Da Magia à Sedução

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Sinopse

Em Da Magia à Sedução, as irmãs Owen carregam a magia como herança familiar. Mas não apenas isso: há também uma maldição romântica que as persegue. Já que ambas parecem fadadas a não serem felizes no amor, elas vão utilizar como ferramenta esse subterfúgio que poucos têm. Com Nicole Kidman e Sandra Bullock.

Crítica

Seria por demais fácil, e até mesmo conveniente, recair numa armadilha nostálgica para apontar as supostas qualidades de Da Magia à Sedução, uma comédia que se convencionou, com o passar dos anos, a se referir a ela como inocente, até mesmo bobinha, à qual se recairia como em uma zona de conforto, algo com um “feel good movie”, um daqueles títulos que ninguém defende com ardor, mas ao qual muitos recorrem vez que outra em busca de previsibilidade e segurança. Bom, basta rever o filme, quase três décadas após o seu lançamento, para confirmar o quão mal tal obra envelheceu, a ponto de se apresentar, todo esse tempo depois, não apenas de forma anacrônica, mas ultrapassada, enferrujada e assustadoramente aguerrida a um discurso pernicioso e machista. E quanto a isso não há muita surpresa, pois se à frente das câmeras estão duas das maiores estrelas da época, nos bastidores quem ditava as regras era um homem na direção, dois no roteiro e mais um na produção. O equilíbrio, portanto, inexistia. E se era assim que as coisas se davam no final do século XX em Hollywood, se faz necessário reconhecer o quanto essa percepção vem mudando – felizmente, aliás.

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Da Magia à Sedução é baseado no primeiro da série de livros escritos por Alice Hoffman (até o momento quatro volumes já foram lançados, tendo sido o último em 2021, sendo que em 1998, ano desta adaptação, apenas um havia sido publicado, três anos antes), e conta a história de uma bruxa que, após ter sido abandonada por um grande amor e enfrentar imenso sofrimento motivado por tal decepção, decide amaldiçoar a si mesma (?) e a todas as mulheres da sua família (??), anunciando que qualquer homem que por elas se apaixonasse terminaria morto (???). Se essa premissa não faz o menor sentido, as coisas ficam ainda piores. Sim, pois o argumento, ainda que seja propulsor dos eventos vistos no início da trama, logo é deixado de lado para não mais voltar. Exato. O filme escrito por Akiva Goldsman (vencedor do Oscar pelo hoje esquecido Uma Mente Brilhante, 2001, e naquele momento em evidência por ter sido o responsável pela trama do horroroso Batman & Robin, 1997, trabalho que lhe rendeu uma indicação às Framboesas de Ouro como um dos piores da temporada) e Adam Brooks (que no mesmo ano assinou o constrangedor Bem Amada, 1998, longa que praticamente encerrou as pretensões cinematográficas de Oprah Winfrey) decide mirar assuntos mais espinhosos, porém tratados com tamanha leviandade que impressiona as protagonistas terem aceitado fazer parte de tão evidente constrangimento.

Nem Nicole Kidman ou Sandra Bullock haviam ganho seus Oscars quando aceitaram participar deste projeto. Kidman receberia sua estatueta cinco anos depois, por As Horas (2002), enquanto que Bullock conquistaria a sua por Um Sonho Possível (2010). No final dos 1990, porém, ambas estavam em alta por causa de sucessos populares, como Velocidade Máxima (1994) e Enquanto Você Dormia (1995), no caso da morena, ou Batman Eternamente (1995) e O Pacificador (1997), ambos do currículo da loira. Colocá-las lado a lado, e não apenas como irmãs, mas também como bruxas, gerou grande expectativa. E por mais que Robin Swicord (Adoráveis Mulheres, 1994) tivesse participado tanto do roteiro quanto da produção, no final das contas quem tinha a palavra final era Griffin Dunne, um ator mediano, mais conhecido por ter sido protagonista de um filme menor de Martin Scorsese (Depois de Horas, 1985) e de uma comédia feita por encomenda para o estrelato de Madonna (Quem é essa garota?, 1987), e que depois de quase uma década fora do radar tentava se reinventar como cineasta, conduzindo obras voltadas ao público feminino (o anterior, que marcara sua estreia atrás das câmeras, fora o igualmente irrelevante A Lente do Amor, 1997).

Fora Dunne que decidiu eliminar qualquer personagem masculino presente no enredo que fosse minimamente simpático (Mark Feuerstein, como o primeiro marido de Bullock – e vítima da “maldição” familiar – entra e sai de cena sem dizer uma única palavra), ao passo que colocou as duas irmãs tendo que lidar, primeiro, com um namorado violento e abusador (o croata Goran Visnjic, fazendo o papel que invariavelmente sobrava aos estrangeiros), e depois com um investigador nada convencido da alegada inocência da dupla (Aidan Quinn, que foi o irmão mais velho de Brad Pitt em Lendas da Paixão, 1994, e namorado da Meryl Streep em Música do Coração, 1999). Sim, pois em meio a mais um episódio de agressões do namorado de Gillian (Kidman), sua irmã, na tentativa de defendê-la, acaba matando o rapaz – pois é, Bullock interpreta uma assassina. Porém, ao invés de simplesmente relatarem o ocorrido na delegacia mais próxima – afinal, tratava-se de legítima defesa, na qual elas eram as vítimas – decidem primeiro enterrar o corpo no jardim da própria casa (!), para em seguida fazer uso dos seus poderes sobrenaturais para ressuscitá-lo (!!). Apenas para na sequência, quando ele retorna como assombração, terem que descobrir como se livrar daquela ameaça mais uma vez (!!!).

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Indeciso entre comédia romântica, thriller policial, drama familiar e saga fantástica, Da Magia à Sedução se confirma uma bagunça do início ao fim. A personagem de Kidman, a mais livre e independente, é a que mais sofre nas mãos dos homens. Já a irmã vivida por Bullock, a comedida e “do lar”, é que é chamada para resolver os problemas e que acaba sendo ‘recompensada por bom comportamento’ com um romance para chamar de seu (algo que, se imagina, não deverá durar muito, pois a tal maldição que as persegue segue ativa). E quanto aos elementos fantásticos, esses se resumem a um chapéu de bruxa, a uma erva misturada no chá e a uma levitação cômica ao final, meio que forçando uma impressão de que “tudo está bem se acaba bem” – o que não poderia ser mais ilusório e enganador. De andar truncado, com figuras mal desenvolvidas, acontecimentos forçados e presenças desperdiçadas – o que as veteranas Dianne Wiest e Stockard Channing estão fazendo aqui? – o resultado é um embaraço cuja maior surpresa é não ter sido sumariamente relegado ao descaso e esquecimento. Nada como a máquina hollywoodiana para apagar memórias frustrantes no intuito de fazer com que as bilheterias sigam operando. Para o bem e, como é o caso, para o mal.

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é crítico de cinema, presidente da ACCIRS - Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul (gestão 2016-2018), e membro fundador da ABRACCINE - Associação Brasileira de Críticos de Cinema. Já atuou na televisão, jornal, rádio, revista e internet. Participou como autor dos livros Contos da Oficina 34 (2005) e 100 Melhores Filmes Brasileiros (2016). Criador e editor-chefe do portal Papo de Cinema.

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