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Sinopse

Desiludida com as últimas eleições brasileiras, a atriz Georgette Fadel decide se candidatar à presidência em 2022. Ela embarca numa viagem de ônibus ao Uruguai a fim de se reencontrar com anseios políticos aparentemente impossíveis, especificamente a tentativa de passar o Ano-Novo com o ex-presidente uruguaio Pepe Mujica. Ainda nos primeiros minutos, ela esbarra no empresário Leo. Rico, com posições políticas polêmicas, ele se tornará, quem diria, o maior parceiro de jornada de Georgette.

Crítica

Em meio a tantos filmes brasileiros que dialogam indireta ou metaforicamente com a política atual, Partida surpreende pela literalidade com que aborda a eleição de Jair Bolsonaro e a fratura ideológica no país. Os letreiros indicam na tela os dias restantes para o segundo turno das eleições presidenciais, no fim de 2018, enquanto a atriz Georgette Fadel lamenta o “retorno do fascismo”, em suas palavras. Em busca de alguma forma de comunhão com os próximos, aceita a ideia inusitada do amigo, ator e diretor Caco Ciocler para reunir um grupo de amigos rumo ao Uruguai, onde pretendem encontrar o presidente José Mujica e lhe dar um abraço de Ano Novo. Enquanto isso, registram as interações durante o percurso.

Partida constitui um gesto singelo de reconciliação com a política por meio do afeto. Não se sabe exatamente o que vai acontecer nesta trajetória, e Mujica sequer foi informado da chegada do grupo. Neste filme-performance estrelado por atores, “todos são coautores”, frisa o diretor, pela liberdade com que podem chamar a câmera perto de si e oferecer a conversa desejada. O projeto jamais esconde seu caráter improvisado, explorando-o a seu favor. A liberdade de formas permite a provocação, a descoberta do filme enquanto o filme está sendo feito. Embora o procedimento metalinguístico não soe exatamente inovador, ele transpira um vigor e uma vontade de fazer cinema a qualquer preço, algo muito louvável nos tempos atuais – por mais que se possa questionar o orgulho dos letreiros em afirmar que o documentário foi realizado sem recursos do governo. Ora, que problema haveria na produção via leis de fomento?

A pequena viagem rumo ao país vizinho, governado por um presidente que se nega a aceitar as regras do capitalismo predatório, possui múltiplos significados. Primeiro, trata-se de uma fuga simbólica do Brasil de Bolsonaro, um respiro necessário às pessoas que não se reconhecem na nova liderança eleita e temem pelo futuro do país. Segundo, esta é uma jornada de autodescoberta e um resgate das raízes da esquerda – os atores-personagens fogem do Sudeste, que elegeu em massa o presidente de extrema-direita, passam pela vigília de Lula e chegam a um país onde “a esquerda deu certo”, nas palavras dos viajantes. Por fim, paira uma proposta de teatro da política, uma vez que Fadel afirma querer se candidatar à presidência da República em 2022, razão pela qual precisaria conhecer os pensamentos adversos.

Mesmo percebendo que “dentro do ônibus, a gente só tem vários matizes da burguesia”, a artista comunista busca se confrontar ao mínimo de ideias contrárias encontradas: o colega de direita, o motorista pró-Bolsonaro, uma senhora uruguaia desfavorável a Mujica. O dinamismo da narrativa surge de um movimento antagônico: procura-se ao mesmo tempo proteção dos amigos e o contato com a diferença, conhecer o Brasil e fugir dele, fazer política real e política encenada. Ao invés de um partido, Fadel quer lançar a versão feminina do mesmo: uma “Partida”, brinca. Ciocler se diverte fundindo o caráter ora documental em excesso, disposto a de abraçar qualquer forma de magia do cotidiano (as interações descompromissadas dentro do ônibus, o boom no enquadramento, o pêlo na objetiva), ora dirigindo as cenas de modo puramente fictício, pedindo que uma briga seja reencenada para a filmagem em novo ângulo, e se possível, “no mesmo nível de intensidade”.

Talvez o próprio pedido de reencenação seja encenado, visto que o filme ironiza a tendência ao espetáculo representada pelas catarses fáceis das novelas da Rede Globo. No fim, pouco importa quais interações são de fato espontâneas, e quais são incentivadas pela direção. O prazer deste dispositivo se encontra na sugestão de transparência total misturada à trucagem, na conjunção entre o amadorismo controlado pela ficção e o profissionalismo diluído pelo acaso. Georgette Fadel, candidata invisível de um Brasil ainda desconhecido às vésperas de 2019, nutre ao mesmo tempo as sensações de dever cumprido e de fracasso – “fizemos um filme, mas não fizemos nada”, lamenta, algo que talvez reflita o papel da arte num país que rejeita artistas.

Por isso, o retorno após o belo clímax no Uruguai transmite a melancolia dos fins de festa. Fadel, a atriz (ou seria Fadel, a personagem?) se sente mal ao reencontrar a empregada doméstica em sua volta para casa, símbolo de que ela também explora a força trabalhadora alheia. Despido da configuração de “filme de férias”, e passada a paródica estrutura dos reality shows (com pessoas de pensamento antagônico presas num espaço e estimuladas a se digladiarem para as câmeras), este filme sobre política e sobre cinema torna-se muito mais amargo. É hora de reencontrar o Brasil de 2019, numa ressaca literal e simbólica da nova eleição. Partida funciona como pequena proposta de terapia em grupo, oferecida para a equipe e para o espectador, e banhada no humor tragicômico do real. Suas pequenas ambições são plenamente alcançadas: o projeto consegue refletir muito mais sobre a disposição da arte em abraçar sua época do que a traquinagem entre amigos poderia anunciar.

Filme visto na 43ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, em outubro de 2019.

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Crítico de cinema desde 2004, membro da ABRACCINE (Associação Brasileira de Críticos de Cinema). Mestre em teoria de cinema pela Universidade Sorbonne Nouvelle - Paris III. Passagem por veículos como AdoroCinema, Le Monde Diplomatique Brasil e Rua - Revista Universitária do Audiovisual. Professor de cursos sobre o audiovisual e autor de artigos sobre o cinema. Editor do Papo de Cinema.
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