Crítica


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Sinopse

Uma verdadeira guerra de território começa com o pássaro hiperativo quando o advogado Lance Walters e sua namorada chegam no terreno da família em meio à floresta com o desejo de destruírem tudo para construção de uma mansão. Mas para realizarem seus sonhos, terão que enfrentar as maluquices desta ave maluca que é também a última de sua espécie.

Crítica

É de se perguntar por que um personagem tão amado tenha levado tanto tempo para chegar às telas dos cinemas. O pássaro vermelho e azul de bico amarelo e comportamento hiperativo, criado por Walter Lantz em 1940 – ou seja, há 77 anos! – na verdade, possui uma longa relação com a tela grande, inclusive com três indicações ao Oscar (duas como Melhor Curta de Animação, por O Acrobata Maluco, 1943, e por Trechos Musicais de Chopin, 1947, e uma como Melhor Canção Original, por “The Woody Woodpecker Song”, de Apólice Cobertor, 1948), e mesmo com participações discretas em sucessos como Destino à Lua (1950) e Uma Cilada para Roger Rabbit (1988), ainda faltava uma estreia em grande estilo como protagonista. E após Pica-Pau: O Filme, a conclusão é apenas uma: seguimos esperando por este momento.

A vontade de ser desenvolver um longa-metragem exclusivo sobre o personagem não é de hoje, como se pode imaginar. Mas começou a tomar forma de modo mais concreto somente a partir de 2010, quando os diretores John Altschuler e Dave Krinsky (King of the Hill, 1997-2009) assinaram com a Universal, apenas para ver suas ideias serem recusadas em seguida. Bill Kopp (The Simpsons, 1987, e Tom & Jerry, 2005) foi anunciado em seguida, mas somente em 2016 é que o diretor Alex Zamm foi confirmado à frente do projeto. Conhecido por telefilmes como Inspetor Bugiganga 2 (2003), Perdido para Cachorro 2 (2011) e Um Herói de Brinquedo 2 (2014), basta um olhar rápido em sua filmografia prévia para perceber que originalidade não é o seu forte. E pelo que se vê em tela, toda e qualquer suspeita relativa se confirma.

A história parece a mesma de qualquer um dos desenhos animados exibidos à exaustão na televisão nos anos 1980. Família se muda para a beira de um lago, na fronteira dos Estados Unidos com o Canadá. O objetivo do homem é construir uma mansão, que irá valorizar o terreno e, após, revendê-la com o objetivo de capitalizar o investimento mobiliário. A mulher, mais sem noção ainda, segue de salto alto e só quer decorar o novo ambiente com os materiais mais caros, sem nenhuma consciência ecológica. Cabe ao menino, filho do casamento anterior dele, ficar amigo e se divertir com as diabruras do passarinho, que fará tudo ao seu alcance para frustrar os planos dos novos moradores. Ao mesmo tempo, há uma dupla de caçadores contraventores que querem colocar as mãos sobre a ave rara, assim como a guarda-florestal preocupada com a natureza, talvez a única em cena, além do garoto, com um pouco de senso ecológico.

A trama é bastante linear, e não há muito mais do que isso. Resta ao espectador tentar se divertir com as maluquices protagonizadas pelo Pica-Pau, ainda que nem mesmo a sua identidade original tenha sido preservada. Afinal, quem o acompanha há décadas pelos desenhos animados sabe que este é um personagem marcado pelo politicamente incorreto, pela ironia e até por um toque de perversidade. A figura que encontramos no filme de Alex Zamm, por outro lado, logo se descobre carente por uma família, solitária em sua condição como último de sua espécie e cujas maiores loucuras acabam sendo resultados de descuidos, e não de uma iniciativa própria. O mote do pai que somente aos poucos se reencontra com o filho, e as mudanças que vão acontecendo nas vidas dos dois e no modo que veem as coisas, é importante. Só não precisaria ser tão didático e redundante.

Aos fãs brasileiros que se perguntam sobre a participação da modelo e atriz Thaila Ayala num dos papeis principais, é bom diminuir os ânimos: ela mal aparece, saindo de cena antes da metade do filme, para não mais voltar. E se seu objetivo aqui era conseguir um passaporte para Hollywood, o tiro saiu, literalmente, pela culatra. Afinal, Pica-Pau: O Filme se revelou um fracasso tão grande – ainda que as técnicas sejam similares, combinando animação com live action, o conjunto é muito aquém daquele visto em Garfield: O Filme (2004), por exemplo – que até mesmo seu lançamento nos cinemas foi cancelado. A exibição, ao menos até o momento, só está confirmada no Brasil – talvez pela presença de Ayala – onde acontecerá sua première mundial, e no Chile (com estreia agendada para 21 de dezembro). No resto do mundo, será direto em homevideo e nas plataformas de streaming. Triste fim para um passarinho tão carismático que vem proporcionando tantos momentos de alegria há mais de uma geração.

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é crítico de cinema, presidente da ACCIRS - Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul (gestão 2016-2018), e membro fundador da ABRACCINE - Associação Brasileira de Críticos de Cinema. Já atuou na televisão, jornal, rádio, revista e internet. Participou como autor dos livros Contos da Oficina 34 (2005) e 100 Melhores Filmes Brasileiros (2016). Criador e editor-chefe do portal Papo de Cinema.
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