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Em Pele de Rinoceronte, uma repórter de um jornal popular e uma advogada criminalista têm seus caminhos cruzados por um homicídio que chocou o Brasil na década de 1970. À medida que o caso ganha dimensão, ambas se veem envolvidas em uma investigação que expõe a violência contra as mulheres e acompanha o surgimento das primeiras discussões sobre o feminicídio no país. Drama.
Crítica
Mesmo que a pessoa não seja nenhum especialista em zoologia ou veterinária, é fácil imaginar o quão resistente deve ser a couraça que cobre uma dos maiores criaturas terrestres do planeta. A pergunta, portanto, seria: por qual razão um animal de proporções tão gigantescas, que impõe admiração e respeito já num primeiro olhar, precisaria de proteção tão efetiva para garantir sua sobrevivência? A analogia encontra sentido no título Pele de Rinoceronte, longa de estreia como realizador do produtor e roteirista Marcello Ludwig Maia. Um dos profissionais mais reconhecidos do atual cinema brasileiro, em atividade desde a última década do século passado, premiado em festivais no Brasil (Brasília, Cine Ceará) e no exterior (Berlim, Havana), ele agora amplia sua atuação por meio de uma obra repleta das melhores intenções, mas que se verifica indecisa em definir qual norte adotar e o meio pelo qual desenvolver sua ação. E entre a denúncia e a procura, tem-se um trabalho híbrido, dono de méritos postos, mas ainda assim distante da efervescência que parece buscar em sua defesa, mas não na prática.

Para começo de conversa, tem-se três linhas narrativas frente ao espectador. Em primeiro, segue o drama da jornalista policial Helena, vivida por Debora Falabella. Cansada do mesmo noticiário corriqueiro do Rio de Janeiro no final dos anos 1970, também tem outros motivos para ansiar por uma mudança de ares: o caso que mantém com o dono do jornal onde trabalha está interferindo em sua vida pessoal, e ela anseia por um tempo pessoal afastada do amante, que tem demonstrado comportamento possessivo, controlador e até mesmo violento. A chance de fuga lhe surge com a oportunidade de cobrir o caso de uma socialite que foi assassinada pelo próprio namorado no litoral carioca. É para lá que ela vai, mesmo que não consiga efetivamente se livrar dos problemas que estavam lhe atormentando na capital.
Em paralelo, a audiência é convidada a acompanhar os debates internos da equipe de advogados que deverá resguardar a honra da falecida, acusando o companheiro dela pelo crime que protagonizou. No entanto, ao invés daquela já conhecida dinâmica dos filmes de tribunais, ou de investigações que poderão mudar o rumo dos acontecimentos, o que se tem são debates íntimos, quase privados, entre os principais defensores, o casal Gregório (Irandhir Santos) e Maria Thereza (Naruna Costa). Ao mesmo tempo em que ensaiam o que dizer sob juízo, também precisam lidar com a filha pequena (trabalham em casa), com a mãe dela que veio ajudar, com uma auxiliar que eventualmente trará demandas pontuais. E mais: questões íntimas também se farão presente, inclusive em como abordar o crime que está posto diante deles. Seria mesmo a melhor jogada colocar a mulher inexperiente para conduzir o processo, apenas por sua condição feminina, deixando o marido, com maior histórico de casos similares e reconhecido por seus pares, na posição de ajudante? A impressão é que estão mais focados no impacto que causarão na plateia de 2026, e não no tecido ficcional ao qual se encontram – o Brasil de cinquenta anos atrás, portanto.
Além disso, há flashbacks que se dedicam a explorar a relação tempestuosa que terminará com a morte da mulher em meio a um ataque de fúria e ciúmes de seu companheiro. O episódio, nunca abordado diretamente, é inspirado no ocorrido com Ângela Diniz. Mas seria de fato importante esse resgate? Ainda mais após o mesmo ter sido recuperado por tantas e diversas frentes nos últimos tempos? O cinéfilo ou minimamente curioso pela produção nacional tem se deparou com essa discussão no podcast Praia dos Ossos (2020), no filme Ângela (2023) e na minissérie Ângela Diniz: Assassinada e Condenada (2025). Como se percebe, não foi uma, nem duas, mas três apropriações distintas em um período de cinco anos. E Pele de Rinoceronte chega como a quarta visita e esta lembrança que, é claro, não pode ser esquecida, mas merece uma abordagem que parta de outros pontos de vista. Presenciar Ângela sendo maltratada por Doca Street (os seus nomes não chegam a ser mencionados em cena) na véspera das comemorações do ano novo pouco agrega ao debate. Os demais vieses ganhariam força caso tivessem feito proveito desse espaço.

Produtor de títulos como Amarelo Manga (2002), A História da Eternidade (2014) e Pérola (2022), Ludwig Maia é dono de uma carreira sólida e de respeito no cinema nacional. O passo que agora dá enquanto cineasta, no entanto, pode tanto representar um recomeço, como também um risco calculado. Se o intento for uma reciclagem profissional, há muito a observar, a cortar e a preservar. Mas se tratar de uma experiência isolada, se faz necessário identificar nela tanto o anseio por uma pauta que merece ser tratada e defendida, como também melhor elaborada. Debora Falabella e Naruna Costa – as duas apenas se cruzam em uma cena, e ainda assim sem travarem diálogo – fazem o que podem com personagens limitadas pelas condições nas quais se mostram inseridas. E se o resto do elenco confirma uma competência esperada (o destaque é o sempre excelente Augusto Madeira), a restauração da época, por sua vez, se apresenta tímida, entre peças de figurino e objetos de cena. Mas o que importa é o discurso. E esse, ainda que Pele de Rinoceronte parta de um roteiro escrito por Josefina Trotta (Manhãs de Setembro, 2021-2022) e conte com duas mulheres como assistentes de direção (Clara Linhart e Flávia Lopes), ainda assim é conduzido por um homem. Detalhe esse que não pode ser ignorado. E que pode, assim como faz, a diferença. Como se vê, ainda assim é preciso resistir. Tanto na ficção, quando na distância entre o que se diz, e o que se faz.
Filme visto durante o 54o Festival de Gramado, em agosto de 2026
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