20260630 a24 papo de cinema 800

Hoje em dia, basta o logotipo da A24 aparecer antes de um trailer para que boa parte da cinefilia entre em estado de atenção. O estúdio independente se transformou em um raro fenômeno de Hollywood: uma empresa que não apenas lança filmes, mas também desperta um sentimento de pertencimento. Porém, nos últimos dias, a relação entre a A24 e seu público sofreu um abalo inesperado. O anúncio de uma parceria com o Google DeepMind desencadeou críticas, piadas sobre uma suposta “morte da A24” e até ameaças de boicote. Mas, afinal, o que aconteceu? E por que um acordo de pesquisa tecnológica provocou uma reação tão intensa? Nós investigamos.

A24

COMO O ESTÚDIO SE TORNOU MARCA CULTURAL?

A história da A24 ajuda a explicar por que a polêmica ganhou proporções tão grandes. Fundado em 2012, o estúdio cresceu justamente ocupando um espaço que muitos acreditavam estar desaparecendo em Hollywood: o do cinema autoral de médio orçamento, comandado por cineastas com forte identidade criativa. Foi a A24 que apostou em nomes como Ari Aster, Robert Eggers e Sean Baker, além de lançar títulos como Moonlight: Sob a Luz do Luar (2016) e Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo (2022), vencedores do Oscar de Melhor Filme.

A24 :: Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo (2022)
A24 :: Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo (2022)

Mais do que uma distribuidora, a A24 se transformou em uma marca de comportamento. Perfis publicados por revistas como Variety e The Hollywood Reporter já a descreveram como uma espécie de “supreme do cinema independente”. Nas redes sociais, surgiu até o termo “A24-core“, utilizado para descrever produções melancólicas, visualmente sofisticadas e protagonizadas por personagens emocionalmente deslocados. E é justamente por isso que a parceria com o Google provocou tamanha reação.

O QUE A A24 ANUNCIOU?

No último dia 22 de junho, a A24 confirmou uma parceria estratégica com o Google DeepMind para o desenvolvimento de ferramentas de inteligência artificial voltadas à produção audiovisual. Segundo informações divulgadas primeiramente pelo The Wall Street Journal, o Google investirá cerca de US$ 75 milhões em uma nova divisão do estúdio chamada A24 Labs, liderada pelo executivo Scott Belsky. O objetivo, ao menos segundo as empresas, é “criar ferramentas que possam auxiliar cineastas em etapas como organização de produção, criação de storyboards e desenvolvimento de processos criativos”.

Em comunicado reproduzido pela imprensa internacional, a A24 também enfatizou que o acordo “não prevê o licenciamento de seu catálogo nem a utilização de seus filmes para treinamento de modelos de inteligência artificial”. Scott Belsky, que já ocupou cargos de liderança na Adobe, argumentou que “a intenção é justamente permitir que artistas e criadores participem da construção das ferramentas tecnológicas do futuro, em vez de apenas reagirem a elas”. Mas a explicação não convenceu todo mundo.

A24 :: Moonlight: Sob a Luz do Luar (2016)
A24 :: Moonlight: Sob a Luz do Luar (2016)

A REAÇÃO

Poucas horas após o anúncio, as redes sociais da A24 foram tomadas por mensagens de decepção. Alguns usuários passaram a falar em “fim da A24“. Outros afirmaram que deixariam de apoiar o estúdio. Houve ainda quem prometesse “recorrer à pirataria” em futuros lançamentos da empresa. A reação pode parecer exagerada à primeira vista, mas ela revela algo importante: a A24 construiu uma relação emocional extremamente forte com seu público.

Em muitos casos, a marca era vista quase como um contraponto às grandes corporações de entretenimento e às decisões mais impessoais da indústria. Para uma parcela dos fãs, a aproximação com uma das empresas mais influentes no desenvolvimento de inteligência artificial parece contradizer justamente a imagem que o estúdio cultivou ao longo da última década. A questão, portanto, não é apenas tecnológica. É simbólica.

A A24 PRETENDE FAZER FILMES COM IA?

Até o momento, não há informação. Segundo a Reuters, a parceria está restrita “à pesquisa e ao desenvolvimento de ferramentas de apoio à produção”. Não há qualquer anúncio sobre substituição de roteiristas, diretores, montadores ou artistas por sistemas de inteligência artificial. Tampouco existe confirmação de que o estúdio utilizará seus filmes para treinamento de modelos generativos. Ainda assim, isso não significa que os receios sejam infundados.

