Backrooms: Um Não-Lugar

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Sinopse

Em Backrooms: Um Não-Lugar, Clark, um vendedor de móveis, descobre no porão de sua loja um portal que leva a um labirinto de corredores e salas que lembram um escritório infinito. À medida que se aprofunda na exploração desse espaço anômalo, ele passa a se fascinar pelas irregularidades do ambiente e convence uma funcionária e o namorado dela a ajudá-lo a mapear o local. Horror/Ficção científica. 

Crítica

Kane Parsons tinha apenas 16 anos quando seu nome começou a chamar atenção por causa de uma websérie de terror veiculada diretamente no youtube chamada… Backrooms! Agora, quatro anos depois, ele faz história em Hollywood como um dos diretores mais jovens a comandar um grande projeto para um estúdio de respeito – no caso, a cultuada A24. Trata-se, obviamente, da versão para o cinema da sua própria criação: Backrooms: Um Não-Lugar chega aos cinemas com orçamento milionário (estima-se algo entre US$ 10 milhões a US$ 20 milhões) e elenco comandado por dois astros indicados ao Oscar – Chiwetel Ejiofor (12 Anos de Escravidão, 2013) e Renate Reinsve (Valor Sentimental, 2025). Porém, com uma expectativa tão alta – ao menos em um nicho específico de público – é de se perguntar se o resultado exibido nas telas está à altura do esperado. Para o sim e para o não, eis algo que merece um olhar atento e que evita respostas rápidas. Em uma realidade cujo lazer tem sido proporcionado cada vez mais por meio de propostas simplistas, se deparar com algo que vai na contracorrente dessa tendência pode não representar de imediato a grande obra pela qual muitos esperavam, mas é também inegável que não deixa de ser uma grata surpresa constatar tal ousadia e coragem.

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A impressão que toma conta do espectador ao assistir à Backrooms: Um Não-Lugar é semelhante àquela vivida pelos cinéfilos de trinta ou quarenta anos atrás quando decidiam mergulhar em um dos trabalhos de David Lynch, como Veludo Azul (1986) ou Mulholland Drive: Cidade dos Sonhos (2001). Pois o que se verifica é um imenso quebra-cabeças, cuja qualquer fala, objeto ou sequência, por mais insignificante que possa parecer num primeiro momento, pode vir a representar peça fundamental para que o desafio proposto seja não apenas decodificado, mas entendido como um todo, e não apenas por suas partes em separado. São duas histórias paralelas que, aos poucos, vão convergindo em apenas uma, até que se compreenda que uma não se tornaria possível sem a outra e a conexão que as liga é tanto suporte como razão de suas existências. E se amaos fazem parte de um todo mais amplo, qual é a que dita as regras e qual é a que se mostra submissa ao seu oponente? Em uma simbiose tão instintiva, difícil se mostrará a tarefa de separar um plano de outro, a ficção do seu inverso. E assim por diante. Parece complicado. Mas pode ser ainda pior.

Clark está infeliz. Ou talvez assim ele seja, já como parte de sua personalidade. Uma característica, portanto. Recém separado, foi posto para fora de casa pela ex-esposa. Formando em Arquitetura, nunca chegou a exercer a profissão. Hoje possui uma loja ultrapassada de móveis que está sempre vazia. Ninguém parece se importar com ele. Sem ter para onde ir, ao final de cada dia se recolhe em uma das camas no vasto salão de mostruário no qual passa suas horas a espera de clientes, para, enfim, descansar e esquecer. Mas um barulho, um acender e apagar de luzes o obriga a investigar o andar inferior. Uma vez lá, percebe uma fresta na parede. Um facho iluminado a transpassa, permitindo identificar um outro espaço. Um quarto dos fundos. Um lugar que acessa como que por mágica. Uma vez lá, as coisas lhe serão familiares, mas também estranhas. Como se alguma etapa tivesse dado errado no processo. São quase boas. Quase normais. Mas falta algo. Trata-se de um lugar que lhe intriga. Tanto o fascina, como o assusta. Há uma presença incômoda, que o persegue, mas sobre a qual não tem muita certeza.

O mistério que percorre esse ambiente próximo, mas ainda assim distante, dita grande parte das ações percebidas em Backrooms: Um Não-Lugar. Pois Clark não está sozinho nessa jornada. Há também Mary, em quem ele depositou muitas das suas frustrações durante as diversas sessões que compartilharam. Afinal, é ela a terapeuta na qual ele buscava ajuda. Quando ele para de ir ao seu consultório, o instinto dela termina por falar mais alto e a leva a uma investigação por conta própria. Vai até o trabalho dele. Encontra a loja vazia, e decide verificar se há ali algum sinal do seu antigo paciente. Nessa busca acabará, é fato, se deparando com a mesma chave entre o real e o impossível. E uma vez que adentra naquele labirinto, uma sensação rapidamente se manifesta: ela não faz parte dali. Não pertence àquele cenário. Quando Clark a encontra, tenta avisá-la. E se o intento dela foi salvá-lo, somente um dos dois será bem-sucedido na missão a qual se dedicou. Ele se encontrou, e ali seus problemas parecem não tê-lo acompanhado. Então a mulher que o entende, que o escuta e que pode fazer com que aprenda a lidar com o até então incontornável, nesse novo contexto, se transforma em um problema, em um chamado ao enfrentamento, contrária à alienação. Será preciso, portanto, eliminá-la.

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Assim como Clark tem muito com o que lidar, Mary também possui seus próprios traumas que a acompanham. Com apenas vinte anos, Kane Parsons desenvolveu uma fábula que parte de teorias freudianas, envolvendo conceitos de Id, Ego e Superego, para propor uma reflexão a respeito da psicanálise humana nessa alegoria de medo, refúgio e aniquilação. Backrooms: Um Não-Lugar conta com dois atores no topo de suas habilidades conduzindo uma história que, quanto mais se desenrola, maior torna o enigma a respeito de si mesma. Não se trata de uma obra independente, que pode ser apreciada isolada de entendimentos prévios. Isso não é uma boa notícia, portanto. Mas, para os que já partem desse tipo de ciência, o investimento e mergulho que proporciona em uma lógica tão particular, mas ao mesmo tempo universal, revela impressionante maturidade, indo além de um mero conto fantástico para se firmar como reflexo da mente humana, um segredo composto por uma infinidade de portas que se abrem e se fecham, levando a lugar algum, assim como a muitos outros desfechos. O começo, mas também o fim, de um questionamento eterno, aqui visto como entretenimento, mas armado de simbolismos e razões que aos mais atentos deverão soar tanto como alerta, como também como conclusão.

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é crítico de cinema, presidente da ACCIRS - Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul (gestão 2016-2018), e membro fundador da ABRACCINE - Associação Brasileira de Críticos de Cinema. Já atuou na televisão, jornal, rádio, revista e internet. Participou como autor dos livros Contos da Oficina 34 (2005) e 100 Melhores Filmes Brasileiros (2016). Criador e editor-chefe do portal Papo de Cinema.
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