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Sinopse
Em A Noiva, uma jovem enigmática é trazida de volta à vida sem qualquer lembrança de seu passado, criada para fazer companhia ao solitário monstro de Frankenstein. O que deveria ser apenas um antídoto contra a solidão se transforma em uma fuga inesperada: juntos, eles cruzam os Estados Unidos dos anos 1930, desafiando normas, autoridades e o próprio destino. Drama/Ficção científica.
Crítica
O emprego de elementos gráficos já nos títulos de alguns filmes tem demonstrado uma preocupação dos realizadores em ditar o tema de suas produções antes mesmo que a narrativa tenha início. Trata-se de uma indicação ao espectador que deve chegar com o espírito preparado. Assim como Emerald Fennell apontou que seu “O Morro dos Ventos Uivantes” (2026) deveria ser visto assim mesmo, “entre aspas”, e portanto não compartilhava em sua gênese de uma vontade de se mostrar preso ao texto original, da mesma forma agora Maggie Gyllenhaal faz deste A Noiva! algo a ser encarado por meio de uma exclamação, de uma exaltação, quase como num espanto. Trata-se, sim, de uma apropriação do clássico A Noiva de Frankenstein (1935), dirigido por James Whale e imaginado a partir dos personagens do romance escrito por Mary Shelley. Mas absolutamente remodelada para o público atual e concebida com o objetivo claro de servir enquanto manifesto feminista. Algo que acaba por trair dentro de sua própria organização de elementos e diálogos. Um tiro que termina por ser dado no pé da realizadora e demais envolvidos, frustrando em meio a um caos desordenado algo que até surge por meio de boas intenções, motivações essas que nunca chegam a ser alcançadas.

Para começar, é importante conhecer suas origens. Se o monstro de Frankenstein é criado para que o doutor possa comprovar uma teoria – e o Frankenstein (2025) de Guillermo Del Toro explora com propriedade essa contradição entre necessidade egóica e repulsa negligenciada – a noiva surge por um outro tipo de sentimento, ainda que igualmente problemático: a criatura está sozinha, cansada de tanta solidão, e solicita que uma deformidade tal qual como ela seja encomendada para que ambos possam se encontrar em suas desgraças. Como se vê, não há nada de nobre nessa intenção – há, sim, a vontade de curar um mal pessoal, desrespeitando no processo qualquer interesse particular daquela que será objeto de disputa. O momento em que a moça, desenterrada de um cemitério escuso, volta à vida, é quando os responsáveis por sua ressurreição dão início a um processo de mentiras, enganações e maquiagem da realidade. Ela chega a elaborar as perguntas certas – quem sou? O que estou fazendo aqui? Como fui parar nessa condição? O que aconteceu comigo? – e tudo o que recebe como resposta são desculpas, falsidades e distorções.
Esse mesmo filme que se propõe a levantar uma bandeira a favor das mulheres procura percorrer um caminho há muito explorado por homens quando são eles que contam as histórias: um calvário de sofrimentos e provações até que uma mísera esperança seja oferecida após tanta desgraça. O início é emblemático: em um jantar, no qual apenas os personagens masculinos se manifestam, entre risos, deboches e vozes altas, assim que a moça resolve se fazer ouvir passa a ser encarada com desconfiança e estranhamento. Retirada do salão, é agredida pelo namorado, num espancamento que termina com ela caindo da escada e morrendo de forma grotesca e violenta. Mais adiante, o roteiro volta a lhe mostrar desconfortável com o rumo dos acontecimentos, na maior parte das vezes protagonizados pelo solitário brutamontes vivido por Christian Bale. Quando tenta clamar para si algum tipo de independência, o par que a acompanha diz que “não quero lhe perder”, na tradução brasileira, enquanto que no original é possível ouvir o personagem afirmar que “I’m not gonna let you go”. Ou seja, em tradução direta, “não vou permitir que você parta”. Enfim, é a vontade dele que importa, e não a dela. E não há como a narrativa ser mais explícita quanto a isso.

Porém, Gyllenhaal – atriz indicada ao Oscar que, mesmo sem declarações públicas, parece ter abandonado a atuação (o último filme em que apareceu em um papel de destaque foi em 2018) – e transicionado seu talento para detrás das câmeras – insiste nesse viés. Quando o monstro e sua noiva começam a cometer crimes por onde passam – mais do que uma alusão a Bonnie e Clyde: Uma Rajada de Balas (1967), a referência imediata parece ser Assassinos por Natureza (1994) – ambos passam a ser perseguidos por uma dupla de investigadores. Porém, apenas ele – Peter Sarsgaard, marido da diretora – pode se assumir como tal. Sua parceira (Penélope Cruz, contentando-se com o que lhe é ofertado) apresenta-se como “secretária” do outro, mesmo que seja a única a entender, de fato, o que está acontecendo. A troca dessa dinâmica, ainda que compreendida pelo contexto da época, não se dá por iniciativa dela, mas por desistência dele. Nesse processo, os atos dessas duas figuras, estranhas a uma sociedade que insiste em reprimi-las, passam a ser vistos como revolucionários, e seguidores tratarão de imitá-los e saudá-los – mais ou menos como visto no recente Coringa: Delírio a Dois (2024), longa esse que, ao invés de servir de inspiração, merece mais é ser esquecido.
Sem saber ao certo o que fazer com o que reúne diante de si, Maggie Gyllenhaal opta por percorrer um caminho mais ruidoso e controverso do que aquele percebido em sua estreia como narradora, o interessante A Filha Perdida (2021). Ao atirar para tantos lados, erra em quase todos os alvos, menos naquele – felizmente – que faz de A Noiva! uma proposta minimamente assistível: a escolha de Jessie Buckley para a personagem-título. Depois de uma performance internalizada e angustiante em Hamnet: A Vida Antes de Hamlet (2025), ela na sequência surge em um registro completamente distinto, esbanjando vivacidade – algo curioso para uma morta rediviva – como essa que, por mais que se esforce em ser ouvida, a todo instante é ignorada, silenciada, menosprezada. E a paz que tanto procura só lhe é concedida com o acender das luzes, diante da reflexão de uma audiência anestesiada por um barulho ensurdecedor que não leva a nada, mas, ainda assim, é incapaz de esconder o real talento que aqui se esconde.
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