Segredo Obscuro

Crítica


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1 voto 10

Onde Assistir

Sinopse

Em Segredo Obscuro, a atriz Samantha Lake está declínio na carreira. Com medo, aceita a promessa de um recomeço ao se aproximar de Zoe Shannon, a carismática CEO da empresa de bem-estar Shell. O glamour do empreendimento, porém, começa a ruir quando pacientes passam a desaparecer - entre eles, a estrela Chloe Benson. À medida que as peças não se encaixam, Samantha mergulha em um universo de conspirações e segredos inquietantes. Comédia/Horror.

Crítica

Há tanta coisa estranha em Segredo Obscuro, segundo longa como diretor de Max Minghella, que aquilo que era ruim, justamente pela profusão e excesso, acaba adquirindo outra conotação, resultando em algo se não bom, ao menos divertido. Eis aqui um filme que peca pelo exagero, mas não de forma descuidada. Muito pelo contrário. Essa é a intenção do projeto. Abusar do caricato e do inadequado e, com isso, gerar um desconforto previsto no espectador. Se esse não aceita os riscos que o realizador de forma consciente assume, bom, o problema está nos dois lados – no condutor, que não soube preparar terreno para sua experiência, como também na audiência, que foi pega desprevenida e não se demonstrou hábil suficiente para se adaptar ao que estava por vir. O curioso é que a temática pela qual a trama se desenvolve está longe de ser inovadora, ou mesmo particularmente original. É mais uma reciclagem, uma colcha de retalhos do muito que já fora visto neste mesmo terreno. Isto posto, a busca está em se posicionar a respeito de tudo aquilo que foge do esperado, pelo que se demonstra fora de um ambiente seguro, brincando com expectativas e satisfações. Nem sempre acerta em cada tiro dado. Mas não deixa de tentar.

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Assim como havia feito em Espírito Jovem (2018), sua estreia como realizador, Minghella – até então conhecido menos por ser um ator de pouca expressão e mais como nepobaby, afinal é filho do falecido e oscarizado cineasta Anthony Minghella (O Paciente Inglês, 1996) – investe em uma inusitada combinação de gêneros. Segredo Obscuro começa como um drama social, incorre em alguns momentos na comédia um tanto involuntária, logo parece se assumir como um suspense genérico e, quando mais ninguém esperava, faz uma curva radical rumo à ficção científica – e é por aqui que parece resguardar a maior parte da sua energia. Se a proposta inicialmente parece seguir os passos do recente A Substância (2024) com sua crítica ao culto das celebridades e a necessidade de se manter – ou ao menos aparentar – uma eterna juventude, em seu desfecho a impressão que se tem é de se estar diante de uma releitura de A Mosca (1986), sem esquecer que nenhuma dessas referências está, de fato, muito distante uma da outra. No final das contas, se a ideia foi oferecer uma releitura de A Morte Lhe Cai Bem (1992), faltou investimento e despudor, mas ao menos há um desprendimento interessante em sua abordagem.

Kate Hudson, assim como a mãe – Goldie Hawn – abraçou no divertido deboche assinado por Robert Zemeckis, alcançou a beleza vitalícia como Zoe Shannon, uma empresária do ramo estético que se tornou milionária vendendo o acesso a uma fórmula secreta por ela controlada. Com muito filtro e movimentos calculados, se apresenta como uma mulher de quase setenta anos, ainda que sua aparência e jovialidade dê a impressão de algumas décadas a menos. Pois é justamente esse o resultado desejado por Samantha Lake (Elisabeth Moss, que trabalhou ao lado de Minghella em O Conto de Aia, 2017-2025), uma atriz que teve a sorte de, na adolescência, estrelar uma série bastante popular, mas que nunca mais alcançou o mesmo sucesso. Ela não credita seus fracassos seguintes a uma falta de preparo, a não ter os contatos certos para cada ocasião ou mesmo a uma eventual onda de azar: toda a culpa está em sua forma física, alguns quilos acima do desejado e com rugas começando a se acumular em seu rosto. Portanto, bastaria reverter essa situação para que tudo melhore. E é justamente por isso que decide ir atrás do milagre prometido por Zoe.

Logo que chega na clínica que deverá mudar sua vida, uma insegura Samantha assiste a um vídeo institucional no qual o doutor Brand (Peter MacNicol, de A Escolha de Sofia, 1982) explica que certos crustáceos simplesmente não envelhecem, e que seria esse mistério, desvendado por seus pesquisadores, que se esconderia por detrás dos procedimentos aplicados pela empresa. Porém, nesse ponto se faz necessário voltar alguns instantes, e recordar da sequência de abertura do filme, na qual uma loura platinada (Elizabeth Berkley, a eterna protagonista do malfadado Showgirls, 1995 – e tenha certeza de que sua escolha para essa participação não foi ao acaso) se vê em pânico em meio a um processo de automutilação para arrancar placas resistentes que estão se formando sobre sua pele. Bom, não é preciso somar um mais um para imaginar o destino de quem decide seguir os conselhos vendidos a preço de ouro por uma companhia que parece ser fruto de um conto de fadas, mas tem tudo para ser, na verdade, um pesadelo digno de bruxas mortas em fogueiras públicas.

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Max Minghella e seu roteirista, Jack Stanley (Carona Aterrorizante, 2023), vão espalhando sem muito cuidado as pistas que irão compor essa fábula de terror. Segredo Obscuro se baseia na visão dos dois para colocar um grupo de mulheres enfrentando umas às outras no desespero para alcançarem algo que nem diz tanto respeito a elas, mas sim à forma como os demais às veem – sabendo que estes “outros” são, em sua maioria, membros do sexo masculino. Assim, é de se lamentar o pouco interesse que demonstram em aprofundar o conflito entre as protagonistas, reduzindo a primeira a uma vítima da sociedade, enquanto a outra até se diverte mais, mas ao fim é quase descartada em meio à velha desculpa de que “fez o que era preciso para vencer nesse mundo dominado pelos homens”. A monstruosidade da situação até chega a ser encarada de forma literal, e há de se aplaudir a coragem de se apelar para o kitsch ao investir num conjunto que abusa da cafonice e parece não se importar com as reações dos mais sensíveis. Mas faltou estrutura para levar isso adiante. Enfim, os elementos até estavam presentes, mas careciam de um ajuste mais ousado para apostar no absurdo como chave de reflexão e, por que não, de entretenimento.

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é crítico de cinema, presidente da ACCIRS - Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul (gestão 2016-2018), e membro fundador da ABRACCINE - Associação Brasileira de Críticos de Cinema. Já atuou na televisão, jornal, rádio, revista e internet. Participou como autor dos livros Contos da Oficina 34 (2005) e 100 Melhores Filmes Brasileiros (2016). Criador e editor-chefe do portal Papo de Cinema.

Grade crítica

CríticoNota
Robledo Milani
5
Alysson Oliveira
2
MÉDIA
3.5

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