Crítica
Leitores
Sinopse
Na nova temporada de O Urso, Sydney, Richie e Natalie assumem o comando do restaurante após Carmy decidir abandonar a gastronomia. Sem recursos, sob a ameaça de perder o negócio e diante de uma tempestade que coloca tudo em risco, a equipe precisa se unir para realizar seu último serviço na esperança de conquistar a tão sonhada estrela Michelin. Drama.
Crítica
Poucas séries contemporâneas cresceram tanto quanto O Urso. O que começou como drama aparentemente modesto sobre um restaurante em Chicago rapidamente se transformou em retrato contundente de ansiedade, luto, trabalho e pertencimento. No caminho, lançou Jeremy Allen White ao primeiro escalão de Hollywood, consolidou Ayo Edebiri como uma das artistas mais interessantes de sua geração e abriu espaço para que Ebon Moss-Bachrach chegasse a superproduções como Quarteto Fantástico: Primeiros Passos (2025). Mas toda cozinha conhece o risco de servir o mesmo prato vezes demais. Desde os primeiros minutos desta quinta e última temporada, percebe-se que o clima é de despedida. A questão deixa de ser “como terminar?” e passa a ser “como encerrar algo que, em seu auge, parecia praticamente perfeito?“.

Os episódios caminham nessa direção com delicadeza. Há evidente passagem de bastão de Carmy (Allen White) para Syd (Ayo), que finalmente assume o espaço de liderança que a narrativa vinha preparando há anos. Ao redor deles, a família construída dentro do restaurante encontra momentos sinceros de aproximação. Richie (Moss-Bachrach) reafirma o amadurecimento conquistado nas temporadas anteriores, Marcus (Lionel Boyce) continua sendo uma das presenças mais humanas da cozinha, enquanto Tina (Liza Colón-Zayas), Ebraheim (Edwin Lee Gibson) e os demais personagens encontram pequenos instantes de afeto que reforçam vínculos antes apenas sugeridos. Até a chuva constante que cobre Chicago parece participar da narrativa, criando atmosfera melancólica que acompanha a sensação de fim iminente.
O problema é que boa parte desse sentimento parece existir apenas na superfície. Carmy, justamente o personagem que carregou a série desde o primeiro capítulo, vai sendo progressivamente empurrado para a lateral da própria história. A sensação lembra, em alguma medida, o que Toy Story 5 (2026) fez recentemente com Woody: aquele que sempre foi o centro emocional da narrativa permanece presente, mas já não ocupa seu lugar natural. A decisão de entregar protagonismo maior a Syd faz sentido dramaticamente, mas acontece às custas do esvaziamento de quem ainda tinha conflitos importantes para resolver. O relacionamento com Claire (Molly Gordon), por exemplo, que durante tanto tempo foi tratado como uma das grandes feridas emocionais de Carmy, simplesmente termina sem encontrar desenvolvimento compatível com a expectativa criada. É difícil não sentir frustração.
Outras escolhas reforçam essa impressão. Depois do belíssimo episódio especial Gary (2026), que devolveu ao público a presença inesquecível de Michael Berzatto (Jon Bernthal), era natural imaginar que a temporada encontraria novas formas de manter viva essa ausência que sempre moveu a aposta. Não acontece. O personagem permanece como memória distante quando ainda havia muito a oferecer dramaticamente. O mesmo vale para Donna, interpretada por Jamie Lee Curtis. Depois de dominar alguns dos momentos mais devastadores da trama, ela retorna quase como participação especial de luxo. Seu desfecho é digno, mas discreto demais para alguém que ajudou a construir alguns dos momentos mais memoráveis de toda a produção.

Talvez o maior problema esteja justamente na comparação inevitável com aquilo que O Urso já foi. A primeira e a segunda temporadas elevaram tanto o nível que acabaram criando um obstáculo para si mesmas. Como esquecer o caótico jantar de Natal ou Michael sorrindo ao final da primeira temporada? O último capítulo desta despedida evidencia essa dificuldade. Carmy embarca em viagem íntima para participar de uma entrevista de emprego apenas para chegar a conclusões que a própria série já havia discutido. Em vez de expandir o personagem, a sequência parece reduzi-lo. O encerramento é até afetuoso com quem acompanhou essa família desde 2022. Mas, para uma das empreitadas televisivas mais importantes de sua geração, faltou o algo a mais.
Últimos artigos deVictor Hugo Furtado (Ver Tudo)
- Festival de Gramado 2026 :: “A próxima cena é sempre imprevisível”. Confira nossa entrevista com a equipe de Leite em Pó - 19 de agosto de 2026
- Leite em Pó - 19 de agosto de 2026
- Festival de Gramado 2026 :: Charlie Brown na Serra Gaúcha! Saiba como foi a noite de estreia de Chorão: Só os Loucos Sabem - 18 de agosto de 2026






Deixe um comentário