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Está aberta a competição brasileira de longas! A segunda noite do 54º Festival de Cinema de Gramado, sábado, 15, foi marcada pela estreia de Feito Pipa. Dirigido por Allan Deberton, o filme chegou à Serra Gaúcha depois de uma passagem premiada pela Berlinale 2026 e recebeu uma calorosa resposta do público no Palácio dos Festivais, com cerca de dez minutos de aplausos ao final da sessão. Na manhã deste domingo, 16, o diretor e Lázaro Ramos conversaram com o Papo de Cinema sobre o drama, seus personagens, a relação com o Ceará e as ideias de afeto e liberdade que atravessam a trama. 

FESTIVAL DE GRAMADO 2026 :: FEITO PIPA

RETORNO ESPECIAL A GRAMADO

A passagem por Gramado tem um significado particular para Deberton. Foi nesse evento que seu primeiro longa, Pacarrete (2019), teve uma trajetória consagradora, conquistando o Kikito de Melhor Filme da edição. Agora, ele retorna à Serra Gaúcha com Feito Pipa. Na nova produção, Gugu (Yuri Gomes) é um menino de quase 12 anos apaixonado por futebol e criado pela avó Dilma (Teca Pereira), com quem mantém uma relação marcada por liberdade e afeto. A rotina dos dois começa a mudar quando ele precisa lidar com a possibilidade de morar com o pai, interpretado por Lázaro Ramos, um homem que tem dificuldade para expressar seus sentimentos e compreender a maneira de ser do filho.

Rodado em Quixadá, no sertão do Ceará, o projeto aborda amadurecimento e relações familiares a partir do olhar de Gugu. O elenco conta ainda com Carlos Francisco, de O Agente Secreto (2025), e Georgina Castro, de O Céu de Suely (2006). O longa, aliás, chega aos cinemas brasileiros em 05 de novembro, com distribuição da Paris Filmes.

Festival de Cinema de Gramado 2026 :: Equipe de Feito Pipa. Foto: Edison Vara
Festival de Cinema de Gramado 2026 :: Equipe de Feito Pipa. Foto: Edison Vara

“EM BUSCA DE ENCONTROS, RESPOSTAS E SONHOS”

Ao falar sobre os personagens que cria, Allan identifica uma característica que atravessa sua filmografia: figuras em movimento, tentando encontrar espaço próprio no mundo. A inspiração passa também pelo cinema brasileiro e, especialmente, por uma obra que o marcou profundamente. Quando tive a oportunidade de assistir a O Céu de Suely, enquanto morava no Rio, percebi ali o meu território, o Ceará, de uma forma muito conectada. O filme traz personagens que, assim como eu naquele momento e sempre, estão em movimento, em busca de encontros, respostas, de um ideal, de sonhos. Acho que esse movimento de encontro, de busca e de afirmação é um fator humano global”.

O diretor também aponta o cinema de Karim Aïnouz como uma referência importante para essa maneira de observar personagens inquietos. Para ele, essa busca permanente por um lugar no mundo também diz respeito à maneira como ele próprio se coloca diante de seus filmes. O cinema do Karim trazia esses personagens que divagam em busca do próprio lugar, dos seus sonhos, das suas afirmações. Isso sempre foi muito natural para mim. Acho que é também uma forma de me colocar como personagem desses filmes, em lugares inquietos, em busca de territórios, de soluções e não necessariamente com finais fechados. Porque acredito que a vida está sempre em movimento e que as respostas estão muito dentro das nossas próprias observações”.

MEMÓRIA E CIDADE SUBMERSA

Em Feito Pipa, essa ideia de território também aparece por meio da memória. O açude presente na história guarda as marcas de uma cidade antiga e acaba estabelecendo uma relação simbólica com a perda das lembranças de Dilma, personagem de Teca: “a perda da memória é um lugar de medo. Imagine uma pessoa que é carregada por um infinito de experiências, de pessoas que cruzam, de amores, de paixões, e, num belo dia, essas memórias se esvaem. Então, o elemento do açude, dessas águas que carregam uma cidade antiga, transita, em termos de linguagem, com a chegada do Alzheimer para a personagem da Teca”.

Festival de Cinema de Gramado 2026 :: Feito Pipa
Festival de Cinema de Gramado 2026 :: Feito Pipa

A doença da avó não aparece, portanto, apenas como um elemento dramático. Ela também modifica a maneira como Gugu observa o próprio mundo. “Há diversas simbologias no filme, um lugar de debate interno, de complexidade interna pelo olhar de uma criança, de como as coisas se dão. A chegada da Eliane (falecida mãe de Gugu), através dos olhos do menino, o afeta, fazendo com que ele fique curioso sobre aquilo tudo, sobre a mãe, mas, ao mesmo tempo, preocupado com a avó.”

