13 Dias, 13 Noites

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Sinopse

Em 13 Dias, 13 Noites, estamos em Cabul, no Afeganistão, em 15 de agosto de 2021. Enquanto as tropas americanas se retiram, os Talibãs tomam a capital. Milhares de afegãos buscam refúgio na Embaixada da França, protegida pelo comandante Mohamed Bida e seus homens. Cercado, ele negocia para organizar um comboio da última chance em direção ao aeroporto. Guerra.

Crítica

Com todas as atenções voltadas mais uma vez para o Oriente Médio a partir da invasão do Irã pelos Estados Unidos, um filme que aborde tema similar se mostra atento ao timing e em sintonia com o discurso político do momento. Porém, não se trata apenas em aproveitar um debate em alta, mas em dele se aproximar com algo relevante e diferenciado que justifique uma atenção que se prolongue para além das manchetes diárias. 13 Dias, 13 Noites demonstra, nos seus instantes iniciais, disposto a superar esse estranhamento e se posicionar como algo distinto e digno da curiosidade almejada. No entanto, basta o desenvolver dos seus acontecimentos tomar rumo para que se perceba tratar de um título não mais do que genérico, ainda que pertinente em sua urgência. O ponto de vista pode até ser outro, mas a condução e o desenrolar dos fatos são por demais similares a tantos já vistos. E sem se mostrar hábil em identificar um caminho próprio a seguir, resta apenas percorrer passos dados, por certo pertinentes, mas também desgastados e desprovidos de novidades.

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O diretor e roteirista Martin Bourboulon tem se mostrado comprometido com seus projetos ao longo da carreira. Do sucesso alcançado com a comédia de costumes Relacionamento à Francesa (2015) e sua continuação, ao díptico que desdobrava o clássico Os Três Mosqueteiros (2023), ele nesse meio tempo se aventurou por uma trama baseada em um episódio verídico na cinebiografia Eiffel (2021). Ou seja, não é estranho ao realizador esse estudo de um ocorrido factual e sua seguinte adaptação para o cinema. Com 13 Dias, 13 Noites, ele parte da chegada das tropas norte-americanas em um outro país da mesma região de agora – no caso, o ano é 2021 e o invadido era o Afeganistão. Muito se falou a respeito do que aconteceu. Mas como os demais estrangeiros que lá se encontraram reagiram? Eis, portanto, a proposta.

O protagonista é Mo, um agente da embaixada francesa interpretado pelo geralmente seguro Roschdy Zem. Ele é o responsável não apenas pela evacuação do prédio e a chegada segura dos funcionários e diplomatas ao ponto onde aviões os levariam para longe dali, mas também por lidar com a resistência local coordenada pelo governo e seus fervorosos seguidores. Sim, pois nada que se passou naqueles dias de extrema tensão pode ser descrito como pacífico. O medo estava no ar e em todas as esquinas, e qualquer ato em falso poderia desencadear uma nova tragédia. Assim, foram em endereços como o que dessa vez se mostra no centro dos acontecimentos que muitos dos locais correram em busca de abrigo, tentando se defender tanto dos invasores, como também das forças de resistência. A França, nesse contexto, é um observador privilegiado, que está no centro da ação, mas sem ser responsável por nenhum dos lados. E decidir se irá influir ou não no destino – e no salvamento – desses em busca de ajuda poderá significar a diferença entre a vida e morte.

Eis, enfim, um percurso interessante, porém longe de se mostrar inédito – talvez não nessa guerra específica, mas com semelhantes inúmeros ao longo da história, independente de que parte do mundo se descreva. Bourboulon também hesita em depositar todas as suas atenções sobre as costas de Zem, um ator de imenso carisma, mas não afeito a muitas concessões. Suas performances costumam ser marcadas por expressões duras e posturas dignas, e aqui não se mostra diferente. Assim, para fortalecer a empatia com o espectador, o cineasta trata de inserir outros pontos de contatos, como a jornalista Kate (a sempre excelente Sidse Babett Knudsen) ou a agente humanitária Eva (Lyna Khoudri, vencedora do César por Papicha, 2019). A dispersão de protagonismo aumenta o escopo de interesses, ao mesmo tempo em que esvazia o esforço de um, que se vê obrigado a compartilhar as consequências de suas ações com as repercussões e demandas dos demais. Uma escolha arriscada, que nem sempre se mostra em equilíbrio com aquilo pretendido.

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De qualquer forma, eis o transcorrer um episódio de inegável importância histórica, e 13 Dias, 13 Noites cumpre a responsabilidade assumida de garantir o devido registro. Entre a propaganda assumida dos esforços franceses em meio a um conflito que pouco – ou nada – lhe dizia respeito, e o thriller tenso que faz uso (e abuso) de reviravoltas e desencontros para confirmar que apenas a união dos esforços é capaz de elevar o conjunto em nome de um bem maior, o que se verifica é uma produção digna de muitos méritos, mas que ainda assim não conseguem ir além do todo. Há destaques inegáveis, e mesmo o desenrolar dos acontecimentos não exige do espectador mais do que aquilo que promete entregar como retorno. A falta de algo a mais, capaz de distanciar o corriqueiro do excepcional, é inegável, no entanto. As ambições, enfim, foram muitas. Mas o alcançado, ainda que relevante, fica aquém das dimensões reais.

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é crítico de cinema, presidente da ACCIRS - Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul (gestão 2016-2018), e membro fundador da ABRACCINE - Associação Brasileira de Críticos de Cinema. Já atuou na televisão, jornal, rádio, revista e internet. Participou como autor dos livros Contos da Oficina 34 (2005) e 100 Melhores Filmes Brasileiros (2016). Criador e editor-chefe do portal Papo de Cinema.

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