Cristiano Burlan é um cineasta mais comumente associado à realização de filmes não necessariamente donos de grandes bilheterias. Ele, contudo, goza de bom prestígio junto aos críticos e aos cinéfilos dispostos a encarar obras desafiadoras que almejam correr riscos em função da experimentação. Burlan, nascido em Porto Alegre, radicado em São Paulo, dirige cinema e teatro. Na seara cinematográfica, fez documentários e ficções – embora não seja afeito a diferenciações peremptórias. Alguns de seus filmes participaram de festivais internacionais importantes, como os de Málaga, Havana e Toronto. A celebrada parceria com Jean-Claude Bernardet, um dos grandes pensadores do cinema brasileiro – mesmo tendo nascido na Bélgica, numa família francesa – vem dando diversos frutos, nas telonas e nos palcos. No Festival de Brasília de 2015, por exemplo, Bernardet recebeu o prêmio especial do júri pela atuação em Fome. Em Antes do Fim (2018), outro ícone, Helena Ignez, transforma essa dupla em trio, num filme que reflete sobre vida e morte. Cristiano Burlan gentilmente nos atendeu para esta conversa por telefone, entre um compromisso de divulgação e outro. Confira o Papo de Cinema com o cineasta.

 

Como surgiu a ideia do Antes do Fim?
O filme surgiu, basicamente, das minhas conversas com o Jean-Claude. Temos um trabalho longo em conjunto e me chamou atenção um texto publicado no blog dele intitulado Bio, que fala exatamente sobre a longevidade e o comportamento da indústria farmacêutica, mais especificamente o quanto ela não se interessa pela qualidade de vida das pessoas. A forma como o Jean-Claude encara a morte, como espetáculo, também foi um ponto de partida. Ele está frequentemente encenando a própria morte, seja no teatro ou no cinema. Dou aula sobre cinema, estudo cinema, mas, quando começo a filmar, me reservo o direito de esquecer um pouco isso e ser mais instintivo. E neste filme os atores são coautores, contribuíram muito.

Nos ensaios do filme “Hamlet”

Desde o princípio você tinha em mente o Jean-Claude e a Helena?
Por conta da gênese do filme, o Jean-Claude, claro, sempre esteve presente. Quanto à Helena, é impossível encontra-la e não pensar na importância dela para o cinema brasileiro. Acho a Helena uma atriz bastante sofisticada. Ela desempenha muito bem papeis alegóricos, como os de Copacabana Mon Amour (1970) e O Bandido da Luz Vermelha (1968), por exemplo, mas consegue construir uma personagem mais clássica como a de O Padre e a Moça (1966), com semelhante qualidade. Helena possui uma sólida formação de atriz. E tem outra coisa que me atrai. Ela é uma mulher do nosso tempo, que não vive presa ao passado. É muito generosa.

 

Como foi o trabalho com o Helder Filipe Martins, seu diretor de fotografia, haja vista a importância da imagem dentro do percurso poético que você cria?
Primeiro, eu queria que a câmera estivesse muito próxima dos personagens. Para isso, usei lentes que pudessem quase sentir o corpo deles. Em termos de paleta de cores, ali existem variações de cinza, fruto de uma pesquisa que venho realizando, inclusive colocando a cidade de são Paulo como personagem. Não costumo fazer divisão entre documentário e ficção, mas na ficção acabo, realmente, experimentando fotograficamente mais. Quero fugir desse realismo “fundo de quintal” que impregnou no cinema nacional. A textura da imagem é algo que me interessa muito. Na cena final, por exemplo, pesei a mão para entender até aonde vai a possibilidade de expressão. Mas a fotografia nunca pode se dissociada da ideia do filme.

Nos bastidores de “Fome”

O filme é atravessado por Sônia Silk, protagonista de Copacabana Mon Amour, por Albert Camus e Friedrich Nietzsche. Como se deram essas “contaminações”?
Não escrevo roteiro, tenho apenas anotações e uma escaleta que levo para o set. Algumas citações já estavam pré-estabelecidas. Mas como converso muito com os atores, trabalhando bastante de acordo com a reação deles à proposta, acabo aproveitando o que eles me trazem. Durante esse processo, sei, basicamente, o que não quero. Mas dependo dos atores. Escolher as pessoas certas é grande parte do trabalho de fazer um filme. Muito do que está no Antes do Fim são elementos trazidos pela Helena e pelo Jean-Claude, de leituras deles no momento, de filmes que eles estavam vendo. Um vai alimentado o outro, e dentro dessa minha vontade de ser mais primitivo ao filmar, de atentar àquilo que os colaboradores trazem, esse tipo de processo é enriquecedor. Acho importante correr riscos.

 

Em Antes do Fim há uma ode à liberdade: de morrer, de amar, de expressar-se. Para você, a arte é a via pela qual a gente alcança, de fato, essa liberdade mais plena?
Há uma busca nesse sentido. Penso numa relação menos artística, e mais de ofício, de estar a serviço daquilo. A única liberdade possível é a morte. Em Antes do Fim menciono a morte para falar essencialmente sobre a vida. O filme não é uma ode ao suicídio. No que diz respeito à feitura do filme, a falta de recursos é uma limitação, cerceia a liberdade, de certa maneira. Mas não acho isso ruim, embora tampouco acredite que tenhamos de trabalhar sempre com poucos recursos. Houve, de uns tempos para cá, uma aburguesamento do cinema brasileiro. A falta de recursos faz parte da nossa estética, do discurso do cinema latino-americano. Esse filme foi mais longe do que eu esperava. Apenas queria fazer o filme.

Dada à pluralidade do nosso cinema, acredita que ainda há sentido em falarmos de cinema brasileiro, evocando um senso de unidade?
Tem todo tipo de filme, para todo tipo de publico. Eu acho meus filmes comerciais, não tenho culpa se as pessoas não querem ver (risos). Acabamos nivelando por baixo, como se o publico não entendesse um proposta mais ousada. O Bandido da Luz Vermelha era um filme extremamente sofisticado, mas com um apelo popular enorme. Os editais de fomento à produção trazem recurso, são muito bem-vindos, mas os laboratórios de desenvolvimento são maléficos, porque criam padrões. Isso é danoso para o cinema brasileiro, pois reduz a possibilidade da criação. Respeito muito o cinema que dialoga com o publico, e acredito que correr riscos não precise estar dissociado da vontade de atingir o público. Não acho que as comédias nacionais são inimigas, apenas não sei fazê-las e não tenho interesse em fazê-las.

 

(Entrevista concedida por telefone, numa ponte Rio de Janeiro/São Paulo, em fevereiro de 2018)

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é crítico de cinema, membro da ACCRJ (Associação de Críticos de Cinema do Rio de Janeiro) e da ABRACCINE (Associação Brasileira de Críticos de Cinema,). É, também, professor da Escola de Cinema Darcy Ribeiro/RJ.
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