Crítica

Suposto encerramento da mais bem-sucedida franquia cinematográfica adaptada de um videogame, Resident Evil 6: O Capítulo Final é um passo atrás no que o diretor Paul W. S. Anderson vinha construindo desde Resident Evil 4: Recomeço (2010). Tanto esse último quanto Resident Evil 5: Retribuição (2012) são filmes de imenso esmero visual, em que Anderson desacelera a ação para exibir um cuidado com a mise-en-scène, pensando cada enquadramento, cada distância e cada corte dentro da linguagem do 3D, então em ascensão após o êxito de Avatar (2009) e usado primorosamente pelo diretor. Há, nesses filmes, um encantamento quase puro com o que há de mais básico no cinema, a imagem em movimento, talvez possibilitado por serem obras de reconfiguração da franquia: uma vez que o mundo conhecido não existe mais como tal para aqueles personagens, Anderson se desprende totalmente do real, mergulhando na artificialidade da imagem e na plasticidade decorrente dela. Em tempos de um cinema de ação que se esforça, inclusive visualmente, para alcançar uma impressão de realismo – trilogia O Cavaleiro das Trevas, de Christopher Nolan, franquia Bourne e os filmes de James Bond protagonizados por Daniel Craig (2006-2015) –, a presença incômoda desses dois capítulos de Resident Evil é bastante bem-vinda.

Daí a decepção por Resident Evil 6: O Capítulo Final ser exatamente o oposto esteticamente de seus predecessores. Anderson, dessa vez, aposta numa montagem excessivamente picotada, em que cada plano dura quase nada na tela, tornando difícil a tarefa de entender a movimentação dos personagens dentro do quadro. Soa como capitulação a um cinema de ação hegemônico, o que, vindo de alguém que nadava contra a corrente obtendo resultados primorosos (para citar um caso emblemático, a sequência inicial de Recomeço, no Japão, quase toda em câmera lenta, é uma verdadeira obra-prima), é bem frustrante.

Mas essa frustração não vem só da comparação desse sexto filme com os dois anteriores. Dentro do próprio Capítulo Final é possível encontrar o contumaz cuidado visual de Anderson, tanto na construção do cenário pós-apocalíptico – próximo do de Resident Evil 3: A Extinção (2007), cuja retomada agora, ao lado da opção por fazer da primeira metade da narrativa um road movie de ação ininterrupta e da introdução de uma mal explorada seita em torno do vilão Dr. Isaacs (Iain Glen), talvez tenha a ver com o impacto recente de Mad Max: Estrada da Fúria (2015) – quanto na criação de certas imagens muito fortes, que mereciam durar mais tempo na tela: a horda de zumbis perseguindo os automóveis conduzidos por Dr. Isaacs e a cachoeira de fogo, por exemplo.

Mas há também acertos em Resident Evil 6. Novamente referenciando a franquia Alien – se o primeiro Resident Evil (2002), na situação em que coloca seus personagens, e o quinto, no foco dado ao instinto materno de Alice (Milla Jovovich), miram em Aliens: O Resgate (1986), o sexto recupera o tema do sacrifício da heroína presente em Alien³ (1992) –, Anderson consegue ser bastante eficiente no que se propõe a fazer: um filme de ação grandioso e envolvente que conclui (?) com dignidade a história que começou a contar há 15 anos. Por conclusão digna, entenda-se uma narrativa com traições e viradas rocambolescas, que não se priva, por exemplo, de ignorar um elemento chave de um dos capítulos anteriores – Resident Evil 2: Apocalipse (2004), o único ruim da franquia – para criar uma origem mais interessante para sua protagonista. Pequeno e saboroso flash da liberdade exercida por Anderson sobretudo em Recomeço e Retribuição, que, aqui, no todo, infelizmente perde espaço para um excesso de fidelidade ao senso comum estético do cinema de ação contemporâneo.

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é um historiador que fez do cinema seu maior prazer, estudando temas ligados à Sétima Arte na graduação, no mestrado e no doutorado. Brinca de escrever sobre filmes na internet desde 2003, mantendo seu atual blog, o Crônicas Cinéfilas, desde 2008. Reza, todos os dias, para seus dois deuses: Billy Wilder e Alfred Hitchcock.
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