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Sinopse
Em A Cronologia da Água, Lidia, uma jovem marcada por abusos sofridos na infância e adolescência, encontra na natação um primeiro refúgio para suportar a dor. Quando o sonho esportivo se rompe, ela mergulha em um percurso de autossabotagem e excessos. É na escrita, porém, que Lidia descobre uma forma de reconstruir a própria identidade, transformando trauma em linguagem e sobrevivência em possibilidade de existir. Biografia.
Crítica
Kristen Stewart começou cedo no cinema, e já nos seus primeiros trabalhos se viu atuando sob o comando de cineastas como David Fincher e Mike Figgis, entre outros nomes de respeito. E ainda que tenha sido marcante o seu envolvimento como uma das protagonistas da saga Crepúsculo, validando sua presença junto a um público maior, seguiu inquieta, buscando novos talentos – como com o brasileiro Walter Salles ou o francês Olivier Assayas – ao mesmo tempo em que alternava outras possíveis franquias de apelo popular – Branca de Neve, As Panteras – com veteranos – David Cronenberg, Ang Lee – que pudessem lhe agregar repertório. Sua estreia enquanto realizadora com A Cronologia da Água é reflexo dessa caminhada de quase três décadas (!) por Hollywood. O que se tem, afinal, é um filme imperfeito, mas disposto a incomodar, a não recair sobre zonas de conforto, ao mesmo tempo em que tateia por soluções até mesmo triviais para problemas complexos. É uma sinalização de algo interessante que aponta para um destino auspicioso, desde que aprimorado.

Como o título já adianta, o meio é fundamental para a jornada da protagonista em A Cronologia da Água. Não apenas por sua ligação mais óbvia – Lidia, interpretada com afinco por Imogen Poots, é uma nadadora em vias de se tornar profissional – mas por entendimentos e interpretações possíveis em outros níveis de conexão. O conceito de ‘relações líquidas’ foi introduzido por Bauman em 1999, e desde então tem sido empregado para definir relacionamentos frágeis, volúveis, de difícil comprometimento e fortemente influenciados por um individualismo dominante entre as partes. Sim, todo e qualquer contato que envolva sentimentos se faz a partir da ligação de um com o outro, ou seja, se faz necessário tanto a entrega, quanto o aceite, para que tal processo se complete. A partir do momento em que o indivíduo passa a olhar mais para si, do que para aquele ao seu lado, esse deixa de suscitar curiosidade. A motivação vai se extinguindo. E no interior de cada um uma porta após a outra passará a se abrir, em um labirinto de difícil retorno.
Eis, enfim, a jornada de Lidia. Baseado no livro de memórias de mesmo nome escrito por Lidia Yuknavitch, A Cronologia da Água também parte de um psicologismo básico, que afirma que todo e qualquer trauma – ou ao menos a sua imensa maioria – tem como origem um episódio ocorrido na infância. A situação aqui não é diferente, e sua explicação é ainda mais evidente: a culpa é do pai, figura onipresente e abusadora, tóxica e violadora. É ele quem oprime a família inteira. E se a mãe demonstra há muito ter abandonado a luta e se entregue a esse cenário de tolhimento e repressão, com as filhas o quadro é um tanto distinto. A mais velha, Claudia (Thora Birch, quase irreconhecível para quem lembrar dela dos tempos de Beleza Americana, 1999), está entre a resiliência em se manter firme, pois reconhece que as demais dela também dependem, e a alienação, blindando-se dos ataques e agressões. Caminho esse similar ao identificado por Lidia, que vai além: ao perceber uma possibilidade de fuga, nessa se agarrará com todas as suas forças.
Poots é eficiente em compor essa garota/mulher em transformação. Ela é tanto medo, quando em ambiente familiar, quanto ansiosa por um mundo que desconhece e pode, enfim, não estar tão longe. A libertação, no entanto, não lhe surge desprovida de um preço. Primeiro, vem o excesso. O mergulho nas drogas, muito bem representado pela edição e pela fotografia, que aludem ao desespero e entrega da personagem frente a uma realidade que até então lhe era desconhecida, será a batida no muro que a fará repensar seu destino. Qual rota seguir? Serão três os envolvimentos amorosos, do inesperado ao tempestuoso, até que a calmaria a envolva. A lógica, como se percebe, é de fácil compreensão. Mas esses não serão os únicos homens. E o que terminará por, de fato, fazer diferença será o mestre que apontará qual passo dar dali em diante. Uma vez definida a rota e definida as prioridades, tudo se mostra mais fácil de ser alcançado.

Há uma forte relação entre causa e consequência nos eventos descritos em A Cronologia da Água. Mas isso não chega a ser exatamente um demérito da trama. Ser simples, ainda mais para quem está começando, é não apenas sinal de humildade, mas reconhecimento do quanto se tem ainda a explorar em projetos futuros. Sem esquecer que esta aparente banalidade é mais do que compensada por um visual dinâmico e disposto a enfrentar leituras óbvias em busca de novas e inesperadas reflexões. O resultado pode não ser de fácil acesso, mas é também recompensador àqueles que por estas paragens decidir se aventurar. Mais do que um exercício de estilo, o que se tem é um estudo aprofundado delas – autora, realizadora – e sobre elas – personagens que se situam na fronteira entre realidade e ficção. E por isso apenas, a despeito de todos os demais tópicos dignos de nota, o conjunto já se confirma válido. Mas há mais, e esta pode ser a mais saudável das constatações.
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