Crítica
Leitores
Onde Assistir
Sinopse
A Fabulosa Máquina do Tempo acompanha um grupo de meninas que cresce no sertão árido do Brasil, divididas entre a rotina dura herdada das mães e os próprios sonhos de futuro. À medida que atravessam a adolescência, elas enfrentam as limitações impostas por uma comunidade onde os homens ainda ocupam posição dominante e as expectativas sobre o papel feminino são rígidas. Documentário.
Crítica
Em 2023, o cinema viveu um daqueles raros momentos em que parecia concentrar uma discussão inteira sobre seu tempo. O fenômeno “Barbenheimer“, que colocou Barbie e Oppenheimer lado a lado nas salas, tornou-se muito mais do que estratégia de lançamento. No caso do longa de Greta Gerwig, houve quem o definisse como um “feminismo para iniciantes”, uma espécie de porta de entrada para debates que, por bastante tempo, permaneceram restritos a círculos mais acadêmicos. Gostemos ou não dessa leitura, o fato é que funcionou. Ao transformar uma boneca bilionária em ferramenta de discussão social, Hollywood encontrou maneira acessível de ampliar essa conversa. A Fabulosa Máquina do Tempo, de Eliza Capai, parte de inquietação semelhante, mas por caminho radicalmente diferente. Em vez de personagens conhecidos, cifras milionárias ou grandes símbolos da cultura pop, aposta na vida como ela é. E encontra, nas vozes de meninas do sertão brasileiro, sinais bastante concretos de um futuro que já começou.

A experimentada documentarista leva sua câmera ao interior do Piauí para acompanhar o cotidiano de Manu, Manuellinha, Sophia e outras crianças que crescem em região historicamente marcada pelo abandono do poder público. Mas Eliza não está interessada em reforçar imagens de miséria ou vitimização. Seu olhar procura compreender como essas meninas enxergam o mundo e a si mesmas em contexto que, embora ainda enfrente inúmeras dificuldades, também passou por mutações importantes nas últimas décadas, impulsionadas por políticas públicas de inclusão e acesso à educação implementadas sobretudo a partir dos anos 2000. Elas deixam de ser apenas personagens e se tornam evidência viva dessas mudanças.
As perguntas que conduzem o projeto parecem simples: o que é ser mulher? O que você quer ser quando crescer? Existem coisas que homem pode fazer e mulher não? Você quer casar? As respostas frequentemente surpreendem. Entre ingenuidades próprias da infância e reflexões que revelam impressionante consciência sobre o próprio lugar no mundo, emerge retrato delicado de geração que parece crescer já distante de muitos limites impostos às mulheres de outras épocas. E talvez aí resida uma das maiores forças da obra. Ela desmonta, sem discursos, a ideia de que revoluções dessa natureza pertencem apenas aos grandes centros urbanos. Em pleno sertão piauiense, essas meninas mostram que o futuro também chega por estradas de terra.
Como se esse material já não bastasse, Eliza ainda encontra maneira de ampliar a experiência. Em diversos momentos, convida as crianças a inventarem histórias, encenarem pequenas situações e transformarem suas próprias ideias em esquetes que atravessam toda a narrativa. O recurso poderia soar artificial, mas acontece justamente o contrário. A brincadeira revela medos e desejos que talvez jamais surgissem em entrevista convencional. Aos poucos, a aposta constrói um mosaico afetuoso sobre sonhar e descobrir quem se é.

Há algo de profundamente generoso nesse documentário. É daqueles filmes que deveriam circular pelas escolas não por obrigação pedagógica, mas porque despertam conversas que atravessam diferentes gerações. As crianças provavelmente sairão da sessão acreditando, com razão, que podem ocupar qualquer espaço que desejarem. Já os adultos talvez encontrem desafio maior: olhar para trás e perceber quantas escolhas deixaram de fazer porque alguém decidiu por eles. Nesse sentido, Eliza parece sugerir que o tempo, sozinho, nunca resolveu injustiça alguma. Quem altera o futuro são as pessoas. E, ao que tudo indica, essas meninas já começaram esse trabalho.
Últimos artigos deVictor Hugo Furtado (Ver Tudo)
- Festival de Gramado 2026 :: “O que mais me interessa nele é essa verve rebelde, essa inquietude”. Confira nossa entrevista com Susanna Lira, diretora de Gonzaguinha: Da Maior Liberdade - 22 de agosto de 2026
- Festival de Gramado 2026 :: “O mistério incomoda… incomoda muito”. Confira nossa entrevista com Grace Passô, diretora de Nosso Segredo - 21 de agosto de 2026
- Festival de Gramado 2026 :: Na Serra Gaúcha, Christian Malheiros fala sobre fé, redenção e a estreia de Justino, filme baseado em história real - 20 de agosto de 2026

Deixe um comentário