Crítica


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Sinopse

Em princípio hesitante, a doutora Elise Rainier aceita o desafio de encarar uma série de aparições assombrosas no Novo México, mesmo sabendo que os fantasmas a serem enfrentados moram justamente na casa em que ela passou a infância.

Crítica

Sobrenatural: A Última Chave é o quarto capítulo da franquia iniciada com Sobrenatural (2010), mas se situa, em boa parte da trama, cronologicamente antes dos eventos vistos no primeiro filme. A figura central desta vez é a parapsicóloga Elise (Lin Shaye). Seu passado é visto no ótimo prólogo, em que retrocedemos no tempo, até os anos 50, nos quais ela morava com o pai, a mãe e o irmão numa casa vizinha ao presídio local. Esse cenário é um convite a acontecimentos estranhos, já que até mesmo a energia elétrica das cercanias é afetada quando acionada a cadeira elétrica. Misturar crianças comentando mortes prosaicamente, desenhando almas penadas invisíveis aos olhos dos incautos, e, ainda por cima, construir um bom background social, com as alusões à cruzada estadunidense anticomunista, garante um ótimo começo, com personalidade suficiente para dar-nos esperança de um resultado para além da vontade de capitalizar sobre uma marca de sucesso.

O despertar de Elise funciona como elipse, pois faz a trama avançar até o ano de 2010. Na ocasião, ela recebe o telefonema desesperado do homem que mora na sua casa de infância. Ele está sendo acossado por entidades malignas. A médium se enche de coragem para, literalmente, enfrentar os demônios de sua infância. Claro, os colegas Tucker (Angus Sampson) e Specs (Leigh Whannell) lhe dão suporte moral e tecnológico, inclusive ganhando mais espaço para momentos em que se encarregam de aliviar a tensão com tiradas longe da seriedade. Sobrenatural: A Última Chave tenta, em meio a deflagração gradativa dos perigos que habitam a velha residência da protagonista, trabalhar forte a esfera familiar, investindo em problemas domésticos, acessando os traumas oriundos de uma criação severa, com a dicotomia, instaurada na maneira como os pais enfrentam os dons de Elise, sendo determinante à formação de sua personalidade. Mas nem sempre os dados terrenos conseguem adensar o todo.

No que concerne especificamente à forma como o cineasta Adam Robitel conduz o horror, intrínseco à natureza dos inimigos enfrentados por Elise, Sobrenatural: A Última Chave oferece um cardápio com gosto de comida requentada. Sustos são inexoravelmente a base da sensação terrífica transmitida. Porém, habilmente o cineasta frustra, vez ou outra, as nossas expectativas ao mirar sua câmera à escuridão sem necessariamente oferecer uma aparição monstruosa precisamente no instante em que esperamos. Todavia, diferentemente de Sobrenatural, em que as surpresas estavam subordinadas à criação de um clima que as amplificava sensivelmente, aqui, em diversos instantes, o medo constante cede lugar à apreensão momentânea, o que acaba tornando os efeitos um tanto ligeiros. Ainda assim, o principal espírito, ou seja, o grande vilão do filme, figura horripilante com chaves nas pontas dos dedos, é uma entidade que faz frente às habilidades mediúnicas de Elise e companhia.

Há um curioso trânsito entre gêneros em Sobrenatural: A Última Chave. Algumas reviravoltas provocam o deslocamento ocasional do horror ao suspense, simplesmente por exporem ameaças palpáveis, os monstros metafóricos que se coadunam com os fantasmas. Mas, a despeito dessa engenhosa transição, o roteiro do longa-metragem aponta banalmente à necessidade de exterminar o antagonista sobrenatural mais poderoso para acabar com uma senda de crimes hediondos. A entrada em cena do irmão de Elise e das filhas dele acrescenta pouco, a não ser a possibilidade de repetir, sem variações, um expediente caro à cinessérie, exatamente a disposição heroica de alguém, em estado de hipnose, para resgatar uma pessoa querida no Além. Lin Shaye segura bem as pontas como protagonista, oferecendo um desempenho convincente no que tange à demonstração da tenacidade que suplanta as cicatrizes de um outrora traumático, alimentado pela sanha destrutiva das almas malévolas e impiedosas.

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é crítico de cinema, membro da ACCRJ (Associação de Críticos de Cinema do Rio de Janeiro) e da ABRACCINE (Associação Brasileira de Críticos de Cinema,). É, também, professor da Escola de Cinema Darcy Ribeiro/RJ.
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Grade crítica

CríticoNota
Marcelo Müller
6
Matheus Bonez
6
MÉDIA
6

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