Sinta a Minha Voz

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Sinopse

Em Sinta a Minha Voz, uma adolescente cresce como a única ouvinte de uma família surda e assume o papel de mediadora na comunicação com o mundo. Ao descobrir sua paixão pelo canto, ela passa a buscar autonomia e confiança para seguir seu próprio caminho. Drama/Comédia.

Crítica

Remakes sempre carregam pergunta inevitável: por que refazer um filme? E, nesse caso, por que revisitar uma história ainda tão recente? No Ritmo do Coração (2021) mal completou alguns anos desde a consagração no Oscar de 2022 e já ganha nova adaptação. Vale lembrar, porém, que o próprio longa hollywoodiano também era releitura do francês A Família Bélier (2014). Agora, chega a vez da Itália com Sinta a Minha Voz, dirigido por Luca Ribuoli. E claro: as comparações são inevitáveis. O próprio filme parece saber disso a cada cena que ecoa decisões já conhecidas pelo público. Resta, então, a dúvida: o que existe de novo aqui além da mudança de idioma, paisagem e sotaque? Talvez só versões menos interessantes de personagens que já funcionavam antes.

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Na trama, acompanhamos Eletta (Sarah Toscano), adolescente ouvinte criada em família surda no interior da Itália. Filha de Caterina (Carola Insolera) e Alessandro Musso (Emilio Insolera), ela divide a rotina entre servir como intérprete para os pais e perseguir o sonho de cantar, incentivada pela professora Giuliana (Serena Rossi). Quando se aproxima de Marco (Alessandro Parigi) e cogita estudar música longe de casa, passa a enfrentar o conflito entre sonhos pessoais e responsabilidade familiar. O problema é que o roteiro trabalha tudo de maneira tão antecipada, tão mastigada, que quase nunca há sensação de descoberta. Antes mesmo de cada cena acontecer, já sabemos exatamente qual emoção ela pretende arrancar.

E parte dessa perda de impacto nasce na família. O patriarca vivido por Emilio Insolera sofre inevitavelmente na comparação com o trabalho premiado de Troy Kotsur na versão de 2021. Aqui, Alessandro vira figura espalhafatosa, sustentada por piadas escatológicas e excesso de caricatura. Falta humanidade. Já Caterina, interpretada por Carola Insolera, perde quase toda complexidade que Marlee Matlin encontrava. Em vez de transmitir medo legítimo de perder a conexão com a filha, sua presença soa apenas controladora, repetitiva e, em alguns momentos, até egoísta. O resultado é uma dinâmica familiar menos rica e, principalmente, menos emocionante.

Mas o grande problema de Sinta a Minha Voz talvez esteja na maneira como Luca Ribuoli abandona delicadeza em troca de volume. O que fazia No Ritmo do Coração funcionar bem era justamente a sensação de intimidade e emoção que surgia aos poucos, sem precisar gritar o tempo inteiro. Aqui, quase tudo parece ampliado artificialmente. As cenas são maiores, mais barulhentas e bastante sentimentais. Soma-se a isso estética genérica, muito próxima dessas produções com cara de catálogo principal que lotam semanalmente as plataformas de streaming. E o resultado acaba parecendo mais um telefilme bem comportado do que cinema de fato.

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Sinta a Minha Voz é daqueles remakes que existem porque alguém acreditou que repetir fórmula bastava. Só que emoção não funciona como receita de bolo. Sem personalidade própria, a obra se apoia o tempo inteiro na memória afetiva deixada pelas versões anteriores – especialmente a de 2021 – sem jamais encontrar força para caminhar sozinha. E aí mora o maior problema: enquanto tenta fazer o público sentir muito, acaba transmitindo bem menos do que imagina.

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Fanático por cinema e futebol, é formado em Comunicação Social/Jornalismo pela Universidade Feevale. Atua como editor e crítico do Papo de Cinema. Já colaborou com rádios, TVs e revistas como colunista/comentarista de assuntos relacionados à sétima arte e integrou diversos júris em festivais de cinema. Também é membro da ACCIRS: Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul e idealizador do Podcast Papo de Cinema. CONTATO: [email protected]
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