Crítica


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Sinopse

A atriz Ginny, casada com Humpty, acaba se apaixonando pelo salva-vidas Mickey. Mas quando sua enteada, Carolina, também cai de amores pelo rei da praia, as duas começam uma forte concorrência.

Crítica

A Coney Island de Woody Allen é um espaço de nostalgia por excelência, no qual o cineasta norte-americano, além de ambientar seu novo enredo recheado de desventuras amorosas, expectativas e impossibilidades, obviamente projeta um pouco da própria infância. Tal clima singular é obtido pela conjugação da cenografia especialíssima com a brilhante fotografia do italiano Vittorio Storaro, uma verdadeira lenda, vencedor de três Oscar. Roda Gigante é visualmente muito bonito, ademais, pela elegância da câmera do artista nova-iorquino, em deslocamento nesse engenhoso limiar entre realidade e sonho. A garçonete Ginny (Kate Winslet) é acometida repetidamente por fortes dores de cabeça. Ela vive com o marido, Humpty (Jim Belushi), e o filho do primeiro casamento, Richie (Jack Gore), ao lado do parque de diversões, com vista para o brinquedo que dá nome ao filme. De pronto, a insólita localização remete a Noivo Neurótico, Noiva Nervosa (1977), no qual mora-se perto da montanha russa.

Guardadas as devidas proporções, Ginny alude a outra figura icônica da obra de Woody Allen. Assim como a protagonista de A Rosa Púrpura do Cairo (1985), interpretada por Mia Farrow, a personagem de Winslet busca refúgio da dura realidade nas instâncias da ficção, neste caso com o bônus de ter sido atriz no passado. Mas não é apenas essa característica que as aproxima. Além das duas terem a mesma profissão, os maridos de ambas são sujeitos abertamente propensos à brutalidade. No entanto, Humpty transborda afetuosidade a partir de determinado instante, ainda que se faça referência à sua ocasional violência doméstica. A chegada da filha, Carolina (Juno Temple), amolece o coração desse homem que ganha o sustento cuidando do carrossel. Da irritação inicial, afinal de contas não houve, outrora, aprovação do casamento da menina com um gângster, aliás, de quem ela agora se esconde, ele começa a demonstrar um carinho evidente, direcionando energias para fazer-lhe o bem.

Roda Gigante possui diversos outros pontos de contato com filmes anteriores de Woody Allen. O gangsterismo é um deles. E que bela piscadela aos fãs a escalação de Steve Schirripa e Tony Sirico, atores conhecidos do grande público por interpretar mafiosos na série de televisão Família Soprano (1999-2007). A infidelidade seguida de culpa é, também, um elemento revisitado. Ginny tem um caso extraconjugal com o salva-vidas Mickey (Justin Timberlake), aspirante a dramaturgo, que serve como narrador da história. Aliás, a vontade de alguém simples tornar-se relevante por conta da arte, consciente ou inconscientemente, é, igualmente, uma constante retrabalhada nessa trama centrada nas inquietudes de Ginny. Ela é uma mulher com dificuldades para explorar o presente, que frequentemente busca no ontem os resquícios de uma suposta glória perdida. Sua única centelha de vivacidade é o relacionamento proibido com o homem mais jovem que lhe alimenta, de novo, afetiva e intelectualmente. De preocupações, já lhes bastam as oriundas do filho piromaníaco.

Woody Allen demonstra uma profunda simpatia por todas as pessoas em cena, tirando de seus ombros o peso excessivo da estrita responsabilidade. O acaso, ou destino, como queiram, desempenha papel fundamental para os desdobramentos do envolvimento mantido em segredo, este logo atravessado pela presença solar da menina ameaçada por más escolhas do passado. Cada personagem tem um espaço privilegiado para mostrar-se além de estereótipos, deixando evidentes falhas e virtudes, méritos de um roteiro aparentemente simples, mas que oferece oportunidades para todos cintilarem. Por falar em brilho, a luz da qual Storaro lança mão torna belamente irreais certos momentos-chave, como as conversas reveladoras ou o que as valha, promovendo uma expressiva interseção entre a violência, que inevitavelmente atravessa a existência, e os ocasionais emplastros, neste caso, a beleza, que tornam a vida um pouco menos pesarosa, atributos que mitigam a miséria do existir. Ou seja, Woody Allen puro.

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é crítico de cinema, membro da ACCRJ (Associação de Críticos de Cinema do Rio de Janeiro) e da ABRACCINE (Associação Brasileira de Críticos de Cinema,). É, também, professor da Escola de Cinema Darcy Ribeiro/RJ.
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