compreensivos. Ao contrário do que se poderia imaginar, Lynch não revela grandes traumas ou dificuldades de socialização – ainda que cite as constantes mudanças de cidade devido ao emprego do pai, gerando a ansiedade/medo em ter que recomeçar os estudos em diferentes escolas - que pudessem justificar, em uma interpretação psicanalítica mais simplista, a natureza de suas criações.

Entretanto, em meio às lembranças das brincadeiras em poças de lama com o melhor amigo ou com os irmãos, Lynch revisita alguns episódios que trazem indícios dos elementos que viriam a compor o seu universo imagético, como a da mulher nua e ensanguentada avistada numa noite no gramado de sua casa, ou dos dias solitários ouvindo rádio quando se mudou para a Filadélfia. São imagens fortes que encontram espelho em seus filmes, como o cotidiano suburbano abalado pela violência em Veludo Azul (1986) ou a paranoia do protagonista de Eraserhead (1977). Já quando fala do fascínio juvenil pelas colinas de Hollywood, onde vive até hoje, é inevitável fazer a relação com Cidade dos Sonhos (2001). Por vezes esse vínculo entre a memória e a arte é direto, como nos exemplos acima, outras, porém, são quase indecifráveis, assim como a própria fala de Lynch.

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Em suas palavras é possível perceber o afeto sincero pelo passado, pela família – especialmente pela mãe, que sempre o incentivou a explorar seu potencial criativo – mas também seus anseios, sua dor, seus arrependimentos. As frases às vezes truncadas e inconclusivas, além de certos devaneios enigmáticos, refletem o caráter de suas criações, algo que Nguyen reforça através de elementos que replicam o estilo de Lynch – a fotografia lúgubre, a trilha sonora atmosférica de Jonatan Bengta inspirada no trabalho de Angelo Badalamenti etc. – transportando o espectador para o universo lynchiano. E precisamente quando o diretor adentra o mundo cinematográfico e a gênese de sua linguagem única, relembrando os tempos de American Film Institute, quando viveu por alguns anos num dos estábulos que faziam parte da instituição e onde concebeu Eraserhead, o documentário se encerra, com a versão em animação de uma das litografias de Lynch. Sem ter a intenção, ou pretensão, de apontar definições conclusivas sobre o artista, o longa lança uma luz sobre as sombras que envolvem a pessoa David Lynch, proporcionando uma bela e sensível aproximação entre ele e aqueles que o admiram.

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é formado em Publicidade e Propaganda pelo Mackenzie – SP. Escreve sobre cinema no blog Olhares em Película (olharesempelicula.wordpress.com) e para o site Cult Cultura (cultcultura.com.br).
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