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Sinopse
Em Cinco Tipos de Medo, Murilo, um jovem músico em luto, se envolve com Marlene, enfermeira presa a um relacionamento abusivo com um traficante. Suas histórias se cruzam com as de Luciana, policial movida por vingança, e Ivan, advogado com intenções ocultas. Cinco vidas aparentemente desconectadas colidem num caminho sem volta. Drama.
Crítica
É difícil apontar o protagonista de Cinco Tipos de Medo, da mesma forma como é provável que a maioria eleja Murilo, personagem de João Vitor Silva, para essa função. Afinal, é ele que está hospitalizado na primeira cena, é quem elenca os diferentes e mais frequentes receios que afligem o indivíduo segundo possíveis estatísticas, e é, acima de tudo, quem está conectado com a maioria dos demais elementos que transitam em cena. Isso, de forma alguma, significa ter ele mais importância que os outros. E este é provavelmente o maior mérito do longa escrito e dirigido por Bruno Bini: sua impressionante engenharia narrativa, que conecta figuras distintas e aparentemente de universos alheios de uma forma orgânica, até mesmo lógica, sem que isso se imponha de modo forçado ou até mesmo artificial diante os acontecimentos percorridos. Eis, enfim, um filme que apela tanto ao espírito crítico da audiência como a um viés mais popular de parcela dos espectadores, conseguindo conciliar com habilidade dois lados comumente vistos como opostos.

Murilo, portanto, está em um hospital. Fala-se da pandemia do Covid-19, e o rapaz, que chegou a ser entubado pela dificuldade do corpo processar o oxigênio, escapou por pouco desse período em que esteve internado. A reclusão lhe trouxe uma boa notícia, mas também uma péssima. De um lado, há a mãe, que adoeceu quase que ao mesmo tempo em que ele e que, infelizmente, não resistiu. Mas ambos foram cuidados, entre outros profissionais da área médica, pela enfermeira auxiliar Marlene (Bella Campos, estreando no cinema). Se o jovem parte agora para a vida completamente órfão, ao menos pode aspirar ter encontrado um novo amor. O que de fato poderia acontecer naturalmente, não fosse ela estar envolvida com um perigoso traficante, o Sapinho (Xamã, inaugurando o tipo que depois repetiria na novela Três Graças, 2025-2026, e na minissérie Os Donos do Jogo, 2025). Este, por sua, tem cada vez mais agregado ao seu bando jovens desiludidos, como o filho da policial Luciana (Barbara Colen). Este envolvimento, que acaba com qualquer imparcialidade por parte dela, poderia representar também sua danação profissional, não fosse a proposta que recebe do advogado Ivan (Rui Ricardo Diaz). Cada um dos citados tem seu motivo para ir adiante com planos que somente aos poucos serão revelados. E acompanhar tais descobertas é apenas parte das boas surpresas.
Sim, pois Bini não está disposto a apenas entreter. Na mesa pela qual espalha suas ideias, há outros interesses em jogo. Deixando de lado o eixo Rio-São Paulo, ele faz de Cinco Tipos de Medo um exemplo de cinema pulsante longe dos grandes centros, mostrando – e provando – que o Brasil é rico não apenas em iniciativas, mas também em realizações. A Cuiabá pela qual estes personagens percorrem é violenta, mas também repleta de vida. É uma cidade onde as pessoas podem se apaixonar pelo vizinho, o mesmo que guarda armas em uma bela estante de vidro iluminada que num estalar de dedos estarão prontas para serem usadas como parte de uma chacina. É um lugar por onde transitam voluntários buscando salvar doentes, mas também um espaço que abriga ruas mal iluminadas onde a partir de determinado horário o cidadão se verá obrigado a pagar pedágio aos bandidos caso queira sair de casa – ou voltar um pouco mais tarde para o lar que lhe pertence. A morte, assim como a alegria, é inesperada e aleatória, e pode estar no dobrar de uma esquina ou num momento de romance aparentemente às escondidas, mas do qual os olhos mais improváveis não deixarão de estar atentos.
Enquanto vértice ao qual em um momento ou outro todos os demais acabarão recorrendo, João Vitor Silva revela comprometimento e versatilidade ao construir um tipo que vai da ingenuidade ao comando sem maiores tropeços. O ator visto rapidamente em O Agente Secreto (2025) aqui tem um personagem complexo em mãos, e não desperdiça a oportunidade. Por outro lado, há dois veteranos – se é possível considerá-los como tais – que se confirmam como alicerces aos desenrolares percorridos. Barbara Colen é dor e superação, e a energia que despende quando em atividade vem da mesma fonte do sofrimento indignado que permite de si transbordar em meio aos embates familiares. Também surge de uma tragédia íntima a força que move Rui Ricardo Diaz. O homem que já foi Lula e há pouco estava correndo atrás de anacondas dessa vez conta com o apoio de Bini também na montagem, fazendo da sua presença a mais misteriosa – e questionável, e intrigante, e justamente por isso, envolvente – de todo o elenco. Suas intenções não são óbvias, e o ator trabalha com controle e paciência o domínio dessas informações que apenas ele guarda e lentamente decide compartilhar com o espectador. Estar ao seu lado revela empatia, mas também aponta algo tão cruel quanto muitos dos caminhos por onde estes aqui reunidos, tomados pela perda e pela tormenta, não se cansam em percorrer.

Em determinado momento, um apaixonado diz para aquela em seus braços: “vamos fugir?”. Essa vontade de partir sem olhar para trás pulsa nos gestos e motivações de quase todos os presentes, uns coadjuvantes dos demais, e ainda assim, cada um protagonista a seu modo das suas próprias dores e desventuras. Lá no começo, o narrador afirma que a morte não seria exatamente o temor mais citado entre as preocupações humanas, mas este é apenas um modo de ver as coisas. Pois muito do que se faz – e mais ainda, do que se deixa de empreender – gera consequências, e estas, se não afetam diretamente os envolvidos, também não hesitará em deixar abatidos aqueles vistos como efeitos colaterais. Em Cinco Tipos de Medo, pulsações como paixão e carinho estão em menor número do que vingança, luto e despedidas. Mas os pesos assumidos por cada um destes momentos é que terminam por fazer diferença. E assim um longa que se propõe a ser mais um thriller policial como tantos outros consegue, justamente por essa demonstração de humildade e competência, ir além de tão rasas expectativas, entregando com segurança um conto urbano de perda e superação, tão típico daqueles que não tem mais com quem contar, e que por isso poderão encontrar, uns nos outros, a oportunidade da redenção. Custe essa o preço que for.
Filme visto durante o 53o Festival de Gramado, em agosto de 2025
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