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Sinopse
Yellow Cake se passa na cidade de Picuí, no sertão da Paraíba, onde um grupo de cientistas conduz um experimento secreto para conter o avanço da dengue. O projeto utiliza urânio extraído da região com a promessa de esterilizar o mosquito Aedes aegypti e erradicar a doença. No centro da iniciativa está a física nuclear Rúbia Ribeiro, envolvida em uma pesquisa que levanta dilemas. Ficção científica.
Crítica
Lançado em 2019 e rapidamente alçado ao panteão do cinema brasileiro contemporâneo, Bacurau conquistou público e crítica ao misturar faroeste, ficção científica, suspense político e cinema de resistência em história que colocava estrangeiros com aura de conquistadores – majoritariamente norte-americanos – como invasores de uma pequena comunidade do sertão nordestino. Essa oposição entre centro e periferia encontrou ali uma força simbólica rara. Yellow Cake, de Tiago Melo, parece dialogar diretamente com esse imaginário, quase como uma continuação espiritual daquele universo. Não por acaso, Kleber Mendonça Filho surge agora como produtor. Mas, se antes o conflito passava pela ocupação física de território, aqui ele ganha contornos sanitários, científicos e ambientais, tocando em feridas bastante conhecidas do Brasil recente. Só essa premissa já carrega potência suficiente para despertar interesse.

Aqui, acompanhamos Rúbia (Rejane Faria), cientista que atua na cidade de Picuí, no sertão da Paraíba. Quando um projeto internacional conduzido por pesquisadores estrangeiros para combater o mosquito Aedes aegypti começa a apresentar falhas, eventos estranhos passam a ocorrer na região. A partir daí, Melo constrói uma trama que mistura suspense, humor e elementos de filme-catástrofe. O aspecto mais interessante, porém, está no fato de a obra se inspirar na história real da mineração de urânio e de minerais raros na região de Picuí, algo que amplia enormemente o alcance simbólico da crônica. Não se trata apenas de sci-fi ou alegoria política: existe um passado concreto de exploração mineral pairando sobre aquelas imagens. Melo se distancia um pouco do realismo social mais direto de Azougue Nazaré (2018), seu trabalho anterior, apostando em uma construção mais livre, mais fantástica e até mais provocadora
Grande parte dessa força encontra sustentação em Rejane. Desde o reconhecimento conquistado em Marte Um (2022), a atriz vem demonstrando rara capacidade de transmitir firmeza sem abrir mão da vulnerabilidade. Aqui, ela encarna uma mulher constantemente colocada à prova. De um lado, estão os cientistas estrangeiros e autoridades que tentam colonizar o conhecimento sanitário brasileiro, como se a experiência local precisasse sempre da validação de agentes externos para existir. De outro, surge o saber popular, construído longe das universidades, mas profundamente conectado à vida prática. Essa sabedoria aparece em personagens como Valmir do Côco e, principalmente, Tânia Maria, figura que ganhou projeção mundial após O Agente Secreto (2025) – curiosamente ela gravou este projeto antes do longa que chegou ao Oscar 2026. É uma disputa silenciosa, feita menos de confrontos explícitos e mais de olhares, gestos e frases que revelam um Brasil constantemente obrigado a provar seu próprio valor.

Também chama atenção a forma como Yellow Cake parece se dividir em dois filmes. A primeira metade opera dentro de códigos mais acessíveis, conduzindo o espectador por narrativa relativamente convencional. Já a segunda parte abraça experimentações mais herméticas, permitindo que o enredo derive para terrenos menos previsíveis e mais sensoriais. É uma mudança que certamente exigirá maior entrega de parte do público, mas que não chega a abandonar a ideia central da obra. Como uma viagem que começa de carro e termina de barco, o percurso exige adaptação. Nem todos embarcarão da mesma maneira, mas há coerência nesse deslocamento. Ao final, fica a sensação de aposta imperfeita, por vezes irregular, mas repleta de inquietações genuínas. E talvez seja justamente nessa recusa em seguir pelo caminho mais fácil que o título encontre sua identidade mais interessante.
Filme durante o 15º Olhar de Cinema: Festival Internacional de Curitiba (2026).
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