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Sinopse

The Beauty se passa no glamouroso universo da alta moda, onde supermodelos começam a morrer de forma misteriosa. Investigando os casos, os agentes do FBI Cooper Madsen e Jordan Bennett descobrem a existência de uma IST chamada “Beleza”, capaz de tornar pessoas fisicamente perfeitas, mas com efeitos colaterais letais. Ficção científica

Crítica

São quase três décadas de construção de uma marca. Na indústria televisiva norte-americana, poucas assinaturas são tão facilmente reconhecíveis quanto a de Ryan Murphy. Exagero, estética e provocação tornaram-se seus principais vetores criativos, visíveis desde Nip/Tuck (2003-2010) até Monstros (2022-). Ao longo desse percurso, o showrunner consolidou base fiel de fãs e estilo visual que privilegia o choque e o espetáculo. Assim, The Beauty: Lindos de Morrer já chega cercada por expectativas. Ao lado de Matthew Hodgson, Murphy revisita justamente o tema que o projetou ao grande público: a obsessão contemporânea pelo corpo ideal. Se, nos anos 2000, a cirurgia plástica dominava o debate, hoje o cenário é outro – canetas de emagrecimento, protocolos nutricionais e uma cultura digital que torna a aparência uma moeda social. Nesse terreno, a série encontra material fértil. A pergunta, no entanto, permanece: o que sobra depois do êxtase da transformação?

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Na trama, o bilionário Byron Forst, interpretado por Vincent D’Onofrio, surge como caricatura transparente de Donald Trump. Ele assume o controle de uma tecnologia capaz de liberar a “melhor versão” das pessoas – um ideal que, não por acaso, corresponde exatamente aos padrões de beleza da indústria da moda: corpos atléticos, rostos simétricos e juventude permanente. Em mundo dominado por redes sociais e pela comparação constante entre vidas aparentemente perfeitas, a promessa se torna irresistível. A droga se espalha rapidamente, gera mercado paralelo e, como era previsível, os efeitos colaterais começam a aparecer. A partir daí, a narrativa flerta com o suspense policial, envolvendo perseguições e disputas de poder. Ainda assim, esse enredo funciona mais como moldura do que como motor dramático. O interesse de Murphy permanece concentrado no espetáculo da metamorfose, como a de D’Onofrio para Ashton Kutcher.

O timing dialoga com o impacto recente de A Substância (2024). Mas a obsessão não é nova. Já nos anos 1950, Orson Welles explorava o tema com o curta Fonte da Juventude. Décadas depois, o assunto retornaria de forma radical em A Mosca (1986) e ganharia contornos satíricos em A Morte Lhe Cai Bem (1992). A diferença é que, no universo de Murphy, tudo parece elevado ao máximo. Nunca foi tão fácil parecer mais jovem ou mais belo segundo padrões comerciais. Remédios, dietas milagrosas, academias, suplementos – o mercado inteiro gira em torno dessa promessa. Aos poucos, o corpo ideal deixa de ser apenas desejo estético e passa a funcionar como valor moral. Quem não se encaixa, é expelido. A história compreende bem essa lógica e a projeta sobre cada um de seus personagens.

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Entre eles estão Jeremy, vivido por Jaquel Spivey, jovem obeso capturado por discursos incel; Jordan, interpretada por Rebecca Hall, mulher que começa a lidar com rugas a mais; e Bella, papel de Emma Halleen, adolescente convencida de que nasceu no corpo errado. São apenas três exemplos entre muitos. A série multiplica histórias semelhantes, cada qual marcada por inseguranças, traumas ou desejos de pertencimento. No fundo, Murphy sabe exatamente onde reside a curiosidade do público: no instante da mutação. Sendo assim, a lógica que estrutura cada episódio lembra uma espécie de variação seriada do longa de Coralie Fargeat – a pergunta central passa a ser sempre a mesma: como ficará esse corpo depois da transição?

Mas é justamente aí que o discurso começa a perder força. A aposta dedica grande energia ao espetáculo da conversão física, enquanto as implicações éticas ou sociais do processo permanecem em segundo plano. O medo de que a droga se espalhe, as consequências coletivas, o próprio sentido desse culto ao corpo – tudo parece diluído em meio à sucessão de metamorfoses. Em muitos momentos, o espectador se depara com ideia tão antiga quanto a própria humanidade: a beleza está nos olhos de quem vê. E, paradoxalmente, a maioria dos personagens que recorrem à droga The Beauty talvez nunca tenha realmente precisado dela. O que ela oferece não é libertação, mas um atalho – maneira rápida de acessar privilégios reservados a determinados corpos.

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Nesse ponto, The Beauty: Lindos de Morrer deixa escapar oportunidades mais contundentes de questionamento, pois o roteiro parece fascinado demais pelo belo, pelo esteticamente aceitável. Há espaço para contestação mais profunda, mas quem chega mais perto disso é Isabella Rossellini, na pele de Franny, personagem que observa esse universo com olhar mais crítico – ainda que, ironicamente, também acabe envolvida no processo de transformação. No frigir dos ovos, fica a sensação de que a história poderia ser contada de forma mais concisa e muitos dos conflitos caberiam em metade dos episódios. Resta saber se, na segunda temporada, Murphy irá além da fascinação estética ou se permanecerá orbitando o mesmo espelho. Afinal, depois de tanta renovação, ainda haverá algo novo para revelar?

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Fanático por cinema e futebol, é formado em Comunicação Social/Jornalismo pela Universidade Feevale. Atua como editor e crítico do Papo de Cinema. Já colaborou com rádios, TVs e revistas como colunista/comentarista de assuntos relacionados à sétima arte e integrou diversos júris em festivais de cinema. Também é membro da ACCIRS: Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul e idealizador do Podcast Papo de Cinema. CONTATO: [email protected]
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