Crítica


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Sinopse

Robin Cavendish se apaixona por Diana e planeja viver uma vida repleta de aventuras ao seu lado. Porém, aos 28 anos, ele recebe o diagnóstico de poliomelite e fica tetraplégico. Contrariando todas as ordens médicas e convenções sociais da época, eles decidem continuar aproveitando a vida e seguem viajando pelo mundo, ajudando outras pessoas no caminho.

Crítica

É curioso observar até onde pode ir a inquietação profissional de um artista, principalmente em Hollywood. São atores que também escrevem, cineastas que querem aparecer diante das câmeras, e, o que é cada vez mais comum, intérpretes que desejam se expressar também como realizadores. Veja, por exemplo, o caso de Andy Serkis. Reconhecido como um dos precursores do efeito proporcionado através da captura de movimento, foi apontado por muitos como um injustiçado do Oscar e das grandes premiações por suas performances digitais como Gollum (trilogia O Senhor dos Anéis) ou Caesar (trilogia Planeta dos Macacos). No entanto, alguém teve coragem de defendê-lo com o mesmo entusiasmo por suas performances au naturel, ou seja, sem ‘máscaras’, em filmes como De Repente 30 (2004) ou Vingadores: Era de Ultron (2015)? Assim, seguindo essa insatisfação de não se ater ao que sabe fazer melhor, ele agora estreia como diretor com esse Uma Razão Para Viver. Uma terceira atividade que, como se confirma na tela, ocupa a mesma posição em uma escala dos seus talentos.

Algo importante é preciso que fique claro ao espectador brasileiro: Uma Razão Para Viver é um dos títulos mais inapropriados que este filme poderia ter recebido. Além de impreciso – o protagonista, um homem vítima de poliomielite, não encontra ‘uma’ razão para seguir vivo, mas, sim, segue sua existência devido a um conjunto de fatores, tanto pessoais quanto técnicos – como é, também, mentiroso – não que seja um grande spoiler, afinal, estamos falando de uma história baseada em fatos reais e qualquer um mais curioso pode adivinhar como tudo termina sem muito esforço. Intenciona-se, ao menos no âmbito comercial, vender o longa para o mesmo público que foi às lágrimas com o agridoce Como Eu Era Antes de Você (2016), mas nem os raros defensores de A Teoria de Tudo (2014) encontrarão aqui motivos para equiparar este projeto com o anterior. Pobre Andrew Garfield: mirou em Eddie Redmayne, e nem no Sam Claflin conseguiu acertar.

Por isso, é importante prestar atenção ao batismo original: Breathe, ou, num bom português, Respire. Robin Cavendish (Garfield, comprometido, porém literalmente imobilizado, lhe restando poucas opções) é um jovem promissor, que se casa com a garota dos seus sonhos (Claire Foy, a insípida protagonista da série The Crown, 2016-2017). Porém, logo após descobrir que o casal estava à espera do primeiro filho, ele se vê doente e, rapidamente, sua condição progride para uma paralisia quase completa – os poucos movimentos que lhe restam são do pescoço para cima. A depressão, natural nestes casos, lhe abate. Mas a esposa, grávida, não desiste dele. E juntos tratam de encontrar um modo de levarem suas vidas. Principalmente quando se dão conta de que ele não precisa ficar imobilizado em sua cama, preso a um respiradouro artificial. A máquina, logo percebem, não só pode ser portátil, como também acompanhá-los em uma vida muito mais próxima do normal do que poderiam ter imaginado diante do quadro em que se encontram.

O tema é pertinente. Antes de Cavendish, pacientes na mesma condição viviam em um estado quase de mortos-vivos, confinados a hospitais que mais se assemelhavam a prisões, levando seus dias exatamente um igual ao outro, somente na espera de uma morte lenta e sofrida. Com os inventos tecnológicos motivados pelo espírito investigativo do casal, a situação do marido não só melhorou, com foi suficiente para uma sobrevida de mais de duas décadas. O reflexo, longe de se restringir ao ambiente privado, terminou por afetar – e melhorar – a vida de milhares de pessoas ao redor do mundo. É com pesar, no entanto, que percebemos o interesse de Serkis, enquanto diretor de primeira viagem, se depositar mais nos entrelaces românticos dos protagonistas e menos nesta questão vital, porém tratada quase como um assunto de segunda importância, tal é o desleixo e a rapidez como cada mudança se dá em tela.

Com um elenco combinado quase de modo matemático para agrupar nomes de destaque de alguns dos programas de maior sucesso do momento, como Game of Thrones (Diana Rigg, Dean-Charles Chapman) e Downton Abbey (Hugh Bonneville, Ed Speleers), além de virtuosismos desnecessários (qual o sentido dos irmãos gêmeos interpretados por Tom Hollander?) e uma estrela do primeiro time completamente desaproveitada (talvez esteja na hora de Garfield rever o seu agente), Andy Serkis deixa claro ter se cercado dos cuidados necessários para essa sua estreia atrás das câmeras, tendo deixado de lado apenas o mais importante: o olhar de quem, de fato, deseja contar uma história, e não apenas enfileirar uma série de fatos que, quando vistos em conjunto, se revelam menos importantes do que um ou outro em separado. Falta-lhe alma, portanto. E, claro, o fato de Jonathan Cavendish, filho biológico do casal biografado, ser o produtor do filme, só coloca em ainda maior evidência o caráter chapa branca do projeto. Para ele, todos os esforços aqui reunidos parecem ter valido à pena. Agora, se você não faz parte da família, o que resta é lamentar tantas oportunidades desperdiçadas em algo que é incapaz de se definir, seja como drama romântico, reconstituição histórica ou mesmo melodrama descartável.

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é crítico de cinema, presidente da ACCIRS - Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul (gestão 2016-2018), e membro fundador da ABRACCINE - Associação Brasileira de Críticos de Cinema. Já atuou na televisão, jornal, rádio, revista e internet. Participou como autor dos livros Contos da Oficina 34 (2005) e 100 Melhores Filmes Brasileiros (2016). Criador e editor-chefe do portal Papo de Cinema.
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