Crítica


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Sinopse

Itália, 1973. John Paul Getty III é o neto do magnata do petróleo J. Paul Getty. O sequestro do rapaz coloca a sua mãe, Gail Harris, em uma corrida desesperada para tentar convencer o bilionário ex-sogro a pagar o resgate, de US$ 17 milhões.

Crítica

O jovem caminha à noite pelas ruas de Roma. Há um glamour ultrapassado no ar, um inevitável espírito de decadência que deixa o ambiente ainda mais charmoso. O rapaz que transita aparentemente sem rumo em meio às mesas dos cafés e às prostitutas em busca de um cliente inesperado poderia muito bem ser Rubini, o protagonista de A Doce Vida (1960). No entanto, quem encontramos em Todo o Dinheiro do Mundo, percorrendo trajeto bastante similar, é John Paul Getty III, neto do homem mais rico do mundo. Porém, ao invés destes passos serem o início de uma jornada de excessos, prazeres e descobertas, o que ele encontrará pela frente é a solidão e o desespero do claustro, após ser jogado dentro de uma van ao responder afirmativamente a um chamado pelo seu nome. Tanto o protagonista do clássico de Fellini quanto o garoto do thriller de Ridley Scott tiveram suas vidas mudadas para sempre a partir deste ponto. As semelhanças entre eles, no entanto, terminam por aqui. E isso não é demérito nem para um, muito menos para o outro.

Uma vez sequestrado, o que se espera é por um pedido de resgate. Os milhões solicitados pelos bandidos foram recebido com pânico, pela mãe, e descaso, pelo avô. Para ela era muito, e se quem olhasse de fora chegasse a imaginar que para ele aquilo pouco representava, ledo engano. E é aqui onde reside o interesse do diretor. Estamos em 1973, e Gail não é mais casada com ‘o filho do homem’. Ela não mais faz parte da família, porém ainda carrega o nome ilustre. É, portanto, como se tivesse um refletor voltado para si mesma: estará, para sempre, no centro das atenções, mereça ou não a reverência. E não apenas ela: também seus filhos. É por isso que o menino de apenas 16 anos se tornou um alvo. E ainda que o contato dele com o avô fosse mínimo, e com o pai menor ainda, aos criminosos os meandros familiares pouco interessam. Querem o valor pago na íntegra. E estão dispostos a ir até às últimas consequências nesse ataque ao que acreditam ser a maior fortuna do mundo moderno.

Getty, o velho, no entanto, se tornou notório pela avareza e comedimento. De origem humilde, somou milhares de dólares ao investir em algo que ninguém acreditava ser capaz de render lucros: o petróleo dos povos árabes. Embrenhando-se em meio às tribos locais e negociando como uma raposa astuta, ele não só almejou o impossível, como foi além. Isso, é claro, teve um preço, e este foi o afastamento de tudo e todos: nada era mais importante, para ele, do que juntar o próximo milhão. E o próximo. E o próximo. Lembra do Tio Patinhas, da Disney? Pois bem, tem-se aqui o mais perto que um homem real já chegou do personagem das histórias em quadrinhos. Por isso, ao ficar sabendo da quantia em demanda, imediatamente recusa qualquer negociação. “Tenho 14 netos. Se pago por um, terei que pagar por todos. E assim, em dois toques, todo o meu dinheiro irá evaporar da noite para o dia”, afirmou aos jornais. O quadro está montado: um ancião montado na grana que não abre a mão por nada, uma mulher desesperada que não sabe o que fazer em nome do filho desaparecido – ela abriu mão de toda e qualquer pensão a que teria direito durante o divórcio em nome da guarda dos filhos – e uma vítima perdida no mundo.

Todo o Dinheiro do Mundo ganha pontos, é claro, por escolher as peças certas para defender cada um destes vértices. Christopher Plummer é um monstro como Getty, usando da própria idade a seu favor, e com isso construindo um personagem tão admirável quanto detestável. Ele está sempre surgindo das sombras, como que renascido das trevas, e a fotografia elaborada de Dariusz Wolski (Sweeney Todd: O Barbeiro Demoníaco da Rua Fleet, 2007) conta muito para esse belo efeito. Michelle Williams, por sua vez, parece estar sempre à beira do colapso, mas, frente a tudo que já enfrentou na vida, o que mais sabe é se controlar. “Como pode uma mãe passando por tal provação nem sequer chorar?”, a acusam. Mas toda mulher é uma leoa, e essa não tem tempo para deixar que suas fraquezas aflorem. Por fim, enquanto Charlie Plummer – apesar do sobrenome, ele não é parente de Christopher – sofre diante das privações, é em Cinquanta, o larápio que se torna mais próximo dele, onde as atenções se concentram. Violento, porém humano, ele tem tanta sede pelo dinheiro quanto qualquer outro em cena, mas também sabe reconhecer quando os limites do que estaria disposto a fazer são ultrapassados. É numa tênue linha em que transita, e somente um ator tão seguro quanto o francês Romain Duris poderia percorrê-la com tamanha desenvoltura.

E quanto à Mark Wahlberg, o primeiro nome do cartaz? Nada mais do que uma distração. E entre a disparidade salarial dos contratos de Williams e do galã – em cena como um homem de confiança de Getty, enviado para tentar solucionar o caso “pelo menor custo possível” – que chegou à casa dos milhões de diferença, mesmo tendo ela maior destaque na trama – e a substituição de Kevin Spacey, que foi literalmente apagado das cenas em que participava, após o filme já ter sido concluído, devido às denúncias de abuso e assédio sexual que sofreu no segundo semestre de 2017 – o veterano Plummer entrou em seu lugar com o domínio absoluto da situação – é uma pena reconhecer que muito provavelmente Todo o Dinheiro do Mundo será lembrado daqui há alguns anos muito mais por estas polêmicas de bastidores do que pela excelência que revela na tela grande. Ridley Scott, que orquestrou em tempo recorde as mudanças que se acreditavam necessárias para que seu filme ganhasse, enfim, um lançamento, se revelou um exímio operário. Mas não precisava. Pois seu talento é suficiente para falar por si só.

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é crítico de cinema, presidente da ACCIRS - Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul (gestão 2016-2018), e membro fundador da ABRACCINE - Associação Brasileira de Críticos de Cinema. Já atuou na televisão, jornal, rádio, revista e internet. Participou como autor dos livros Contos da Oficina 34 (2005) e 100 Melhores Filmes Brasileiros (2016). Criador e editor-chefe do portal Papo de Cinema.
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