A24 recorrerá à IA?
A24 recorrerá à IA?

O MEDO DE HOLLYWOOD É MAIOR DO QUE A A24

Vale lembrar que a inteligência artificial se tornou uma das grandes questões da indústria audiovisual nos últimos anos. Durante as históricas greves de roteiristas e atores em Hollywood, em 2023, o uso de IA foi um dos principais pontos de tensão nas negociações entre estúdios e sindicatos. O temor de muitos profissionais é que ferramentas inicialmente apresentadas como “assistentes” acabem, gradualmente, substituindo funções criativas e técnicas.

Relatórios recentes citados pela imprensa americana, como em matéria do Meta Intro, estimam que “mais de 118 mil empregos no setor audiovisual norte-americano poderão ser impactados pela adoção de sistemas de inteligência artificial nos próximos anos, o equivalente a aproximadamente um quinto da força de trabalho da indústria”. As pesquisas também indicam que parte das empresas já utiliza ferramentas de IA em processos internos e que algumas delas associam a tecnologia à redução de custos e de equipes. Nesse contexto, o anúncio da A24 acabou funcionando como um gatilho para medos que já existiam.

CASO BACKROOMS

Existe outro elemento que ajudou a alimentar a controvérsia. O maior sucesso recente da A24 é Backrooms: Um Não-Lugar (2026) – suspense que já acumula bilheteria mundial de US$ 330 milhões (sob orçamento de US$ 10 milhões) – dirigido pelo jovem cineasta Kane Parsons. Em entrevistas recentes, Parsons criticou duramente a inteligência artificial generativa, classificando-a como um “sintoma de deterioração cultural e econômica“, segundo declarações reproduzidas no The Verge. Para parte dos fãs, a ironia é evidente: um dos filmes que simboliza a força criativa da nova geração de autores da A24 é comandado por um diretor que se mostra profundamente cético em relação à própria tecnologia que agora recebe investimentos do estúdio.

A24 :: Backrooms: Um Não-Lugar (2026)
A24 :: Backrooms: Um Não-Lugar (2026)

O FUTURO

No fim das contas, a grande pergunta talvez não seja se a A24 foi ou não “cancelada”. A verdadeira questão é outra: como um estúdio que se tornou sinônimo de cinema autoral pretende navegar por uma transformação tecnológica que muitos artistas enxergam com profunda desconfiança? Por enquanto, a resposta oficial é de cautela e participação. A A24 afirma, segundo o Wired, querer “ajudar a moldar as ferramentas do futuro em vez de simplesmente aceitá-las passivamente”. Mas a reação dos últimos dias mostra que uma parte de seu público já não está discutindo apenas tecnologia – e sim identidade.

Festival Santa Cruz de Cinema

Gostou do conteúdo? Então, fique ligado no Papo de Cinema para saber tudo, e mais um pouco, sobre o que acontece no mundo do cinema, da TV, dos festivais, das premiações e muito mais! Também recomendamos que siga nossos perfis oficiais nas redes sociais, a fim de ampliar ainda mais a sua conexão com o mundo do entretenimento. Links abaixo:

PAPO NAS REDES
Tik Tok | Instagram | Facebook
Letterboxd | Threads | BlueSkyCanal WhatsApp
A todo momento tem conteúdo novo chegando e você não pode ficar de fora. Então, nos siga e ative todas as notificações!

PAPO DE CINEMA NO YOUTUBE
E que tal dar uma conferida no nosso canal? Assim, você não perde nenhuma discussão sobre novos filmes, clássicos, séries e festivais!

As duas abas seguintes alteram o conteúdo abaixo.
avatar
Fanático por cinema e futebol, é formado em Comunicação Social/Jornalismo pela Universidade Feevale. Atua como editor e crítico do Papo de Cinema. Já colaborou com rádios, TVs e revistas como colunista/comentarista de assuntos relacionados à sétima arte e integrou diversos júris em festivais de cinema. Também é membro da ACCIRS: Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul e idealizador do Podcast Papo de Cinema. CONTATO: [email protected]

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *