Crítica

O bom desempenho que as comédias nacionais tem alcançado nos últimos tempos é tanto que além de sequências oportunistas, outro fenômeno está se estabelecendo: a criação de subgêneros, ou seja, produções com similaridade temática, estrutural e narrativa, que surgem apenas para pegar carona no sucesso dos outros. Pois é exatamente isso que acontece com S.O.S. Mulheres ao Mar, que nada mais é do que uma releitura – inferior – do recente Meu Passado Me Condena (2013). Porém, se a produção que no ano passado levou mais de 3 milhões de brasileiros aos cinemas ao menos contava com um talento genuíno como Fábio Porchat como protagonista, este novo longa repete o erro de apostar em Giovanna Antonelli e Reynaldo Gianecchini como par romântico – alguém lembra do constrangedor Avassaladoras (2002)?

Aliás, Gianecchini tem se revelado um apurado indicador sobre a qualidade de um filme: se o ator está no elenco, é aposta certa de que o resultado será, no mínimo, descartável. Longas como Se Puder... Dirija! (2013) e Entre Lençóis (2008) são boas provas disso. Pois o mesmo acontece em S.O.S.: Mulheres ao Mar, em que ele, apesar de aparecer durante quase todo o desenrolar da trama, deve ter recebido antes do início das filmagens umas duas páginas com todos os seus diálogos. Na maior parte do tempo tudo que lhe é exigido é apenas aparecer e sorrir, sendo nada mais do que... Reynaldo Gianecchini! Constrangedor é apenas a primeira impressão, pois logo tudo fica pior.

Cris D’Amato, diretora do interessante – porém problemático – Sem Controle (2007) e co-diretora do recente Confissões de Adolescente (2013), faz de S.O.S. Mulheres ao Mar uma comédia de uma piada única: colocou-se três mulheres a bordo de um cruzeiro transatlântico e espera-se que, através das diferenças entre elas, surja naturalmente o riso – o que, não é preciso ser nenhum gênio para prever, nunca acontece. Giovanna Antonelli – que é uma boa atriz, mas num registro mais denso e com uma orientação específica, sem timing algum para o improviso – é a vítima que foi abandonada pelo marido e quer reconquistá-lo durante a viagem de lua-de-mel dele com a nova esposa. Thalita Carauta é a empregada – estereótipo reforçado pelo personagem da atriz no global Zorra Total – que entra por acaso no navio e passa o resto do tempo se exclamando, admirada com o que encontra. E Fabiula Nascimento – indiscutivelmente a melhor das três e a mais subaproveitada – é a atirada, a que busca sexo sem compromisso, e que ali está apenas para acompanhar as amigas. Não há um motivo sério que as una, e nenhuma delas é mais do que um clichê superficial de fácil reconhecimento – e pouca identificação.

Se o texto é raso – cortesia de Marcelo Saback, o mesmo de De Pernas pro Ar (2010) e Divã (2009), ou seja, outro sinal de alerta – os diálogos são ainda piores. Cada situação vivida por essas mulheres são bastante previsíveis, e nada em si parece justificar os esforços envolvidos. Marcello Airoldi, o ex-marido, está longe de ser um galã. Antonelli, no papel da dona de casa abandonada, é um erro de casting do início ao fim. Gianecchini é esforçado, porém nada está ao seu favor. E a mão pesada da diretora, que parece não saber ao certo para onde ir, só complica ainda mais o cenário. Dizer que S.O.S. Mulheres ao Mar é um filme indicado para o público feminino é subestimar a inteligência das espectadoras. O mais aconselhável é ignorá-lo sumariamente – e, no caso de cair nessa armadilha, tratar de esquecê-la com urgência.

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é crítico de cinema, presidente da ACCIRS - Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul (gestão 2016-2018), e membro fundador da ABRACCINE - Associação Brasileira de Críticos de Cinema. Já atuou na televisão, jornal, rádio, revista e internet. Participou como autor dos livros Contos da Oficina 34 (2005) e 100 Melhores Filmes Brasileiros (2016). Criador e editor-chefe do portal Papo de Cinema.
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