O Cavaleiro dos Sete Reinos : T01
-
Ira Parker
-
A Knight of the Seven Kingdoms
-
2026
-
EUA
Crítica
Leitores
Sinopse
A primeira temporada de O Cavaleiro dos Sete Reinos acompanha Dunk, um garoto pobre da Baixada das Pulgas que vê a chance de mudar de vida ao deixar Porto Real para se tornar escudeiro de um cavaleiro andante. Ao longo do caminho, ele conhece Egg, um menino de dez anos tão astuto quanto misterioso, e decide aceitá-lo como seu escudeiro, iniciando uma jornada que os levará por torneios, intrigas e desafios. Fantasia/Aventura.
Crítica
O universo que teve origem a partir das Crônicas de Gelo e Fogo, escritas por George R. R. Martin, parece não ter fim. Depois das oito temporadas de Game of Thrones (2011-2019) e de dois anos de A Casa do Dragão (2022-) – uma terceira leva de episódios já foi confirmada para 2026 – eis que chega O Cavaleiro dos Sete Reinos, uma aventura, digamos, “menor”, e com isso entenda-se menos ambiciosa, até mesmo mais discreta, porém ambientada entre os acontecimentos vistos nos outros dois programas. Com apenas seis episódios de cerca de 30 minutos cada, a trama levada às telinhas pelo showrunner Ira Parker – que tem também no currículo títulos como The Nevers (2023) e O Simpatizante (2024) – é discreta também no espectro que procura abordar: apenas um (ou no máximo dois, dependendo do ponto de vista) protagonista, poucos personagens envolvidos, sem muitas idas e vindas temporais, com um enredo ocupando poucos dias e se resolvendo em si mesmo. Ou seja, funciona tanto como um agrado aos fãs de longa data, como também como porta de entrada para quem está somente agora demonstra interesse por tal cenário. Ou seja, dois acertos em um só esforço.

Ou quase isso. Afinal, O Cavaleiro dos Sete Reinos, apesar do título brasileiro, não tem toda essa importância – portanto, o recomendável é diminuir as expectativas. No original, a série recebeu o nome de A Knight of the Seven Kingdoms – ou seja, em tradução direta, o correto seria Um Cavaleiro dos Sete Reinos. Uma diferença mínima, mas substanciosa. Pois não se trata d’O mais importante. Duncan é, portanto, apenas mais um dentre tantos. Natural se questionar os motivos para acompanhar as andanças e desventuras de um personagem tão genérico. Mas não é para tanto. Depois de tantas lutas por reinos e condados, de intrigas familiares, de disputas épicas e confrontos bélicos, cai bem um embate mais íntimo sobre a formação de um que pode ser o exemplo de tantos. Um rapaz sem eira, nem beira, meio que perdido em seus propósitos, que acaba encontrando caminho entre um acerto e outros tantos enganos. Com aqueles que vai conquistando a simpatia por onde passa, ainda que, vez que outra, também acumule desavenças. O tipo de coisa que poderia se passar com qualquer um. Assim, a identificação com o espectador se aprofunda, aproximado a fantasia da realidade.
Duncan é vivido pelo novato Peter Claffey, visto rapidamente no drama Pequenas Coisas Como Estas (2024) ou na série Vinkings: Valhalla (2024). Se a altura é a primeira coisa a chamar atenção a seu respeito – o personagem se tornará conhecido como “Dunk, O Alto” – sua eventual inexperiência caberá a um tipo que também está recém começando a descobrir as coisas por conta própria. Órfão, perdeu a melhor amiga ainda criança, e foi na sombra de um cavaleiro errante que encontrou alguém em quem se espelhar. Porém, quando esse também o deixa, restará a ele seguir sozinho – mas não por muito tempo. Em uma das estalagens na qual bate à porta em busca de comida e abrigo, acaba se deparando com o pequeno Egg (o impressionante Dexter Sol Ansell, visto em Jogos Vorazes: A Cantiga dos Pássaros e das Serpentes, 2023). O apelido – “Ovo” em bom português – parece advir da careca que o menino ostenta. Mas há outro motivo por trás. E esse só será revelado no momento certo. Até lá, um se tornará escudeiro do outro, e ambos partirão rumo ao vilarejo onde um duelo festivo está prestes a acontecer. Justamente a partir da chegada dos nobres Targaryen.

