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Sinopse

Na década de 1950, Reynolds Woodcock é um renomado e confiante estilista que trabalha ao lado da irmã, Cyril, para vestir grandes nomes da realeza e da elite britânica. Sua inspiração surge através das mulheres que, constantemente, entram e saem de sua vida. Mas tudo muda quando ele conhece a forte e inteligente Alma, que vira sua musa e amante.

Crítica

Uma mescla de intimismo e enclausuramento domina do início ao fim a narrativa de Trama Fantasma, novo trabalho do cineasta norte-americano Paul Thomas Anderson. Não por acaso, são raros os planos externos no longa, e estes, quando surgem, geralmente apresentam os personagens inseridos em um espaço limitado – dentro de um automóvel, cercados pelas árvores em um bosque etc. É no interior dos restaurantes, salões de festas e, principalmente, nos cômodos da mansão/ateliê do renomado estilista Reynolds Woodcock (Daniel Day-Lewis), que os conflitos criados por Anderson se desenvolvem. Estamos na Inglaterra dos anos 50, onde Woodcock, protagonista da história, leva uma vida luxuosa, porém reclusa, assumindo o arquétipo do gênio de personalidade excêntrica, cujo cotidiano é composto de uma série de rituais particulares. Essa existência sistemática sofre uma ruptura com a entrada de Alma (Vicky Krieps), garçonete de origem humilde que o estilista acolhe como sua nova musa.

Diferentemente do procedimento da maioria de seus filmes anteriores, marcados pela exploração dos espaços através de um elaborado trabalho de câmera – como o plano-sequência que abre Boogie Nights: Prazer Sem Limites (1997), por exemplo – aqui, Anderson, que também assume a direção de fotografia, opta por um registro mais fechado, de imagens menos horizontalizadas, acentuando a proximidade com atores e objetos de cena. Isso serve ao estabelecimento de uma sensação de confinamento físico, mas também dos desejos, angústias e segredos, que permanecem escondidos como os souvenires costurados pelo protagonista nos forros de suas criações. Envolta por essa atmosfera claustrofóbica, a dinâmica concebida pelo cineasta, a princípio, parece bem clara, com o genioso Woodcock impondo sua vontade sobre a submissa Alma, que aparenta se contentar com seu papel de amante e modelo para a criação de vestidos, apenas aguardando o momento de ser descartada.

Como eixo de sustentação da ordem nessa dinâmica está Cyril (Lesley Manville, excelente), a irmã de Woodcock, responsável também pelo “trabalho sujo”, como pôr fim aos relacionamentos do irmão. Aos poucos, contudo, Alma se revela diferente das outras mulheres que passaram pela vida do estilista, gerando uma transformação que nem mesmo Cyril é capaz de impedir. Forte e determinada, a ex-garçonete não foge ao confronto com Woodcock, pelo contrário, ela o incita, mostrando-se disposta a “entregar cada pedaço de si” ao mais exigente dos homens, sem, contudo, abrir mão do desejo de ter seu esforço correspondido, buscando ainda assumir um papel maior dentro do universo de seu companheiro. É compreensível, portanto, que a trama seja apresentada por meio do relato de Alma ao médico, assumindo, num primeiro momento, um tom confessional – o olhar direto para a câmera, a luz das velas – para, ao final, se converter numa espécie de discurso de exaltação, como se vangloriando de sua conquista.

Dessa forma, Anderson estabelece um jogo de poder – quem domina quem – que acaba por subverter certos pressupostos, já que, apesar de impor sua autoridade, Woodcock parece demonstrar um maior interesse por Alma justamente quando ela assume o domínio das ações. Caso da sequência em que fica enfurecida com o comportamento de uma das clientes do estilista, exigindo que ela devolva o vestido de noiva por não ser digna de uma criação da Casa Woodcock. Ou ainda ao cuidar sozinha do protagonista quando este adoece, dispensando os serviços do médico. Anderson imprime a essa necessidade de cuidados, de atenção, um teor psicológico mais profundo ligado à figura materna. É a mãe, com quem tem sonhos constantes, que aparece como o fantasma a povoar a mente e o lar de Woodcock, exercendo sobre ele uma grande força – uma presença fantasmagórica que remete à Rebecca: A Mulher Inesquecível (1940), de Alfred Hitchcock, influência declarada de Anderson.

Com um notável refinamento – os impecáveis figurinos e direção de arte, a fotografia em 35 mm, as belíssimas peças ao piano da trilha sonora de Jonny Greenwood – Trama Fantasma surpreende ainda pela utilização, igualmente elegante, do humor. A acidez de boa parte dos diálogos provoca risos com frequência, assim como as situações criadas a partir da perturbação causada pela presença de Alma na rotina metódica de Woodcock. Uma comicidade que nunca excede o tom imposto por Anderson, de valorização dos silêncios e atenção aos detalhes, apostando na sutileza e naquilo que permanece implícito. Algo refletido também nas composições excepcionais de Day-Lewis e Krieps, dando corpo a uma relação de dependência mútua, por vezes perversa e nociva, mas embebida em sentimentos genuínos. Sentimentos díspares que, na visão de Anderson, se confundem com o amor. Ou talvez seja o amor justamente o fruto dessa confusão.

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é formado em Publicidade e Propaganda pelo Mackenzie – SP. Escreve sobre cinema no blog Olhares em Película (olharesempelicula.wordpress.com) e para o site Cult Cultura (cultcultura.com.br).
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