Crítica

Resident Evil chega ao seu quarto episódio com um impressionante fôlego para mais alguns rounds. A cinessérie baseada nos games da Capcom pode não ser um primor cinematográfico, mas parece dar aos fãs o que eles querem: muito sangue, mortos-vivos cambaleantes e as acrobacias da curvilínea Milla JovovichResident Evil 4: Recomeço economiza nos zumbis, o que pode deixar alguns apreciadores menos contentes, mas consegue consertar alguns exageros dos capítulos anteriores.

Paul W.S. Anderson retorna à cadeira de diretor depois de ter ocupado a vaga no primeiro filme. Mas isso não significa que o cineasta esteve longe do seu mais bem sucedido projeto. Anderson assinou o roteiro de todos os episódios, assim como a produção. Neste quarto capítulo, o diretor parece finalmente compreender que para a protagonista Alice voltar a ser uma heroína interessante, teria de lhe devolver sua humanidade. Quem assistiu às três produções da série sabe que a personagem se transformou de uma agente-dupla desmemoriada para uma força mutante psíquica sem precedentes. Se já não bastasse isso, Resident Evil 3: Extinção (2007) deixava um gancho terrivelmente complicado, com um sem número de clones tão inatingíveis quanto a própria Alice.

Anderson não demora para retificar esses erros. Para os entusiastas da sobrehumana Alice, o diretor deixou alguns malabarismos para o início do filme, mas logo devolve à sua heroína uma louvável humanidade – que a deixa, ao menos em tese, mais vulnerável a ameaças de zumbis e afins.

O resumo do filme é o seguinte: Alice (Jovovich) continua em sua trajetória de vingança contra a Umbrella. Depois de destruir, com a ajuda de seus clones, uma instalação da organização do mal no Japão, a heroína é atacada pelo vilão Albert Wesker (Shawn Roberts, de O Fim da Escuridão, 2010) que retira o T-Virus do sistema sanguíneo de Alice, a destituindo assim de seus poderes sobrenaturais. Após conseguir escapar deste encontro mortal (seus clones não tem igual sorte), Alice resolve procurar seus amigos no Alaska, lugar onde se acreditava não existir infecções. Chegando ao local, ela reencontra uma desmemoriada Claire (Ali Larter, do seriado Heroes) e nenhum sinal de civilização. Viajando até a Califórnia, as duas encontram sobreviventes em um prédio cercado por mortos-vivos e decidem ajudá-los a escapar.

Como se pode imaginar, o resto não é diferente dos demais filmes da cinessérie. Alguns personagens viram zumbis, outros sobrevivem, os cachorros estão de volta (um tanto diferentes), muitos tiros são disparados e Alice, mesmo sem os superpoderes, continua sendo um fenômeno em seus reflexos rápidos. Já foi dito anteriormente e deve ser repetido: Resident Evil 4: Recomeço é feito para os apreciadores da cinessérie – que, por sua vez, devem curtir o vídeo game. A direção de arte do filme, aliás, parece ser tirada direto de um Playstation e a fotografia não foge muito também deste conceito gamer. Cada nova cena é como uma nova fase do jogo.

Assistindo a todos os filmes, é interessante notar que a cada novo capítulo, Paul W.S. Anderson e os demais produtores parecem querer fugir mais e mais do terror e da figura dos mortos-vivos. O primeiro longa-metragem, de 2002, era, sim, basicamente uma história de zumbis. Já o segundo, de 2004, apresentava outros conceitos de monstro, como o transformado Nemesis. Em 2007, a terceira produção da série era assumidamente uma história de ação, ambientada em paisagens desérticas – um Mad Max morto-vivo, se preferirem – colocando os cientistas e chefões da Umbrella como os reais vilões. Neste quarto episódio, os zumbis são, finalmente, meros coadjuvantes. Demoram a aparecer e são totalmente colocados de lado em relação ao arquiinimigo de Alice, o metido-a-agente-Smith Albert Wesker.

Por falar em Matrix, é incrível como depois de tantos anos da primeira produção de Neo e companhia ainda existam filmes que copiam descaradamente a movimentação e o bullet time do trabalho dos irmãos Wachowski. A cena final, envolvendo uma grande luta entre os sobreviventes e Albert Wesker, é chupada completamente de Matrix.


Com um gancho agressivo para um novo capítulo e a aparição surpresa de uma personagem do passado pouco depois do início dos créditos finais, Resident Evil é uma cinessérie que não tem data de expiração. Principalmente agora, com o advento do 3D, com as bilheterias mais polpudas, é bem provável que Alice e seus amigos ainda chutarão muitos outros traseiros de mortos-vivos em produções futuras. Isso, é claro, se os roteiristas não abandonarem de vez os zumbis. Com o descaso dado aos comedores de miolos nesta última produção, não me espantaria.

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é crítico de cinema, membro da ACCIRS - Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul. Jornalista, produz e apresenta o programa de cinema Moviola, transmitido pela Rádio Unisinos FM 103.3. É também editor do blog Paradoxo.
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