Supergirl

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Sinopse

Em Supergirl, Kara Zor-El enfrenta uma ameaça inesperada que coloca o equilíbrio do universo em risco. Forçada a aceitar uma aliança improvável, ela embarca em uma jornada interestelar movida por vingança e justiça. Para tentar salvar o seu cachorro de estimação, Krypto, a heroína atravessa planetas, perigos e encontros excêntricos, misturando ação, emoção e humor. HQs.

Crítica

Pode parecer novidade, mas a prima do Superman não é nenhuma novata. A personagem foi apresentada ao público pela primeira vez em 1958 (!), no gibi Superman #123. Desde então foi adaptada para o audiovisual em versões live action diversas vezes, tendo sido as mais notórias o longa original, Supergirl (1984), com Helen Slater como protagonista, e a série Supergirl (2015-2021), com Melissa Benoist no papel-título. Pois bem, deixadas essas “experimentações” para trás, eis que se tem agora esse Supergirl dentro de um contexto maior, como parte do universo cinematográfico da DC proposto por James Gunn a partir do Superman (2025) estrelado por David Corenswet. Aliás, Milly Alcock já havia dado as caras em uma cena não creditada no filme anterior, e agora retorna para estrelar um projeto todo seu – o que faz bem, que seja dito. A se lamentar, no entanto, é a forma como sua presença é tratada pelo diretor Craig Gillespie e pela roteirista Ana Nogueira. A maneira como ambos encontraram de aproveitar a heroína a torna uma espécie de coadjuvante da trama que leva seu nome. E isso diz muito, tanto sobre sua influência, como pelas repercussões que a mesma deverá ter nesse contexto compartilhado.

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Gillespie se tornou um nome razoavelmente conhecido em Hollywood pelo seu segundo longa-metragem como diretor, A Garota Ideal (2007), uma comédia independente que chegou a ser indicada ao Oscar na categoria de Roteiro Original. Entre comerciais e videoclipes, minisséries e orçamentos mais substanciosos, construiu uma carreira variada. Títulos como o vampiresco A Hora do Espanto (2011) ou o cartunesco Cruella (2021) serviram, pode-se imaginar, de apresentação para comandar Supergirl, cuja história é ambientada quase que na sua totalidade no espaço. Essa decisão, porém, de deixar pouco da Terra enquanto cenário, remete a um outro projeto não dele, mas do produtor Gunn: a trilogia Guardiões da Galáxia, feita para o estúdio concorrente, a Marvel. É como se esse, então, estivesse em busca de repetir os passos já dados – e de sucesso comprovado – pelos quais explorava uma zona de conforto que agora insiste em revisitar. A sensação de déja vù será inevitável.

Kara Zor-El não foi enviada à Terra para escapar da destruição de Krypton ou para cuidar do priminho pequeno, Kal-El, como invariavelmente sua presença é explicada nas histórias em quadrinhos. Aqui, a origem dela é também explorada, porém de modo mais amplo, num esforço para dotá-la de consistência. Não que isso faça diferença. O relacionamento com o parente que, assim como ela, ganha superpoderes quando em uma galáxia afetada por um sol amarelo, se mostra distante, na melhor das hipóteses. Quando o filme começa, os dois estão longe um do outro. Ele tentando se comunicar, ela o ignorando. Está num outro planeta, lugar esse ambientado na órbita de um sol vermelho, que não lhe provoca nenhuma reação – ou seja, como se fosse uma garota normal. Ainda assim, alienígena. E vai ser lá que a aventura irá começar. Primeiro, ao cruzar com o caminho de uma adolescente que acabou de ter a família assassinada por bandoleiros espaciais e que está em busca de vingança contra esses bandidos. E, depois, quando seu cachorrinho de estimação, Krypto, é atingido por um dardo venenoso pelos mesmos vilões.

A garota desprovida de qualquer força especial decidirá irá atrás de assassinos galácticos não para ajudar uma desconhecida órfã, mas para salvar seu pet com um antídoto específico. Se no caminho a outra receber o auxílio pelo qual tanto anseia, isso será mera consequência. No trajeto das duas, ainda encontrarão um brutamontes dotado de um improvável bom coração (Lobo, vivido por Jason Momoa, num dos melhores casos de match entre figura da ficção e intérprete real que se tem notícia) e outros tipos estranhos, como um motorista de ônibus especial, saqueadoras lésbicas, tagarelas em miniatura e mais. É quase como se a inspiração fossem aqueles bares vistos com frequência na saga Star Wars, com seres estranhos por todo os lados. Enriquecedor visualmente, mas de pouco – ou nenhum – efeito prático. Mas o pior mesmo é a falta de sentido de alguns lances do roteiro – Nogueira, filha de brasileiros, estreia agora na escrita de uma trama para o cinema, e se tornou conhecida como atriz em séries como Diários de um Vampiro (2016) e Lista Negra (2017). É ela a responsável por situações remediadas que acabam por se mostrar perda de tempo. Por exemplo: por qual motivo a menina é deixada viva, e mesmo ignorada, após a morte dos pais, se depois estes mesmos mercenários voltarão para caçá-la, uma vez que estão envolvidos com o tráfico de mulheres?

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Entre um favorito dos fãs dos quadrinhos que aparece apenas para atender aos apelos dos nerds mais radicais, um inimigo sem o menor carisma, uma jovem mimada sem noção do perigo ao qual está indo atrás e um cachorro irritante – e abatido, o que felizmente o deixa quase que durante todo o filme fora de cena – sobra pouco para a própria Supergirl ganhar espaço em cena. Sem grandes alterações de personalidade entre a persona vista no início, acompanhada no durante e abandonada no adeus, suas mudanças soam quase aleatórias, e até o reencontro que promove no final termina por se firmar gratuito, sem peso emocional e tomado de modo tão inconsequente que poderá perdurar tanto por cinco minutos, como que por toda uma eternidade – quem poderá afirmar? Enfrentando os mesmos problemas de sempre – alguém ainda não cansou da kryptonita ser o único ponto fraco dos kryptonianos? – e sem aproveitar sequer o potencial da turma reunida, esse Supergirl se confirma irremediavelmente desnecessário – afinal, o que ela poderá fazer que o próprio Superman não faria mais, e melhor? Um fan service, ok. Mas até esses já foram melhores, e mais apropriados, antes.

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é crítico de cinema, presidente da ACCIRS - Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul (gestão 2016-2018), e membro fundador da ABRACCINE - Associação Brasileira de Críticos de Cinema. Já atuou na televisão, jornal, rádio, revista e internet. Participou como autor dos livros Contos da Oficina 34 (2005) e 100 Melhores Filmes Brasileiros (2016). Criador e editor-chefe do portal Papo de Cinema.

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