A narrativa é sucinta e não abre espaço para divagações. Dunk fica sozinho, encontra Egg, os dois formam uma parceria, o duelo começa, um desafio é proposto e dois lados se estabelecem, um tentando defender a honra, outro fazendo valer privilégios e abusos que se acumularam ao longo dos séculos. Quase não há personagens femininos nesse mundo tomado por violências, arrogâncias, uso da força e explorações. Uma das poucas, a mezzo artesã, mezzo prostituta Tanselle (Tanzyn Crawford, de As Pequenas Coisas da Vida, 2023), acaba por desempenhar mais de uma função: é tanto interesse amoroso do protagonista (algo que nem chega a ser desenvolvido), como também a motivação para o conflito que irá se estabelecer (ponto de virada da trama). Quando se vê ameaçada de morte por um Targaryen rancoroso, Dunk se colocará diante desse perigo. Assim, os dois terão que resolver essa afronta duelando um contra o outro. Mas não tão simples: um “acerto dos sete” é invocado, e cada um terá que angariar outros para, em conjunto, defender sua causa. É quando o desconhecido mostrará forças capazes de fazer frente a um nobre que gosta de ostentar tanto sua história, como seu desprezo pelos demais.
O embate entre eles aponta para os momentos mais climáticos da trama, mas não os únicos. Afinal, o melhor de O Cavaleiro dos Sete Reinos estará na dinâmica estabelecida entre Duncan e Egg. O pequeno, por mais diminuta que seja sua estatura, está sempre um passo a frente do grandão. E ainda que seja esse a responder pela “figura responsável” da dupla, será a criança a ditar o rumo dos acontecimentos. Os dois demonstram tamanha sintonia que não exige muito esforço torcer pelo sucesso de seus intentos. E quando por ventura se veem obrigados a uma separação imposta pelas condições enfrentadas, é sabido que não tardará que se reencontrem, mais uma vez por meio de uma manipulação dos fatos – um pensará estar tomando a decisão acertada, enquanto será outro, no final das contas, que irá responder pela efetividade de suas ações. O desperdício de homens valorosos e a impunidade daqueles que muito teriam pelo que se arrepender continua ditando a ordem das coisas, tal qual como fora nos demais programas do mesmo autor, mas o clima mais ameno, e menos selvagem, facilita a aproximação de quem andava cansado de tanto sangue e destruição.

Confirmando-se quase como um prólogo, essa primeira temporada de O Cavaleiro dos Sete Reinos envolve justamente pela falta de pretensão, da mesma forma como ganha pontos pelas figuras carismáticas que desfila em cena. Sem abandonar as esperadas conexões com nomes e situações previamente conhecidas pelos fãs e curiosos, também é comedida o bastante para não tornar essas referências exigência para sua compreensão. É de se esperar mais de Dunk e Egg, do que ambos podem fazer um pelo outro, em conjunto e, provavelmente, quando novamente se verão apartados. Mas uma base sólida foi aqui construída. O terreno, enfim, se confirma fértil. Resta esperar, agora, pelos próximos capítulos.
PAPO DE CINEMA NO YOUTUBE
E que tal dar uma conferida no nosso canal? Assim, você não perde nenhuma discussão sobre novos filmes, clássicos, séries e festivais!
Últimos artigos deRobledo Milani (Ver Tudo)
- BrLab 2026 :: “Há um movimento forte de integração no cinema latino-americano”, aponta a montadora Karen Akerman - 23 de abril de 2026
- Maldição da Múmia - 23 de abril de 2026
- Papagaios - 23 de abril de 2026


Deixe um comentário