A quinta noite do 54º Festival de Cinema de Gramado foi marcada pela estreia de Leite em Pó, novo longa de Carlos Segundo que integra a competição de longas brasileiros. Protagonizado por Vinicius de Oliveira, o eterno Josué de Central do Brasil (1999), o filme acompanha Vicente, músico paulista de talento limitado que vive com a avó em Natal, no Rio Grande do Norte. Em busca de recursos para pagar as contas, ele aceita um trabalho que o coloca diante de uma série de personagens e situações inesperadas.
Produção da O Sopro do Tempo em parceria com a Vitrine Filmes, responsável pela distribuição nos cinemas, e a francesa Les Valseurs, Leite em Pó reúne, além de Vinicius, nomes como Antônio Pitanga, Rejane Faria e Zezita Matos. O elenco também conta com Titina Medeiros, em seu último trabalho, e Priscilla Vieira, protagonista de Sideral (2021), também dirigido por Segundo.
Na manhã desta quarta, 19, Vinicius e Segundo conversaram com o Papo de Cinema sobre a construção de Vicente, a estrutura imprevisível do longa e uma maneira de fazer cinema que prefere deixar perguntas abertas a oferecer respostas prontas.
FESTIVAL DE GRAMADO 2026
PERSONAGEM EM TRANSFORMAÇÃO
Para Vinicius, uma das principais características de Vicente está justamente na contradição. O personagem é um homem solitário, mas que ainda preserva uma espécie de impulso interno capaz de fazê-lo seguir em frente. “É um cara quebrado, ferrado, trágico, mas ele tem um impulso que é bonito, verdadeiro, orgânico e muito humano. Isso me interessa muito. Ele é muito complexo, não é previsível. Você não sabe o que ele vai fazer no próximo ano, que pessoa vai encontrar. Está buscando o espaço dele em um mundo novo que se apresenta. É um cara de 40 anos, criado pela avó, preso no mundo do rock, e, a partir de um acontecimento trágico, de um diário que ele descobre, um mundo novo se apresenta. Aí vem a complexidade humana, e ele deixa transparecer essa fagulha”.

Essa transformação também aproxima Vicente de uma questão que o ator considera especialmente contemporânea: a necessidade de rever comportamentos e aprender a enxergar o outro com mais empatia. “É um cara que está se transformando, tentando ver o mundo com mais empatia, principalmente em relação às mulheres. A gente continua violentando mulheres, continua sendo uma sociedade patriarcal horrorosa. Então, acho que Vicente é esse tipo de homem. E não é aquele homem do discursinho, é um homem que tenta se transformar a partir das atitudes”.
“A PRÓXIMA CENA É SEMPRE IMPREVISÍVEL”
A própria estrutura de Leite em Pó acompanha essa ideia de transformação. Para Vinicius, o filme não permite que o protagonista – nem o público – tenha controle completo sobre os caminhos que serão percorridos. “É muito interessante como o filme não termina em si, e é como se o Carlos não deixasse que a gente se apropriasse do filme. A próxima cena é sempre imprevisível. Eu amo esse tipo de história, amo essas doidices, esses movimentos que são bruscos, mas, ao mesmo tempo, muito necessários e importantes, porque a gente está reproduzindo exatamente como é a vida”. O ator relaciona essa fragmentação à própria experiência cotidiana. “A vida lá fora é muito fragmentada e imprevisível. […] A gente não sabe com quem vai topar na esquina, com quem vai falar, o que vai acontecer na esquina seguinte. Esse movimento me fascina demais”.
ESTREIA ESPERADA EM GRAMADO
A chegada de Leite em Pó ao Festival de Gramado também carregava uma expectativa particular para Vinicius. “Foi uma estreia muito bonita. Confesso que estava muito ansioso para mostrar esse filme aqui, não só pelo meu trabalho, mas também pelo trabalho do Carlos. Todo mundo tinha uma expectativa muito grande por conta dos curtas que ele realizou, que são filmes incríveis”. A resposta encontrada após a sessão, segundo ele, correspondeu ao que a equipe esperava. “Muita gente se emocionou, principalmente o público que veio falar comigo, me parabenizar, assim como o Carlos e toda a equipe”, contou.
CINEMA SEM CERTEZAS
Se Vinicius percebe a imprevisibilidade como uma das forças de Vicente, Carlos Segundo confirma que essa característica está no centro de sua proposta cinematográfica. “Gosto muito desse cinema em que o arco não vai se desenhando tão facilmente, em que você vai construindo a história sem dar muita certeza ao espectador”. Segundo define Leite em Pó como um trabalho de estrutura mais livre e labiríntica, no qual as conexões vão surgindo ao longo do percurso. “Gosto muito de pensar o cinema como um cinema mais livre. Não pensar o cinema como um quebra-cabeça, mas como uma carta aberta, como uma colagem. E é na colagem que o desenho se forma depois. As coisas vão se conectando e você não sabe muito bem para onde está indo”.

Essa lógica dá origem ao que o diretor chama de um “personagem derivante”. “Em Leite em Pó tem isso, essa derivação. É um personagem derivante. A própria situação permite que ele vá sendo levado dessa forma, como você colocou, e vai levando o espectador também, sem dar muita certeza do próximo passo”.
PERSONAGENS NO LIMITE
A construção de Vicente também se conecta a uma característica recorrente na filmografia de Segundo. O diretor explicou que costuma partir de personagens ordinários, que não necessariamente despertam uma identificação imediata, para então colocá-los diante de situações cada vez mais difíceis. “Nos meus filmes curtas isso já acontecia: trabalhar com personagens mais ordinários, personagens para os quais você não dá tanta coisa, não cria tanta empatia no primeiro momento, e levá-los a um limite quase impossível das situações. E como eles resolvem isso? Sempre penso no cinema como uma forma de equação também, como criar uma equação que o personagem tem que resolver”.
No caso de Vicente, essa equação envolve luto e a necessidade de encontrar um novo sentido para a própria existência. Para Segundo, existe ainda uma dimensão relacionada à maneira como os brasileiros enfrentam situações adversas. “Com o Vicente, tem essa construção também, esse personagem que vai… Porque também é um pouco a nossa vida, é um pouco o jeito brasileiro de ser. A gente vai até o final, vai resistir ao máximo, mesmo em situações como as que ele vai vivenciar, de luto, de uma busca de um sentido novo para a vida”.
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