Super Mario Galaxy: O Filme

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Sinopse

Em Super Mario Galaxy: O Filme, após salvar o Reino dos Cogumelos, o herói dos games embarca em uma jornada pelo espaço para enfrentar uma nova ameaça que coloca diferentes mundos em risco. Ao lado de aliados, ele atravessa galáxias e desafios enquanto tenta impedir os planos do vilão. Animação/Aventura.

Crítica

Após o gigantesco sucesso do primeiro longa animado – Super Mario Bros.: O Filme (2023), que faturou mais de US$ 1,3 bilhão nas bilheterias de todo o mundo – era mais do que esperado o surgimento de uma continuação. Afinal, a franquia agora está estabelecida em Hollywood, não apenas pela qualidade de produção que hoje em dia se é possível alcançar, como também pela mudança de comportamento do usuário – ou espectador. Quando o live action Super Mario Bros. (1993) foi lançado, há mais de três décadas, o slogan de venda era “isto não é nenhum jogo”, escancarando de imediato a ambição de se propor um filme, e não uma mera reprodução do jogo. Pois bem, eis exatamente o problema daquela iniciativa: o público não queria uma nova abordagem, pois estava atrás de uma reprodução fiel daquilo que conhecia. Bem o que mais uma vez se alcança em Super Mario Galaxy: O Filme, que em certas passagens chega até a copiar gráficos e designs do game tão familiar à sua audiência. Lida-se, portanto, com uma plateia já convertida. E aos demais, a esses resta a curiosidade de se questionar como uma mistura tão surreal pode, de fato, funcionar, ao mesmo tempo em que se pergunta até que ponto investir no seguro e confortável seguirá surpreendendo.

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O bizarro do conjunto começa em sua gênese. Mario e seu irmão, Luigi, são, como seus nomes antecipam, italianos. No entanto, moram no Brooklyn, em Nova York (EUA), e a despeito dessas alegadas origens, fazem parte da criação de uma empresa japonesa, a Nintendo. Em Super Mario Galaxy, essa ambientação terráquea, por assim dizer, nem chega a ser mencionada. De imediato o espectador os encontra no planeta onde foram morar com a princesa Peach, com o cogumelo Toad e seus irmãos da mesma espécie. Ainda antes disso, dois episódios colocam as coisas em movimento. Primeiro, uma outra princesa – Rosalina, que vive cercada por estrelinhas brilhantes que a chamam de “mamãe” – é sequestrada por Bowser Jr., filho do vilão que agora se encontra sob custódia de Mário, Peach e Luigi. Em paralelo, os encanadores são chamados para uma missão de socorro em um vilarejo desértico decorado por motivações mexicanas e habitado por caveiras coloridas. Lá, descobrem a causa do problema enfrentado pelos locais: um pequeno dinossauro trapalhão que se apresenta como Yoshi.

Bom, somente por essa rápida sinopse duas reações se tornam distintas: os inteirados desse universo rapidamente ficarão com os olhos brilhantes frente ao acréscimo de personagens velhos conhecidos que ainda não haviam aparecido nessa transposição audiovisual. Porém, esperar que eles tenham grande relevância no enredo, por outro lado, já seria um pouco demais. A todos os demais, que apenas agora desse contexto estarão se aproximando, a sensação de portas fechadas será equivalente ao sentimento de exclusão por não entender metade do que se discute – e nem haver intenção dos realizadores em incluir novas audiências. Macacos ladrões, raposas astronautas, sapos que falam por meio de bolhas de sabão, fantasmas enganadores, quadrados coloridos, planos mirabolantes que na maioria das vezes não dão certo, mortes trágicas que rapidamente são revertidas, irmãs há muito separadas que se reencontram com a mesma emoção de um convite para o chá da tarde e declarações apaixonadas que se contentam com um aperto de mãos ou um abraço um pouco mais demorado fazem parte do cardápio, deixando claro o caráter ingênuo, e até mesmo pueril, da história.

Mas seria desaconselhável tomar essa impressão como definitiva. Pois o certo é que há um projeto importante em desenvolvimento, e esse algo a mais diz respeito aos milhões necessários para colocar tal engenharia em ação. Isso diz muito respeito à dinâmica assumida pela narrativa. O roteiro desenhado por Matthew Fogel (que desenvolveu também as tramas de Uma Aventura Lego 2, 2019, e de Minions 2: A Origem de Gru, 2022) e perseguido pelos diretores Aaron Horvath e Michael Jelenic – o mesmo time do longa anterior – repete a lógica dos videogames do início ao fim, propondo um novo desafio – ou missão, ou perigo – a cada instante, permitindo pouco tempo para que aquele na plateia consiga recuperar o fôlego. Por um lado, isso é interessante, pois a sensação de se ter algum tipo de controle – mesmo que esse inexista – é de fato presente. Em uma realidade em que há interessados em vídeos no youtube que apenas acompanham outros jogadores desenvolvendo suas técnicas de vitória, a lógica aqui se mostra similar. Por outro viés, o excesso é tamanho que não causará espanto entre os que não se conectarem de início a constatação de um sentimento reverso, de ansiedade, anestesia e alienação.

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Com um orçamento ainda mais inflado e a volta dos dubladores originais – Chris Pratt, Charlie Day, Anya Taylor-Joy e Jack Black – ao lado de novas aquisições no elenco – Glen Powell, Brie Larson e Donald Glover – tornam o conjunto mais atrativo e movimentado aos que dessa iniciativa se aproximarem encantados por antecipação. A animação – tanto em estética, como no clima geral dos eventos – permanece em alta, e será difícil se aborrecer com o que se passa em cena, pois mesmo soando altamente improvável tantos elementos estranhos uns aos outros reunidos, há uma coerência um tanto alucinada que não só é mantida, mas termina por funcionar. Ainda assim, serão raros os que conseguirem reter tais desdobramentos na memória, uma vez que não é essa a função da proposta: a ideia está mais na repetição, e não na consolidação. Super Mario Galaxy: O Filme inova pouco para garantir o que já fora conquistado – o que está longe de não ser relevante. E se além disso houver acréscimos, bom, tudo será lucro. Menos para os que aqui buscarem cinema, pois o que se recebe está mais para uma experiência lisérgica do que qualquer outra coisa.

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é crítico de cinema, presidente da ACCIRS - Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul (gestão 2016-2018), e membro fundador da ABRACCINE - Associação Brasileira de Críticos de Cinema. Já atuou na televisão, jornal, rádio, revista e internet. Participou como autor dos livros Contos da Oficina 34 (2005) e 100 Melhores Filmes Brasileiros (2016). Criador e editor-chefe do portal Papo de Cinema.

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