Herança de Narcisa

Crítica


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Sinopse

Em Herança de Narcisa, assombrada por memórias da recentemente falecida mãe, uma grande vedete, Ana quer vender a casa onde passou sua infância e dividir o dinheiro com seu irmão mais novo, Diego. Mas quando o espírito de sua mãe começa a dar sinais de presença na casa, fica claro que Narcisa ainda tem domínio sobre a filha, mesmo depois da morte. Horror.

Crítica

Paolla Oliveira já ocupa, há tempos, lugar incontornável na cultura pop brasileira. Carismática, rainha de bateria, rosto onipresente da teledramaturgia nacional… tudo parece conduzir naturalmente à sua consagração também no cinema. No entanto, essa transição nunca se deu de forma plenamente satisfatória. De Alguém Como Eu (2017) a Bala Sem Nome (2023), a atriz esteve envolvida em projetos até ambiciosos, mas que raramente souberam extrair o melhor de sua presença em cena. Herança de Narcisa também não rompe esse padrão, ainda que marque sua estreia no território do terror. Ao apostar em temas como relações familiares tóxicas e heranças traumáticas, o filme parece ter todos os ingredientes para impactar – mas algo se perde no caminho, especialmente na tentativa de chocar.

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Na trama, acompanhamos Ana (Paolla), que acaba de perder a mãe, uma ex-vedete, ao melhor estilo Virgínia Lane. Após o enterro, ela retorna à antiga casa da família com a intenção de organizar o imóvel para venda. Desde o primeiro dia, no entanto, torna-se evidente que aquela não será estadia tranquila. Do antigo camarim da mãe, escondido atrás de uma porta vermelha, algo – ou alguém – bate de forma insistente, tentando girar a maçaneta para escapar. O mistério está lançado, mas sua condução logo se mostra problemática.

É justamente nesse gatilho que os principais problemas de construção se impõem, pois o motor da tensão é essa porta que não apenas bate, mas é violentamente esmurrada, dia e noite. Ainda assim, Ana consegue adormecer, ignorar o ruído e adiar qualquer solução concreta para a manhã seguinte. O som persiste nos dias subsequentes, exigindo do espectador uma suspensão de descrença cada vez mais elástica. Por que esperar tanto para resolver algo tão gritante? A personagem estaria ocupada demais com a casa? O argumento não se sustenta. Nem mesmo a chegada do irmão, convocado para ajudá-la, altera essa inércia narrativa, e o problema permanece inexplicavelmente intacto.

A entrada de Diego (Pedro Henrique Müller) evidencia outro tropeço do roteiro: a exclusão funcional de personagens. Sua presença é quase decorativa, limitada a tentativas pontuais – e ineficazes – de aliviar a tensão. Ele entra e sai da história sem relevância. A partir daí, cada vez mais isolada, Ana passa a sentir uma presença invisível que desestabiliza seus sentidos e embaralha seus pensamentos. Todo esse peso recai sobre Paolla, que, sem suporte dramático consistente, precisa sustentar a transformação psicológica apenas com expressões faciais e olhares perdidos. Mas o longa nunca esclarece o suficiente: o que exatamente ela sente? O que a paralisa? Por que esse estado quase hipnótico? 

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No fim das contas, Herança de Narcisa se revela filme feito de perguntas, mas não daquelas que provocam reflexão, são questionamentos oriundos de montagem confusa, de escolhas pouco calibradas e de condução que privilegia o ruído à construção de sentido. A trilha sonora, excessiva e intrusiva, tenta compensar a falta de ritmo e acaba apenas reforçando o caos. Resta a sensação de um projeto que poderia ter sido mais preciso, transformando sua inquietação em algo que segurasse mais o espectador. Mas o cinema não se faz de “e se”, não é mesmo? O resultado é um terror morno, e facilmente esquecível – mais um capítulo frustrante na tentativa de consolidar, no cinema, estrela que já brilha intensamente em outros palcos.

Filme visto na Mostra de Cinema de Tiradentes 2026.

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Fanático por cinema e futebol, é formado em Comunicação Social/Jornalismo pela Universidade Feevale. Atua como editor e crítico do Papo de Cinema. Já colaborou com rádios, TVs e revistas como colunista/comentarista de assuntos relacionados à sétima arte e integrou diversos júris em festivais de cinema. Também é membro da ACCIRS: Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul e idealizador do Podcast Papo de Cinema. CONTATO: [email protected]
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