Crítica


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Sinopse

Crítica

Depois de adotar uma perspectiva geracional mais próxima à sua em Retorno a Ítaca (2014), na reunião de um grupo de amigos cubanos celebrando o regresso de um companheiro exilado, o francês Laurent Cantet se volta novamente ao retrato filtrado pela urgência do olhar da juventude em A Trama. Assim como as rebeldes juvenis da Nova York dos anos 50 de Foxfire: Confissões de Uma Gangue de Garotas (2012) ou os estudantes de ensino médio da periferia parisiense de Entre os Muros da Escola (2008), os jovens habitantes da comunidade litorânea de La Ciotat são os porta-vozes de sua realidade, a da França dos dias atuais, neste novo trabalho do cineasta. Uma realidade marcada pelo fortalecimento dos movimentos de extrema-direita e sua postura xenofóbica em relação aos imigrantes.

Cantet apresenta um recorte dessa geração através dos alunos de uma oficina de literatura ministrada por Olivia Dejazet (Marina Foïs), celebrada autora de romances policiais, cuja proposta para o curso de verão é criar uma trama noir que esteja inserida no ambiente com qual os personagens estão familiarizados: o de sua cidade, que no passado fora um importante pólo náutico, tendo todo o seu panorama econômico e cultural desenvolvido em torno do estaleiro onde eram construídas colossais embarcações. Dentro do grupo não muito numeroso, mas heterogêneo, as percepções sobre esse passado se mostram distintas – dos que ostentam certo orgulho dos tempos gloriosos aos que permanecem completamente indiferentes. Ainda assim, todos parecem compartilhar um sentimento incômodo, uma noção de imobilidade em relação ao próprio futuro.

Tal sensação aflora de modo mais evidente em Antoine (Matthieu Lucci), que desde o princípio demonstra estar sufocado, em busca de algum tipo de fuga, de viver uma realidade diferente da sua. Algo que Cantet já exemplifica na cena inicial, na qual o rapaz joga videogame, forma de assumir um personagem, uma fantasia, e que se estende ao ato da criação literária. Assim, a oficina acaba servindo como meio de expressão para que Antoine canalize sua angústia e raiva reprimidas, vislumbrando a possibilidade da construção de sua própria história. É também das discussões criativas entre Olivia e os alunos, nas quais Antoine exibe um comportamento cada vez mais provocativo e perturbador, entrando em confronto direto especialmente com os colegas de origem muçulmana, que Cantet extrai suas observações mais incisivas sobre o estado atual da sociedade francesa/europeia.

Centrado nessas reuniões, o cineasta também investiga os meandros do processo criativo, traçando um paralelo entre a elaboração coletiva do romance e a convivência social – a aceitação das individualidades, de diferentes pontos de vista, a necessidade da união em prol de um objetivo em comum etc. Diferentemente das salas de aula de Entre os Muros da Escola ou das lajes de Havana em Retorno a Ítaca, porém, aqui Cantet expande espacialmente seu universo, explorando as belas paisagens naturais de La Ciotat para acompanhar o dia a dia de Antoine, e também o de Olivia, ela que exprime um tipo de fascínio dúbio pelo garoto. Uma mescla de admiração pela paixão contida nas palavras por ele escritas – carregadas de uma intensidade que falta justamente ao protagonista do novo romance que a autora tenta finalizar – e de temor pela violência excessiva de seus relatos, que refletem o perigoso direcionamento ideológico que parece seguir.

A recíproca também é envolta em ambiguidade, com a obsessão de Antoine pela escritora exalando ao mesmo tempo desejo e repulsa. Cantet sustenta habilmente essa tensão, inclusive sexual, presente nas insinuações sobre a natureza da relação entre os personagens (defendidos com extrema competência por Foïs e Lucci), estabelecendo uma atmosfera que serve à sua opção por aderir ao suspense, tal qual a obra em progresso na oficina. A incursão pelo cinema de gênero, se não dilui totalmente o debate sociopolítico central, inevitavelmente disputa espaço com o mesmo, e envolve o longa em um crescente tom trágico. Felizmente, Cantet evita a saída fatalista mais óbvia, bem como o caminho da redenção transformadora que poderia soar artificial, compreendendo estar lidando com a mente de um jovem – naturalmente povoada pelos conflitos de um caráter ainda em formação e influenciável.

Se voltando à característica literária de A Trama, Cantet opta por transmitir esses sentimentos de Antoine – a solidão, o deslocamento, a desesperança – por meio de sua escrita. Uma solução que se apresenta ligeiramente didática, mais literal do que o necessário, impedindo que o cineasta encerre o longa em uma sequência anterior e de maior força visual e simbólica: a fuga à noite, no alto dos rochedos, com o tiro em direção à Lua representando tanto o desespero extravasado quanto a tentativa de atingir um alvo (objetivo) inalcançável. De qualquer forma, mesmo com essa oportunidade perdida, o trabalho de Cantet ainda proporciona reflexões pertinentes, expondo como a inconformidade aliada à desorientação pode ser utilizada como arma de sedução pelo discurso extremista para que este se ofereça como solução.

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é formado em Publicidade e Propaganda pelo Mackenzie – SP. Escreve sobre cinema no blog Olhares em Película (olharesempelicula.wordpress.com) e para o site Cult Cultura (cultcultura.com.br).
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Grade crítica

CríticoNota
Robledo Milani
7
MÉDIA
7

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