Crítica


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Sinopse

Jean sente-se preso na lógica de longevidade que a indústria farmacêutica o impõe e decide planejar um suicídio consciente. Ele convida Helena para que o suicídio seja a dois. Ela, por sua vez, hesita, sabe que viverá bem, inclusive se precisar viver só, mas o ajuda em suas intenções. O silêncio entre eles não revela distância, mas intimidade. São anos de um afeto compartilhado. Juntos, eles prepararão todos os detalhes para o funeral. Ele dança a morte enquanto ela segue ensaiando a vida. Nesse processo, os dois se dão conta de que antes do fim, ainda há uma vida inteira.

Crítica

Dois nomes fundamentais do cinema brasileiro, Helena Ignez e Jean-Claude Bernardet são os protagonistas de Antes do Fim, ensaio poético que abarca questões acerca da morte (e, por conseguinte, da vida). Fotografado em preto e branco, o filme começa delineando uma vital cumplicidade, traço sobressalente nas conversas entre Helena e Jean, os personagens, em que transparece o cansaço dos anos, mas também a serenidade diante da impossibilidade de frear a cronologia, de interromper o fluxo que leva à velhice, bem como da proximidade do instante derradeiro. O cineasta Cristiano Burlan constrói um percurso lírico em que a imagem desempenha papel prevalente sobre a palavra, ainda que esta constitua instância afetuosa imprescindível ao todo. O casal debate longamente a decisão dele de matar-se como forma de evitar a decrepitude e os sintomas implacáveis da idade avançada. Mas, não há sinais de lamúria, ato inexistente por obra da sabedoria adquirida.

Helena é atriz, ou seja, vive de encarnar outras pessoas. Já Jean é bailarino, igualmente utilizando o corpo para expressar suas demandas frente ao resto do mundo. Antes do Fim promove constantemente uma fusão entre os protagonistas e a paisagem paulistana que ganha carga expressionista em virtude do belo trabalho fotográfico de Helder Filipe Martins. Na medida em que a trama avança – se é que podemos realmente considerar "trama' esse processo de deambulação filosófico-existencialista cujas divagações vão ao encontro de uma ponderação densa por conta da morte – a narrativa ganha ares abstratos, com eventuais brincadeiras formais e citações a lhe alimentar. É pertinente, pois estabelece uma ponte com o cinema marginal, o excerto de Copacabana Mon Amour (1970), em que Sônia Silk, personagem imortalizada por Helena Ignez, surge na tela bradando na rua o seu absoluto horror à velhice.

Há bom humor em Antes do Fim, vide a incursão dos protagonistas pela farmácia a fim de adquirir remédios contra disfunção erétil, oportunidade em que Burlan aproveita para jogar com tabus, sem deixar de ressaltar a beleza da relação nutrida por uma parceria sentimental e intelectual, como percebemos no transcorrer do longa-metragem. Recorrendo aos procedimentos do período mudo, o realizador se vale da pantomima para registrar a visita de Helena e Jean à funerária, quando a intenção de ambos é escolher um caixão. Esboça-se até uma pequena disputa pela atenção da mulher, entre o marido e o vendedor. Com semelhante eloquência e sensibilidade, há a captura da conversa de Jean com seu reflexo no espelho, uma projeção fugaz cuja extinção não acarreta grandes esforços, tampouco dores atrozes. O fenecimento do homem, ao contrário, tende a causar aflição, até, e principalmente, na atenta companheira.

Antes do Fim confere à mulher, num só tempo, a emancipação da vontade masculina, já que Helena se recusa a corroborar a inclinação do cônjuge à morte, e o papel de parceria encarregada de auxiliar o passamento voluntário. Irregular, como boa parte dos filmes propostos a correr riscos, a experimentar em diversos campos da linguagem cinematográfica, esta produção de Cristiano Burlan é atravessada por influências, das verbalizadas às vistas, bem como pela potência das próprias presenças de Helena Ignez e Jean-Claude Bernardet, verdadeiros monumentos, aqui ponderando a partir da coloquialidade de temas inerentes a qualquer pessoa. Questionada por uma jovem quanto à melancolia da atriz demasiadamente aferrada ao status de estrela, em detrimento do prosaico, Helena considera a colega tola. A cena reafirma o lirismo residente no ordinário, nas etapas comuns ao viver e ao morrer.

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é crítico de cinema, membro da ACCRJ (Associação de Críticos de Cinema do Rio de Janeiro) e da ABRACCINE (Associação Brasileira de Críticos de Cinema,). É, também, professor da Escola de Cinema Darcy Ribeiro/RJ.
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