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Sinopse
Em Um Pai em Apuros, Fred vê sua rotina virar de cabeça para baixo quando Roberta, sua esposa e mãe de seus quatro filhos, decide tirar férias. Sozinho para cuidar da casa e das crianças, ele tenta equilibrar trabalho, responsabilidades domésticas e uma série de imprevistos que tornam a situação cada vez mais caótica. Comédia.
Crítica
Quando Kramer vs. Kramer chegou aos cinemas, no fim dos anos 1970, dialogava diretamente com transformações profundas da sociedade. O aumento dos divórcios, a inserção mais ampla das mulheres no mercado de trabalho e a revisão dos papéis parentais estavam no centro do debate. Vencedor de cinco Oscars, o longa se tornou marco ao reposicionar o homem dentro da dinâmica familiar. De lá para cá, a premissa foi revisitadas inúmeras vezes, em diferentes tons e culturas, como no sucesso argentino Mamãe Foi Viajar (2017). Agora, essa estrutura ganha versão brasileira com Um Pai em Apuros, dirigido por Carolina Durão. A questão que se impõe, no entanto, é outra: o que ainda há de novo a dizer sobre esse arranjo em 2026?

Na trama, Roberta (Dani Calabresa) e Fred (Rafael Infante) formam casal com quatro filhos – cenário que, por si só, já aponta para o caos cotidiano. Enquanto ela abandonou a carreira para se dedicar integralmente à casa, ele se comporta como eterno adolescente, incapaz de lidar com responsabilidades básicas. O desgaste é inevitável. Exausta, Roberta decide viajar com a irmã para Salvador, em busca de algum respiro, deixando Fred sozinho pela primeira vez diante da tarefa de cuidar dos próprios filhos. A inversão de papéis, ainda que temporária, expõe a fragilidade de uma estrutura que sempre se apoiou no trabalho invisível da mãe.
O roteiro de Fil Braz, adaptado do texto de Mariano e Juan Vera, mantém-se próximo ao original argentino, mas ajusta o tom ao perfil de seu protagonista. Se Diego Peretti optava por composição mais contida, aqui o espaço é inteiramente de Infante. Conhecido por sua trajetória no grupo Porta dos Fundos, o ator conduz o filme apoiado em improvisos e ritmo cômico acelerado. Cada situação parece construída como plataforma para sua performance, o que garante momentos de comicidade eficaz, mas também limita outras possibilidades dramáticas. Dani, com talento equivalente, aparece menos, dada a dinâmica.
Nesse contexto, o longa cumpre o que promete em sua superfície mais evidente: provocar o riso. Trata-se de um humor familiar, acessível, por vezes ingênuo, que encontra eco fácil junto ao público. Há, ainda, tentativas discretas de inserir questões mais amplas – o afeto paterno, a sobrecarga materna, as relações de trabalho e o lugar da família na vida contemporânea. São temas relevantes, mas tratados de maneira tímida, quase como pano de fundo para a sucessão de gags.

O problema é que a proposta soa, em muitos momentos, como eco de debate já amadurecido – ou, ao menos, que deveria estar. A configuração familiar apresentada carrega certo ar de passado, distante das múltiplas formas de organização que marcam o presente. O próprio comportamento de Fred, preso a uma imaturidade quase caricatural, beira o anacrônico. Ainda assim, o filme acerta ao não transformá-lo em herói irrestrito, oferecendo-lhe alguma forma de aprendizado, ainda que sem grande contundência. No fim, Um Pai em Apuros se estabelece como comédia leve, de intenções simples, que diverte e pontua lições básicas – aquelas que, a esta altura, já não deveriam precisar ser reaprendidas, mas que, curiosamente, seguem encontrando espaço para retorno.
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Grade crítica
| Crítico | Nota |
|---|---|
| Victor Hugo Furtado | 6 |
| Alysson Oliveira | 4 |
| MÉDIA | 5 |

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