Crítica

Causou estranheza quando foi anunciado que um filme estrelado por dois dos astros mais badalados atualmente em Hollywood seria lançado diretamente em VOD (Video On Demand, ou seja, no iTunes e em outros serviços de streaming) antes mesmo de ser exibido nos cinemas (se é que chegará a ter esse destino). Porém, basta se dispor a assistir a Serena para entender o porquê desta decisão. Este drama histórico talvez funcionasse razoavelmente caso tivesse sido feito há uns 60 ou 70 anos. Hoje em dia, no entanto, soa apenas deslocado no tempo e ultrapassado. Sem falar na surpreendente falta de tato da diretora Susanne Bier (não se sabe, é preciso confessar, se a responsabilidade é inteira dela ou devido a uma suposta interferência dos produtores). O que é fato é que este filme se revela frustrante em mais de um aspecto, e nem as presenças da oscarizada Jennifer Lawrence e do oscarizável Bradley Cooper como protagonistas conseguem minimizar os danos.

Se em O Lado Bom da Vida (2012) os dois passaram mais tempo brigando um com o outro e só no final se acertavam, em Trapaça (2013) eles mal contracenaram, pois pertenciam à núcleos diferentes da trama. Porém em Serena Cooper e Lawrence são o centro de uma história baseada quase que exclusivamente em seus destinos. Ele é um madeireiro preocupado com o futuro das terras que explora na Carolina do Norte, pois cogita-se que o local deverá ser transformado muito em breve em um parque federal. Portanto, seu objetivo é fazer dinheiro rápido para partir para onde acredita que seus investimentos terão melhor retorno: no Brasil! Antes disso, conhece a órfã Serena (Lawrence), que perdeu os pais ainda criança e desde então tem vivido de favores e lutado sozinha. A paixão que surge entre eles é imediata, e antes que possam pensar duas vezes já estão casados, com ela assumindo não apenas a posição de primeira-dama da empreiteira dele, mas se posicionando de forma ativa, interferindo em praticamente tudo a partir de então.

O primeiro reflexo dessa relação obstinada e destruidora se dá com o sócio dele, Buchanan (David Dencik, de O Espião que Sabia Demais, 2011), com o qual ela implica desde o princípio. Tanto faz com a cabeça do marido que este, que até então o tratava como melhor amigo, termina por assassiná-lo durante uma caçada. Os limites seguem sendo ultrapassados quando, pouco a pouco, o casal começa a se indispor com todos àqueles que possam, de uma forma ou outra, representar uma ameaça à vida perfeita que ela imagina para os dois. E se um operário de confiança (Sean Harris, de Livrai-nos do Mal, 2014) ou mesmo o xerife (Toby Jones) não chegam a representar grandes problemas, mais complicado será lidar com uma ex-amante, mãe de um bastardo dele. Os planos, aqui, precisarão ser mais elaborados, e para tanto ela fará uso do apoio incondicional que encontra no capanga que lhe deve a vida (Rhys Ifans).

Baseado no romance clássico de Ron Rash, Serena foi primeiro anunciado como um projeto de Darren Aronofsky estrelado por Angelina Jolie. Com a posterior desistência dos dois, Jennifer Lawrence assumiu como protagonista, e foi ideia dela chamar Bradley Cooper para estrelar ao seu lado – esse filme foi feito em 2012, logo após às filmagens do primeiro projeto de ambos juntos, O Lado Bom da Vida. A química entre eles segue inabalável, mas é de se questionar como a dinamarquesa Susanne Bier – vencedora do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro por Em Um Mundo Melhor (2010) – pode estar tão fora de forma. Talvez seja por ser uma realização em inglês – suas duas outras produções nesta língua que não lhe é natural, o drama Coisas que Perdemos pelo Caminho (2007) e o romântico Amor é Tudo o que Você Precisa (2012), também tiveram resultados controversos – mas isso é pouco para a catástrofe a qual presenciamos dessa vez. A despeito da belíssima fotografia dourada, que tanto poderia indicar o amanhecer ensolarado de um novo dia como a ferrugem destruidora de um instrumento combalido, nada parece fazer muito sentido.

Se os personagens são absurdamente rasos – Cooper não age, apenas reagindo quando provocado, enquanto que Lawrence soa mais como uma ciumenta enraivecida do que uma mulher enfrentando problemas psicológicos – o roteiro também se esquiva das questões mais sérias que o romance original abordava, como a ocupação central do país e a formação de uma nação a partir dos esforços para construir um núcleo familiar e os pecados que são deixados para trás nesse processo. Em resumo, Serena aponta para vários lados, mas acerta alvo algum. E resulta irremediavelmente como um passo em falso nas filmografias de todos os envolvidos, mas acima de tudo no currículo da produtora 2929 Productions, que praticamente encerrou suas atividades após esse fracasso. Ou seja, este é um filme literalmente de quebrar a banca – e no pior sentido da expressão!

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Robledo Milani

é crítico de cinema, presidente da ACCIRS - Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul (gestão 2016-2018), e membro fundador da ABRACCINE - Associação Brasileira de Críticos de Cinema. Já atuou na televisão, jornal, rádio, revista e internet. Participou como autor dos livros Contos da Oficina 34 (2005) e 100 Melhores Filmes Brasileiros (2016). Criador e editor-chefe do portal Papo de Cinema.

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