Corrida dos Bichos

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Sinopse

Um desastre ambiental transforma o Rio de Janeiro em uma cidade profundamente dividida, onde a violência se torna espetáculo por meio da Corrida dos Bichos, competição controlada por magnatas que colocam pessoas em disputa por um prêmio milionário. Líder de um grupo de resistência, Mano combate esse sistema até descobrir que sua irmã, Dalva, foi usada como garantia em uma aposta, levando-o a considerar participar do jogo que sempre tentou destruir. Suspense.

Crítica

Que o cinema brasileiro não deve nada, em termos de qualidade e técnica, ao que de melhor tem se produzido ao redor do mundo, disso poucos ainda têm dúvida. Se a produção local tem se mostrado no mesmo nível de alguns dos seus principais concorrentes internacionais, muito desse aperfeiçoamento se deve a um aprendizado constante, por meio de observação, entendimento e estudo. Há de se questionar, no entanto, por qual motivo copiar não apenas o que de melhor esses exemplos externos oferecem, ao invés de insistir naquilo que pouca relevância possui – e de alcance nitidamente limitado. É o que se percebe neste Corrida dos Bichos, uma realização de primeira linha – ao menos para os padrões nacionais de investimento – mas que transita por soluções e arquétipos de fácil reconhecimento e antecipação. Uma estrutura precisa, mas que acaba desperdiçada em meio a uma proposta que pouco (ou quase nada) de novo tem a oferecer. Tantos talentos reunidos mereciam um resultado mais provocador.

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São três os diretores por trás desse projeto, e é de se perguntar como pode ter se dado tal divisão de tarefas. Se o primeiro nome a chamar atenção é o de Fernando Meirelles (indicado ao Oscar por Cidade de Deus, 2002), também se percebe que pouco diálogo este longa possui com os trabalhos anteriores do cineasta, que vinha até então de projetos mais intimistas, como o drama Dois Papas (2019) e a primeira temporada da série Sugar (2024). Corrida dos Bichos parece encontrar maior parentesco com as filmografias de Rodrigo Pesavento – que trabalhara com Meirelles antes na série Pico da Neblina (2019-2022) e que volta agora ao cinema após uma única experiência prévia, o documentário Dalua Downhill (2012) – e Ernesto Solis – também um dos roteiristas e responsável pelo texto de O Último Animal (2023). Tem-se, portanto, um time no mínimo curioso. Não se pode afirmar, porém, que tal mistura tenha funcionado sem nenhum tropeço.

Pois o que se vê é um acúmulo de ideias reunidas, sem tempo suficiente para que todas ganhassem o mesmo desenvolvimento. Em um Rio de Janeiro pós-apocalíptico – um letreiro informa que a história se passa “45 anos após a Grande Catástrofe” – a maior diversão possível para uma população cada vez mais carente e desatendida é a tal ‘Corrida dos Bichos’, ou seja, um desafio de vida ou morte obviamente inspirado no Jogo do Bicho, que é tão ilegal, quanto popular. Nessa maratona na qual cada competidor precisa passar por um batismo e assumir a identidade de um animal específico, cruzar ou não a linha de chegada pode significar tanto uma mudança radical de vida, como a saída da pobreza e o acesso a um realidade restrita a uma parcela cada vez menor dos sobreviventes, como também, no caso contrário, uma eliminação sumária de dupla consequência. Se o corredor paga com a própria vida, este também deixa empenhado – ainda antes, como exigência para participar da aposta – uma pessoa que ama. Os dois, enfim, terão suas existências transformadas, para o bem ou para o mal, caso o participante ganhe ou perca.

O enredo é rápido em dispor de tais peças, e em pouco tempo o espectador estará a par das regras desse contexto distópico. A maneira como a narrativa se encarrega de propor tais esclarecimentos esbanja dinâmica e envolve o espectador. Tanto em dispor os antagonistas – Rodrigo Santoro, como Abu, aquele que está no comando do jogo, esbanja carisma – como em colocar no centro da ação aquele que terá que fazer por onde para merecer a torcida da audiência – tanto na ficção, como no lado de cá da telinha. Pois se os competidores precisam evitar atravessar uma região conhecida como o “Perímetro”, pois ali tal prática seria proibida e eles se tornariam alvos dos ‘caçadores’, será justamente o mais impiedoso destes (Mano, vivido por Matheus Abreu) que terá que se sujeitar à prova para salvar a vida da irmã, que havia sido ofertada como garantia pelo namorado quando esse se inscreve na esperança de um futuro melhor para os dois.

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As referências são óbvias, e nem todas muito felizes. Se por um lado até mesmo Hollywood se deu mal com o recente remake de O Sobrevivente (2025) – cuja premissa é exatamente a mesma – a ideia do sacrifício e da resistência atlética há muito tem sido explorada por sagas adolescentes como Jogos Vorazes ou Maze Runner, entre tantas outras. Abreu tem físico e presença para conduzir a história (como já havia feito em Um Lobo entre os Cisnes, 2024), mas grande parte do elenco não chega a justificar suas presenças. Precisava mesmo do Seu Jorge para duas ou três cenas com cara de arrependido? A burguesia decadente encontra identidade nas composições de Bruno Gagliasso ou de Grazi Massafera, mas suas motivações não mereciam ser melhor exploradas? O jovem inconsequente de João Guilherme é simplesmente deixado de lado de uma hora para outra, e o tipo defendido por Silvero Pereira poderia ter ido além de meras ameaças, certo? Entre mortos e feridos, há um conjunto fervilhante, mas por motivos que, uma vez desvendados, não sustentam o interesse despertado no início, optando por soluções fáceis e recursos desgastados. Talvez uma eventual continuação – ou mesmo o desdobramento em uma minissérie – possa dar conta de todas essas promessas. Material, para tanto, existe.

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é crítico de cinema, presidente da ACCIRS - Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul (gestão 2016-2018), e membro fundador da ABRACCINE - Associação Brasileira de Críticos de Cinema. Já atuou na televisão, jornal, rádio, revista e internet. Participou como autor dos livros Contos da Oficina 34 (2005) e 100 Melhores Filmes Brasileiros (2016). Criador e editor-chefe do portal Papo de Cinema.
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