Crítica

Ascensão e queda. Após um ano excelente, Bradley Cooper está enfrentando os primeiros reveses de sua carreira desde a popularidade adquirida com a trilogia Se Beber, Não Case. Se em 2014 ele esteve presente em dois dos três longas de maiores bilheteria do ano – Sniper Americano e Guardiões da Galáxia – e terminou a temporada com duas indicações ao Oscar – Melhor Filme e Ator por Sniper Americano – 2015, por outro lado, não tem sido fácil. Depois do constrangedor Serena (não chegou nem a ser lançado nos cinemas) e do frustrante Sob o Mesmo Céu (um projeto pessoal do diretor Cameron Crowe que se arrastou por anos), ele volta às telas com Pegando Fogo, uma comédia romântica gastronômica cujo maior problema é indefinição sobre qual rumo tomar, e justamente por isso acaba no meio do caminho, decepcionando público e crítica. Ainda que tenha elementos isolados bastante auspiciosos.

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Intitulado a princípio Adam Jones, este é também o nome do protagonista, interpretado por Cooper. Ele é um chef de cozinha que fez a fama como pupilo de um veterano consagrado nos restaurantes de Paris. Porém, assim como os astros de rock ou de Hollywood, sua fama veio acompanhada por outros excessos, como drogas, mulheres e bebidas. Isso, aliado a um temperamento forte, o levou a um colapso e a um consequente afastamento, quase como um retiro auto-imposto. Depois desse período sabático, ele está de volta, porém dessa vez em Londres, tendo um único objetivo em mente: conquistar sua terceira estrela no Guia Michelin. Para isso, no entanto, ele terá que reconhecer que não pode fazer tudo sozinho e precisará recorrer a velhos amigos e antigas desavenças, dando início a um processo de pedidos de desculpas e renascimento.

É neste ponto que começam a se entrelaçar os altos e baixos de Pegando Fogo. Se por um lado algumas parcerias funcionam muito bem – como com Sienna Miller, que repete a posição de par romântico de Cooper (após o já citado Sniper Americano), ou Daniel Brühl, um dos poucos que consegue trabalhar melhor seu personagem dentre tantos coadjuvantes – outros entram em cena com a única intenção de despertar interesse pela presença nos créditos, pois não fazem praticamente nada – e nesse rol são desperdiçados nomes como Emma Thompson (a que, aparentemente, mais teria a oferecer), Uma Thurman (desperdiçada em uma única cena), o italiano Riccardo Scamarcio, o francês Omar Sy, a sueca Alicia Vikander ou a inglesa Lily James (sim, a protagonista de Cinderela, 2015, está no filme, ainda que ninguém a perceba). Cada um é uma celebridade em seu país de origem, reconhecidos por um talento do qual aqui não se tem o menor vislumbre.

Não há muitas surpresas em Pegando Fogo, e em mais de um momento sua trama nos remete a outros enredos similares, que melhor exploraram essa temática, como Ratatouille (2007) ou o espanhol À Moda da Casa (2008). Há a tensão na cozinha, a busca constante pela perfeição, as diferenças entre os profissionais – que se consideram mais artistas do que meros cumpridores de tarefas – e até um eventual inimigo, que é mais uma ameaça do que um perigo real. Discute-se a passagem do tempo e a evolução da atividade culinária, em que o lema de ontem já pode estar ultrapassado no dia seguinte. Mas tudo termina por se desenrolar de modo bastante uniforme, e nem a presença de elementos do passado do chef, que voltam para assombrá-lo como lembranças de um período infernal de sua vida – destino que ele passa o filme inteiro evitando, mas que segue lhe atraindo – conseguem dotar sua jornada de maior profundidade.

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Apesar de uma combinação irregular, Pegando Fogo é um filme que pode se revelar eficiente quando associado a interesses específicos, como o prazer pela gastronomia – suas sequências de preparos das receitas são verdadeiros deslumbres – ou pelo olhar que oferece sobre os bastidores deste universo. John Wells já havia demonstrado que prefere se apoiar em seu elenco para desviar a atenção do espectador quanto às falhas dos roteiros que trabalha em Álbum de Família (2013), mas se antes ele contava com feras como Meryl Streep, Julia Roberts, Chris Cooper, Ewan McGregor e Benedict Cumberbatch, todos em pleno domínio de suas responsabilidades, dessa vez tudo recai sobre os ombros de Bradley Cooper, um ator de muito potencial, mas ainda em desenvolvimento. Ele faz, portanto, o que pode. E se o resultado não chega a ser necessariamente amargo, ainda está distante da profusão de sabores prometida.

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é crítico de cinema, presidente da ACCIRS - Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul (gestão 2016-2018), e membro fundador da ABRACCINE - Associação Brasileira de Críticos de Cinema. Já atuou na televisão, jornal, rádio, revista e internet. Participou como autor dos livros Contos da Oficina 34 (2005) e 100 Melhores Filmes Brasileiros (2016). Criador e editor-chefe do portal Papo de Cinema.
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