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Sinopse
Em Desejo em Manhattan, um empresário negro bem-sucedido enfrenta uma profunda crise pessoal enquanto tenta salvar seu casamento. Sua rotina muda ao se envolver em um intenso jogo de sedução e manipulação com uma misteriosa mulher que conhece no metrô de Nova York. Suspense.
Crítica
Há obras que parecem exigir um pacto prévio com o espectador, não bastando sentar na poltrona para acompanhar os acontecimentos. Por um lado, corajoso. Por outro, arriscado… Desejo em Manhattan, de Andre Gaines, pertence a essa categoria. Inspirado na peça “Dutchman”, de 1964, de Amiri Baraka, o longa parte de um dos textos mais importantes da dramaturgia afro-americana para discutir o racismo estrutural sob perspectiva contemporânea. Não por acaso, o filme de Dutchman (1966) aparece diversas vezes em cena, quase como lembrete permanente de que essa conversa começou muito antes dali. A questão é que Gaines parece confiar tanto na força desse material de origem que, por vezes, esquece de oferecer ao espectador ferramentas suficientes para caminhar com as próprias pernas.

Na trama, o empresário bem-sucedido Clay (André Holland) atravessa uma fase delicada. O casamento com Kaya (Zazie Beetz) vive momento de desgaste, agravado pela descoberta de uma traição que abala não apenas sua relação afetiva, mas também a própria autoestima. É nesse estado de fragilidade que surge Lula (Kate Mara), mulher branca misteriosa que o aborda durante uma viagem de metrô e inicia um jogo de sedução que rapidamente escalona para algo perigoso. Enquanto a tensão cresce, o longa estabelece constantes paralelos com o mito do Holandês Voador (embarcação condenada a vagar eternamente sem jamais encontrar porto). A metáfora é clara: Gaines pergunta se Clay também estaria preso a um ciclo do qual jamais conseguirá escapar ou se, diferentemente do protagonista imaginado por Baraka nos anos 1960, finalmente existe espaço para romper esse destino.
Esse talvez seja o aspecto mais interessante da releitura. Quando “Dutchman” nasceu, em pleno auge do movimento pelos direitos civis nos Estados Unidos, a sensação de aprisionamento fazia parte da própria experiência histórica da população negra. O personagem de Baraka ocupava um mundo que parecia lhe lembrar todos os dias que determinados espaços jamais lhe pertenceriam. Em 2025, esse cenário mudou. Homens e mulheres negros ocupam posições de liderança antes inimagináveis, ainda que continuem enfrentando formas mais silenciosas de preconceito. Desejo em Manhattan tenta justamente investigar esse novo momento, perguntando se o ciclo realmente foi rompido ou apenas mudou de aparência. Nesse percurso, Holland encontra atuação contida, feita muito mais de olhares do que de explosões dramáticas. Seu Clay transmite permanente sensação de desconforto, como alguém que jamais consegue ter certeza de que pertence ao ambiente em que está.
O problema é que a narrativa parece depender excessivamente das referências que carrega. A presença do Doutor Amiri (Stephen McKinley Henderson), evidente alter ego de Baraka, funciona quase como oráculo encarregado de explicar caminhos e oferecer respostas sempre que o protagonista se perde. Em vez de aprofundar organicamente seus conflitos, o roteiro frequentemente recorre a essas aparições como apoio externo. Outro problema está na construção da personagem de Kate. Embora Lula simbolize a elite branca que insiste em lembrar Clay de seu suposto não pertencimento, sua representação acaba escorregando para uma figura excessivamente sexualizada, quase reduzida ao arquétipo da mulher sedutora que corrompe a moral do homem. É escolha que enfraquece tanto a crítica racial quanto a própria dimensão feminina da personagem.

No frigir dos ovos, Desejo em Manhattan conta com boas ideias, imagens de tensão bem construídas e atuação consistente de seu protagonista. Porém, existe também um paradoxo difícil de ignorar. Assim como o próprio Holandês Voador, o filme parece partir em direção a um destino muito claro sem jamais conseguir alcançá-lo plenamente. Fica vagando entre a reverência à peça de Baraka, o comentário social contemporâneo e o suspense psicológico sem encontrar equilíbrio definitivo entre essas camadas. É travessia que desperta curiosidade, mas que termina deixando a impressão de que havia muito mais potência do que o final entrega.
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