Crítica

Desde o inesperado sucesso da comédia Se Beber Não Case (2009), Bradley Cooper tem se confirmado como um dos nomes mais quentes da Hollywood atual. Ainda que não seja nenhum novato – ele já possui mais de 50 títulos no currículo e sua estreia foi dez anos antes, em um episódio de Sex and the City (2009) – desde então vinha tendo um acerto atrás do outro, com três indicações ao Oscar e campeões de bilheteria em fileira (sua média agora já ultrapassa os US$ 100 milhões por filme!). Porém, desde o impacto de Sniper Americano (2014) – que foi o longa que mais arrecadou nos EUA no ano passado e arrebatou seis indicações ao Oscar, inclusive a Melhor Filme e Ator – sua performance não tem sido das melhores. Primeiro foi o catastrófico Serena (2014). E agora temos Sob o Mesmo Céu, que se não chega a ser tão ruim quanto o anterior, também está longe dos seus melhores momentos.

Cameron Crowe, o diretor e roteirista, também não anda no domínio completo do seu jogo. Após ganhar o Oscar por Quase Famosos (2000), entregou os problemáticos Tudo Acontece em Elizabethtown (2005) e Compramos um Zoológico (2011). Sob o Mesmo Céu tinha a missão de iniciar uma recuperação em sua carreira, mas o efeito deverá ser o contrário. Apontado como um dos projetos mais problemáticos da Sony Pictures pela própria diretora do estúdio em um dos e-mails que vazaram durante a invasão dos hackers que a companhia sofreu no ano passado, enfrentou as mais diversas complicações: troca de atores – os protagonistas iniciais seriam Ben Stiller e Reese Witherspoon – e refilmagens, mudanças de cenas-chaves – inclusive o final – após constatarem altos índices de rejeição em exibições-teste e até mudanças de datas de lançamento. E com mais de um ano de atraso finalmente chegou às telas, obtendo uma péssima recepção: faturamento de menos de US$ 15 milhões (valor que não deve pagar nem o cachê de Cooper) e críticas negativas de todos os principais veículos (no Rotten Tomatoes a avaliação está em 20%).

Mas deixando tudo isso de lado, há algo que se salve em Sob o Mesmo Céu? Sim, com certeza. Pra começar, qualquer roteiro que tenha uma cena de Bill Murray dançando já vale uma espiada. Pena, no entanto, que não faça muito mais do que isso. Ele é o milionário que contrata Brian Gilcrest (Cooper, competente como sempre), um ex-militar que vai ao Havaí supervisionar o lançamento de um satélite na região que deverá contribuir decisivamente no progresso local. Uma de suas tarefas, no entanto, é enfrentar a resistência dos nativos, que veem nessa iniciativa uma ameaça que deve ser evitada. Para tanto, ele terá ao seu lado a oficial Ng (Emma Stone, a melhor do elenco), com quem irá se envolver, desenvolvendo um jogo de amor e ódio. Ao mesmo tempo, reencontra um grande amor do passado (Rachel McAdams, sem grandes oportunidades, porém com bastante sinceridade no olhar), que agora está casada com um antigo colega dele (John Krasinski, que diz muito sem falar nada, responsável por algumas das melhores cenas) e com dois filhos.

Quais os problemas, então? Basicamente, eles estão no colo de Crowe, que parece não saber o que fazer direito com tudo que colocou em cena. A possibilidade de um triângulo amoroso entre os personagens de Cooper, Stone e McAdams nunca chega a se concretizar. A própria presença da última, aliás, é um tanto sem sentido. A atração que surge entre ele e sua auxiliar também é desenvolvida aos trancos e barrancos, sem muita sutileza – uma hora se antipatizam, na outra estão na cama um do outro. Por isso que, quando ele tem que tomar uma atitude desesperada que pode colocar seu trabalho em risco, como num ataque de consciência – motivado por ela – suas motivações parecem fracas e mal construídas. E este é o ponto principal: por mais que o protagonista se esforce, não há elementos suficientes para simpatizarmos com ele e, sem um maior envolvimento, tudo acaba soando artificial.

Assim como fez em quase todos os seus longas anteriores – com Jerry Maguire: A Grande Virada (1996) sendo o melhor exemplo – Cameron Crowe traz em Sob o Mesmo Céu mais uma história de recomeços. No entanto, é fundamental criar uma empatia pelos personagens, o que, infelizmente, aqui não acontece. Muitos estão ali mais pelos nomes dos artistas do que por suas funções na trama – Alec Baldwin é outro desperdiçado – assim como o próprio Havaí, que se não chega a ser tratado como um clichê de cartão-postal, por outro lado permanece quase irrelevante, ainda que no texto sua importância seja fundamental. Aliás, outra controvérsia que o filme tem provocado é pela abordagem equivocada e apressada que realiza sobre os costumes e tradições do arquipélago. E sem conseguir se diferenciar de tantas outras produções similares, esta oferece apenas mais do mesmo, em um produto genérico e altamente descartável.

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Robledo Milani

é crítico de cinema, presidente da ACCIRS - Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul (gestão 2016-2018), e membro fundador da ABRACCINE - Associação Brasileira de Críticos de Cinema. Já atuou na televisão, jornal, rádio, revista e internet. Participou como autor dos livros Contos da Oficina 34 (2005) e 100 Melhores Filmes Brasileiros (2016). Criador e editor-chefe do portal Papo de Cinema.

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