“UM FILME SOBRE CUIDAR UM DO OUTRO”

É nesse emaranhado de relações que Deberton encontra o coração da aposta. Mais do que uma história sobre conflitos familiares, o cineasta enxerga a produção como uma reflexão sobre a necessidade de estabelecer vínculos. “Feito Pipa é um filme sobre cuidar um do outro, sobre estabelecer conexões dentro da própria casa. Muitas vezes, a gente tem esses debates internos e familiares, e momentos políticos também levam a rupturas. É um filme que tenta transitar muito com a verdade da vida”.

DESCOBERTA DE YURI GOMES

Essa “verdade da vida” também passa pela maneira como Gugu é colocado no centro da narrativa. Aproximadamente 90% do longa é conduzido pelo personagem mirim, o que representou um dos maiores desafios da produção. A dúvida, contudo, acabou se transformando em uma das experiências mais felizes da realização. Deberton encontrou em Yuri uma combinação de intensidade e espontaneidade que ajudou a sustentar a história. “Era importante tê-lo realmente muito à disposição do projeto, e o Yuri foi fantástico. Ele é uma criança muito intensa, mas também muito observadora, muito atenta, muito querendo acertar, trazendo dentro dele toda uma verdade infantil e uma curiosidade sobre o mundo em busca de respostas. Foi um trabalho muito feliz”.

O diretor também fez questão de destacar a participação de Luciana Vieira, responsável pela assistência de direção e pelo elenco, no processo de preparação da produção. “Agradeço muito a participação da Luciana Vieira como assistente de direção e também responsável pelo elenco, porque ela me somou bastante nessa conquista do nosso elenco mirim, que era um grande desafio do projeto”.

LÁZARO RAMOS E UM PAI QUE AMA, MAS NÃO SABE COMO

Do outro lado da relação central está o personagem de Lázaro. O ator interpreta um pai que poderia facilmente ser reduzido ao estereótipo do homem intolerante, mas cuja construção acabou tomando outro caminho durante os ensaios. Ao receber o roteiro, inicialmente ele imaginava, em suas palavras, “trabalhar com um homem completamente bruto e incapaz de amar o próprio filho”.

O processo de preparação, entretanto, fez com que ele percebesse que havia “algo mais complexo por trás daquela dificuldade de comunicação”. Foi um aprendizado. Quando começamos a ensaiar, pensei: ‘Isso vai ser o meu maior erro se eu não colocar amor aqui’. Esse cara ama o filho, mas tem uma impossibilidade muito grande de aceitar o filho do jeito que ele é”.

Festival de Cinema de Gramado 2026 :: Equipe de Feito Pipa. Foto: Edison Vara
Festival de Cinema de Gramado 2026 :: Equipe de Feito Pipa. Foto: Edison Vara

A partir daí, ele passou a compreender o personagem também como alguém limitado pelas próprias expectativas. Enquanto Gugu deseja liberdade e espaço para descobrir quem é, o pai parece buscar uma existência previsível, sem grandes rupturas. “Além de tudo, o filho ainda grita por liberdade quando ele só quer ter uma vida morna, só quer ter uma vida média com a filhinha dele, fazer ali um chá-revelação, ter um trabalho que sustente a vida dele. Ele não tem grandes sonhos”.

O ator também destacou justamente a possibilidade de experimentar novos caminhos como uma das maiores recompensas do projeto: “fui aprendendo isso no processo, na convivência com o Yuri, que é um pouco essa criança também, e no trabalho do Allan, que é um diretor de uma sensibilidade gigante e sabia, em cada cena, me pedir coisas diferentes”.

Por isso, ao olhar para Feito Pipa dentro de sua trajetória, Lázaro prefere falar em descoberta. Depois de tantos anos de carreira e de personagens marcantes, ainda há espaço para ser surpreendido pelo próprio ofício. “Foi lindo, nesse momento da carreira, poder aprender mais uma coisa. Acho que esse é um filme que, para mim, foi de um grande aprendizado”.

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Fanático por cinema e futebol, é formado em Comunicação Social/Jornalismo pela Universidade Feevale. Atua como editor e crítico do Papo de Cinema. Já colaborou com rádios, TVs e revistas como colunista/comentarista de assuntos relacionados à sétima arte e integrou diversos júris em festivais de cinema. Também é membro da ACCIRS: Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul e idealizador do Podcast Papo de Cinema. CONTATO: [email protected]

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