Crítica


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Sinopse

Ronaldinho Gaúcho acompanha a trajetória do jogador desde a infância até o auge no futebol europeu, passando, é claro, pela grande conquista da Copa do Mundo de 2002. Revisita também episódios fora de campo, com depoimentos de nomes importantes do esporte, além de imagens de arquivo que ajudam a contextualizar sua carreira e decisões. Documentário/Esporte.

Crítica

O responsável pela aposta futebolística da vez é Luis Ara, que já havia demonstrado gosto pelas quatro linhas em projetos como Para Sempre Chape (2018) e Brasil 2002: Os Bastidores do Penta (2022). Futebol, afinal, é terreno fértil, com paixão nacional capaz de mobilizar milhões e transformar detalhes em acontecimentos de escala quase épica. Em Ronaldinho Gaúcho, porém, o diretor opta por jogar com o regulamento debaixo do braço, como se diz no “mundo da bola”. Há, sim, a intenção de revisitar trajetória que marcou época, mas falta disposição para tensionar ou expandir o material.

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Esta também não é a primeira investida da Netflix no universo íntimo de grandes jogadores. Neymar: O Caos Perfeito (2022) e Beckham (2023) são exemplos recentes – e úteis para comparação. Enquanto o projeto sobre Neymar opta por abordagem claramente promocional, evitando zonas de conflito (e as poucas ainda soam artificiais), a série sobre o craque inglês se destaca justamente pela franqueza do depoimento, abrindo espaço para fragilidades e contradições. No caso do Gaúcho, a balança pende novamente para o primeiro modelo.

Eleito duas vezes melhor do mundo, o astro construiu carreira marcada tanto pelo brilho em campo quanto por uma personalidade reservada diante das câmeras. A timidez, aliás, é quase uma marca registrada e são raras as entrevistas em que se permite ir além do protocolo. Curiosamente, essa contenção convive com a imagem pública do “rei do rolê aleatório”, figura presente em contextos improváveis ao redor do planeta. A contradição é evidente, mas o próprio protagonista a resolve de forma direta: “converso normal, mas não gosto de câmeras”. A partir daí, o que se vê é personagem que escolhe o silêncio como estratégia.

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Diante desse cenário, Ara opta pela segurança. Em apenas três episódios – número que soa insuficiente diante da riqueza do material – a narrativa percorre momentos já conhecidos, evitando aprofundamentos mais espinhosos. Questões que despertam curiosidade, como o retorno frustrado ao Grêmio em 2011, são tratadas de forma superficial. Esperar qualquer coisa parecida com o reencontro entre Xuxa e Marlene Mattos em Xuxa, o Documentário é apenas devaneio. E outros aspectos simplesmente também não entram em campo: gostos pessoais, visões de mundo, posicionamentos. O resultado é um recorte que pouco acrescenta ao que já se sabia: Ronaldinho é um cara festeiro e feliz. 

Ainda assim, há momentos que resgatam a dimensão do jogador. Para quem cresceu nos anos 2000, o material desperta memória afetiva imediata. Dribles, gols e atuações que ajudaram a construir o mito estão ali, ainda que parcialmente. Porém, há um ruído difícil de ignorar: a ausência de imagens originais de transmissões históricas. A impossibilidade de utilizar narrações icônicas – como as de Galvão Bueno – apaga até mesmo marcas indissociáveis dessa trajetória, como o célebre “olha o que ele fez!” na estreia de Ronaldinho pela seleção em 1999. No lugar, entram recriações artificiais que diluem o impacto de lances já eternizados no imaginário coletivo.

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Nem mesmo a presença de nomes como Lionel Messi e Neymar, em depoimentos pontuais, é suficiente para elevar o conjunto. Participações breves, pouco exploradas, que reforçam a sensação de oportunidade perdida. Ao final, Ronaldinho Gaúcho se aproxima mais de tributo protocolar do que de retrato definitivo. Há respeito, há nostalgia, há momentos de brilho… mas falta mergulho. Para alguém que redefiniu o jogo com alegria e improviso, o resultado soa contido demais. Uma pena.

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Fanático por cinema e futebol, é formado em Comunicação Social/Jornalismo pela Universidade Feevale. Atua como editor e crítico do Papo de Cinema. Já colaborou com rádios, TVs e revistas como colunista/comentarista de assuntos relacionados à sétima arte e integrou diversos júris em festivais de cinema. Também é membro da ACCIRS: Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul e idealizador do Podcast Papo de Cinema. CONTATO: [email protected]
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