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Sinopse

Em 1951, uma mulher afro-americana de 31 anos estava morrendo de câncer de colo de útero. Sob as luzes intensas de um centro cirúrgico, médicos extraíram células do seu tumor, que se revelaram impressionantemente imortais e mudaram a medicina para sempre. No entanto, sua identidade e a história dessa doação de células involuntária ficaram desconhecidas por muito tempo.

Crítica

Pesquisas que buscam prolongar a vida existem desde os primórdios da ciência. Por mais que a existência neste planeta passe longe de ser um mar de rosas, não há quem nunca tenha pensado, mesmo que com discrição, na possibilidade de viver mais de um século. Há, inclusive, cientistas acreditando na possibilidade de nos tornar imortais por meio de robôs dotados de inteligência artificial baseada em nossas mentes. Situações que renderiam, sem dúvida, um bom roteiro de ficção-científica. No entanto, a imortalidade também pode ser levada para as telas de forma mais delicada, mais humana e menos robótica. A Vida Imortal de Henrietta Lacks é o mais recente exemplo de como é possível tornar uma história de questões éticas científicas num bom drama familiar.

Produzido pelo canal HBO e dirigido por George C. Wolfe, o filme é baseado no livro da jornalista Rebecca Skloot, que investigou durante 10 anos a história da mulher por trás das células poderosas que ajudaram na cura da poliomielite e no tratamento do câncer. Henrietta Lacks, que nos flashbacks é interpretada por Renée Elise Goldsberry, tinha 31 anos quando foi diagnosticada com um câncer no colo do útero. Durante sua autópsia, médicos descobriram que suas células se reproduziam initerruptamente e poderiam ser utilizadas no tratamento de várias doenças. A mãe de cinco filhos que cresceu no interior do estado da Virgínia tinha em seu corpo algo que revolucionou a medicina. O livro que conta sua história é focado na transformação dessas células em negócio lucrativo e na condição da família de Lacks, que sequer foi informada das pesquisas. A Vida Imortal de Henrietta Lacks, caso seguisse o ritmo do livro em que foi inspirado, seria uma trama de denúncia, com foco na ética médica. Mas Wolfe, que assina o roteiro junto com Peter Landsman e Alexander Woo, percebeu que a emoção seria o melhor caminho e encontrou no personagem Deborah, filha de Lacks, o fio condutor de seu filme.

Interpretada por Oprah Winfrey, que também é produtora executiva do longa, Deborah é uma mulher assombrada pela ausência da mãe. Com sérios problemas de saúde e incapaz de montar sozinha o quebra-cabeça da vida e da morte de sua genitora, ela encontra na figura da jornalista Rebecca (Rose Byrne) uma ponte com seu passado. Munida de documentos e lembranças incompletas, Deborah ainda precisa lidar com a insegurança. Afinal, a fama das células de sua mãe já lhe fez cair nas mãos de vários picaretas. Entre uma crise de confiança e outra, Deborah e Rebecca constroem juntas a trajetória de Henrietta, desde a juventude até a descoberta da doença. Mais que mostrar como uma dona de casa de origem humilde garantiu a cura para milhares de pessoas, o filme de Wolfe quer desvendar uma filha com algo engasgado, perturbada pela ideia de que o fato de não ter convivido com a mãe foi a causa de todos os seus dramas. Enquanto Rebecca transforma em linhas os pedaços imortais de Henrietta, Deborah vive a catarse necessária para encontrar sua liberdade.

Com um currículo que inclui exemplares dramáticos como Noites de Tormenta (2008) e Um Momento Pode Mudar Tudo (2014), Wolfe consegue boas atuações, em especial de Winfrey, despida de qualquer vaidade, o que colabora para imprimir um tom ainda mais realista a sua personagem. A Vida Imortal de Henrietta Lacks ainda conta com uma trilha sonora que foge do tradicional, trocando as melodias tristes pelo gospel e o jazz, em composições de autoria de Branford Marsalis, que combinam com as paisagens do interior americano, cenário das lembranças de Deborah. Ousar em uma adaptação de um livro para as telas, ainda mais um best-seller que ficou mais de seis semanas entre os mais vendidos, é sempre um risco. Quem foi as livrarias com o intuito de conhecer um pouco da mulher Henrietta Lacks com certeza ficou satisfeito com o trabalho de Rebecca Skloot. Já quem assistir ao filme terá menos informações, mas a empatia de Deborah é inegável e, por mais sinceras que sejam, nenhuma palavra consegue reproduzir. O que o olhar de Winfrey dá a personagem não está nos livros. Só a tela consegue captar.

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é jornalista e especialista em cinema formada pelo Centro Universitário Franciscano (UNIFRA). Com diversas publicações, participou da obra Uma história a cada filme (UFSM, vol. 4). Na academia, seu foco é o cinema oriental, com ênfase na obra do cineasta Akira Kurosawa, e o cinema independente americano, analisando as questões fílmicas e antropológicas que envolveram a parceria entre o diretor John Cassavetes e sua esposa, a atriz Gena Rowlands.
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