Crítica


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Sinopse

Abdul Karim é um jovem indiano que é funcionário na corte do Reino Unido. À medida que o tempo passa, a rainha Victoria acaba desenvolvendo uma amizade muito improvável com esse empregado tão peculiar.

Crítica

Stephen Frears e Judi Dench são velhos amigos. Diretor responsável por algumas das melhores performances da grande atriz inglesa, estão reunidos pela terceira vez em Victoria e Abdul: O Confidente da Rainha, filme baseado em fatos reais – ou quase isso, como os letreiros de abertura fazem questão de enfatizar. Obviamente, há um motivo para isso. E a verdade a respeito da improvável ligação que se desenvolveu entre a governante do Reino Unido e um pobre escrivão carcerário muçulmano é que, após a morte dela, tudo foi feito pelos seus descendentes e seguidores para que se apagassem todos os registros possíveis a respeito. Ninguém, no entanto, consegue calar a voz de um homem para consigo mesmo. E foi somente em 2010, mais de um século após esse episódio ter ocorrido, quando os diários do protagonista masculino dessa história foram descobertos, que enfim se obteve uma nova luz a respeito da rainha. Um viés que ganha agora às telas, porém adotando um olhar muito mais pitoresco sobre as consequências dessa relação do que sobre o que teria, de fato, os tornado tão próximos.

Já na casa dos 80 anos, Victoria era apenas uma sombra pálida da realeza que tão bem ilustrou em mais de 60 anos de reinado. Cansada, se perguntava, no seu íntimo, porque ainda resistia, uma vez que todos os que uma vez amara já haviam partido. Entediada com cansativas cerimônias e protocolos entediantes, havia perdido quase que por completo o ânimo de viver e liderar. Isso até se deparar com Abdul, um servo que foi enviado da Índia – na época, ainda parte do Império Britânico – para homenageá-la com a entrega de uma moeda. De modos simples e olhar curioso, ele a cativou não apenas pela devoção que não tardou em demonstrar, mas também pela maneira sem muitos volteios com que a tratava. Era alguém, portanto, com quem ela conseguia, por mais estranho que isso possa parecer, conversar de igual, sem receios ou maiores cuidados. Havia respeito entre eles, é claro, mas, mais do que isso, o que começa a crescer entre eles é uma mútua admiração e confiança.

Sentimento esse, no entanto, que chegou a ser testado mais de uma vez, seja pelas pressões que ela passou a receber por seu séquito de membros da Corte – que achavam um absurdo a presença de um ‘serviçal’ em posição de tamanha influência – ou pela ingenuidade dele no trato com a nobreza, deixando de lado informações fundamentais por, simplesmente, não as considerar importantes. De amigo, ele logo assume a posição de “mushi”, ou seja, um instrutor espiritual. Victoria podia, enfim, aprender – sobre a Índia, sobre novas culturas, comidas, religiões e línguas – e, quase que instintivamente, ia se apropriando, mais uma vez, do próprio reino que construiu. Ao mesmo tempo, readquiria ânimo para seguir vivendo. Tudo o que temiam aqueles ao seu redor, que ansiavam por uma mudança no cenário sócio-político do país.

Essa não é a primeira vez que Judi Dench interpreta uma rainha – ela, inclusive, ganhou seu Oscar por aparecer como a poderosa Elizabeth em Shakespeare Apaixonado (1998). Antes disso, no entanto, recebeu sua primeira indicação ao prêmio máximo da Academia de Hollywood ao marcar presença como a protagonista de Sua Majestade, Mrs. Brown (1997). Pois Victoria e Abdul é praticamente uma continuação deste longa, se não nos acontecimentos diretos, mas ao mostrar outros eventos da vida da mesma monarca. Stephen Frears, no entanto, parece estar sentindo o peso da idade. E hoje, com mais de 76 anos, tem demonstrado um vigor distante daquele que se percebia em títulos como os provocantes Minha Adorável Lavanderia (1985) ou Alta Fidelidade (2000), sem mais tanta vontade de instigar como fez em Ligações Perigosas (1988) ou em A Rainha (2006). Por isso, ainda que tenha em mãos um capítulo tão curioso, prefere se restringir às fofocas dos bastidores e as reações dos demais, ao invés de investigar, de fato, o que teria unido dois indivíduos tão distintos.

O que salva Victoria e Abdul da mediocridade, portanto, é o desempenho arrebatador de Judi Dench, obviamente no domínio total de uma personagem que não lhe é nem um pouco estranha. É sua força, que vem e vai com impressionante habilidade, que justifica o resultado apresentado. É fato que este filme é inferior aos trabalhos anteriores da dupla – Sra. Henderson Apresenta (2005) e Philomena (2013), tendo ambos rendido indicações ao Oscar para ela – mas é também certo que sua atuação está no mesmo nível destas entregues anteriormente. Se ela voltará ou não à disputa da cobiçada estatueta dourada, apenas o tempo dirá. Mas, mais importante aqui, seria que o exemplo dela servisse de inspiração ao cineasta. E se com isso ele voltasse aos bons tempos, todo esforço aqui demonstrado já seria de boa valia.

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é crítico de cinema, presidente da ACCIRS - Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul (gestão 2016-2018), e membro fundador da ABRACCINE - Associação Brasileira de Críticos de Cinema. Já atuou na televisão, jornal, rádio, revista e internet. Participou como autor dos livros Contos da Oficina 34 (2005) e 100 Melhores Filmes Brasileiros (2016). Criador e editor-chefe do portal Papo de Cinema.
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