Onde Assistir
Sinopse
Em Tatame, a judoca iraniana Leila e sua treinadora participam do Campeonato Mundial de Judô com o objetivo de conquistar a primeira medalha de ouro da história do país na competição. No entanto, durante o torneio, as duas recebem um ultimato do governo da Irã, colocando em risco não apenas a carreira da atleta, mas também sua segurança e liberdade. Drama/Esporte.
Crítica
O cineasta israelense Guy Nattiv empreendeu um movimento inteligente ao abordar um tema tão caro ao seu país, porém de potencial imensamente polêmico, em Tatame. Apesar do projeto ter partido de uma ideia sua – desenvolvida em parceria com a co-roteirista Elham Erfani – ele convidou a também atriz Zar Amir para dividir a direção ao seu lado. Isso faz sentido, e por mais de um motivo. Para começo de conversa, as protagonistas são todas mulheres, na maior parte do tempo sendo acuadas por homens. Segundo, Amir é iraniana, e o filme fala justamente disso: do conflito entre estes dois povos do Oriente Médio. Saber que, ao mesmo tempo em que a ficção se ocupa de traçar o delicado discurso de um e de outro, com suas ranhuras e incertezas, nos bastidores estes mesmos povos estão alinhados em nome de um bem comum, é não apenas gratificante, como também restaurador. Mas há de se tomar cuidado: eis aqui um longa com méritos suficientes em cena capaz de se sustentar sozinho a despeito destes acréscimos além do que a trama exibe.

E nenhum dos envolvidos poderiam ser descritos como novatos. Nattiv ganhou o Oscar pelo curta-metragem Skin (2018) – posteriormente adaptado por ele mesmo no formato mais longo em Skin: À Flor da Pele (2018) – enquanto que Amir foi agraciada com o prêmio de melhor atriz no Festival de Cannes por Holy Spider (2022). Conquistado o respeito internacional, ambos unem forças para trabalhar em um discurso aparentemente específico, mas que indo além de sua primeira camada de interpretação aponta para situações e conflitos por demais contemporâneos, amplos e de fácil alcance. A partir de um conceito pontuado – e por onde a história se ambienta em sua quase totalidade – o enredo vai abordando questões como identidade, nacionalismo, fidelidade, razão, família e pátria. Não, porém, se alinhando aos estereótipos de tais ideias, mas em suas aplicações mais densas e de repercussões na vida diária dos afetados.
Leila (Arienne Mandi, vista recentemente na segunda temporada da série O Agente Noturno, 2025) é uma atleta de primeira linha do judô, prática essa não muito comum no cinema e que aqui ganha espaço de destaque. Representante do Irã no Campeonato Mundial a ser realizado em Tbilisi, na Geórgia, tem grandes chances de conquistar a primeira medalha de ouro do país nesse tipo de competição. Ela está mais do que preparada para tanto, e conta com o apoio do marido, família, amigos e de uma nação inteira torcendo pelo seu sucesso. No entanto, assim que as chaves de disputa são anunciadas, um possível embate dela com uma atleta israelense surge no horizonte – veja bem, ainda não concreto, há apenas uma chance de que o encontro aconteça – e a situação muda de figura. Sua treinadora passa a receber mensagens e ligações constantes por parte do governo islâmico, que ordena que desistam do torneio por meio de uma farsa, simulando uma lesão. Tudo isso para que Irã e Israel não meçam forças no esporte, pois a repercussão iria além da prática em si.
Arienne abraça em si tanto a revolta e a disposição de ir contra a autoridade que a ordena a deixar de lado o seu comprometimento e dedicação em nome de uma questão política, como a certeza e a determinação de tomar cada atitude analisando consequências, alcances e os envolvidos que porventura serão atingidos por seus atos. As conversas dela com o marido, as trocas com as colegas de esporte e a busca por amparo entre as organizadoras compõem grande parte da tensão que o filme oferece sem sossego ao espectador, em um ritmo intenso e angustiante. Ainda mais impressionante, no entanto, é a performance contida, sempre prestes a entrar em ebulição, de Zar Amir. Como Maryam, a treinadora, é ela que representa a linha de frente, é quem recebe as vozes de comando, quem precisa lidar com os dois lados – o governo que ordena e a atleta que se recusa a obedecer sem protesto – e cuja postura é mantida em suspense do início ao fim da negociação. A esfinge indecifrável que ostenta passeará por momentos de repúdio por parte da audiência, transformando-se num abraço quase incontornável logo em seguida. A sintonia dessas duas elevam o conjunto a um outro patamar, afastando-o do mero ativismo ideológico.

Guy Nattiv e Zar Amir pouco mostram, curiosamente, do confronto esportivo em si, mas Tatame trata, é fato, de um embate maior e de efeitos mais profundos. O nervosismo que o resultado das quadras poderia acusar é mínimo frente ao destino destes aqui descritos quando os uniformes são deixados de lado e outras máscaras – sociais, religiosas, de poder – são postas em uso. A fotografia em preto e branco (cortesia de Todd Martin, premiado por esse trabalho no Camerimage 2024, que até então era mais conhecido por seu envolvimento em videoclipes de artistas como Radiohead e Selena Gomez) aumenta a veracidade dos fatos, aprofundando contrastes e escrutinando a oposição entre o que se dá às escuras e o que fica claro e exposto ao público. Outro movimento sábio, que faz dessa uma obra relevante tanto pelo que se encontra no quadro como – e muito – pelas reflexões que proporciona a respeito de tudo aquilo situado além do frame.
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Grade crítica
| Crítico | Nota |
|---|---|
| Robledo Milani | 7 |
| Daniela Pedroso | 9 |
| Carlos Helí de Almeida | 8 |
| Suzana Vidigal | 8 |
| MÉDIA | 8 |

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