Pai Mãe Irmã Irmão

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Sinopse

Em Pai Mãe Irmã Irmão, três histórias tratam das relações entre filhos adultos, seus pais, um tanto distantes, e também entre si. Cada um dos três capítulos se passa no presente e em um país diferente. “Pai” se passa no nordeste dos EUA, “Mãe” em Dublin, na Irlanda, e “Irmã Irmão” em Paris, na França. Drama/Comédia.

Crítica

Pais que se escondem dos filhos. Filhos que nunca se revelam por completo para os próprios pais. Pai que engana o filho e desiste da filha. Irmãs que competem para ver qual desperta menos interesse por parte da mãe. Irmão e irmã que dependem um do outro para compartilhar a tristeza que os consome, mas também as alegrias que os uniram. Mãe que limita o acesso das filhas a ela mesma. Pais que não se fazem presentes, e também os que não mais por aqui estão. Filhos que há muito se foram, mas de uma forma ou de outra, se esforçam para algum tipo de contato manter. Relações complexas, trabalhadas com sutilezas, e extrema honestidade, formam a base dos acontecimentos que percorrem as quase duas horas de Pai Mãe Irmã Irmão, décimo sexto longa do diretor Jim Jarmusch, um dos mais interessantes do cenário independente norte-americano surgido no final da segunda metade do século XX. E assim como em muitos dos seus trabalhos anteriores, o que propõe é um quebra-cabeça, uma colcha de retalhos que fala mais sobre o conjunto do que por suas partes em separado.

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Em atividade desde Férias Permanentes (1980), Jarmush explorou o conceito episódico em mais de uma ocasião ao longo de sua filmografia. Títulos como Trem Mistério (1989), Uma Noite Sobre a Terra (1991) e Sobre Café e Cigarros (2003) também eram construídos por meio da estrutura de antologias. Ideia essa que se repete em Pai Mãe Irmã Irmão, composto basicamente por três histórias independentes, mas repletas de elementos que se repetem umas nas outras. Porém, além de algumas intrusões visuais – o rolex, os skatistas – ou mesmo verbais – o brinde, o tio Bob – há de se refletir sobre as analogias presentes. Os paralelos estabelecidos entre estes contos de apegos e, principalmente, desapegos. E se os dois primeiros são quase caricaturas em seus maneirismos e esquisitices – as peculiaridades que fazem de uma família algo tão típico, quanto universal – estará no terceiro capítulo o verdadeiro coração de um discurso por vezes estranho, na maior parte do tempo distante, mas capaz de demonstrar não apenas sensibilidade para transitar por zonas de inseguranças e carências, mas também afetos desperdiçados e atenções disputadas.

Jeff (Adam Driver, que foi dirigido por Jarmush antes no excepcional Paterson, 2016, e na comédia de zumbis Os Mortos Não Morrem, 2019) e Emily (Mayim Bialik, conhecida pela série The Big Bang Theory, 2010-2019) estão a caminho de uma visita ao pai que há muito não encontram. Esse é interpretado por Tom Waits, em sua quinta colaboração com o cineasta. O homem primeiro arruma a casa para recebê-los. Já os dois deixam claro um ao outro não saberem nem o que lhes espera, menos ainda como proceder quando lá estiverem. É mais ou menos o mesmo dilema enfrentado por Timothea (Cate Blanchett, mais uma vez apostando na versatilidade de suas composições, voltando a trabalhar com o diretor após o já citado Sobre Café e Cigarros) e Lilith (Vicky Krieps, oferecendo sua versão da Clementine eternizada por Kate Winslet em Brilho eterno de uma mente sem lembranças, 2004). As duas não estão juntas, mas também se dirigem até onde a mãe as espera para o chá com bolo anual, ocasião única em que as três estão lado a lado a cada doze meses. A matriarca, que ganha vida por meio de um registro calculado de Charlotte Rampling, parece estar mais preocupada com a temperatura da água e com um eventual atraso em relação ao horário combinado do que com a conversa que, enfim, irão travar entre si.

Há desconforto nas duas situações que se estende do início ao fim destas permanências. O pai organizou uma farsa para apresentar aos filhos, e as intenções dele são óbvias. Já entre as três mulheres os sentimentos que as rodeiam são um pouco mais complexos: austeridade, dependência afetiva, rebeldia narcísica. Tais máscaras e armaduras não se fazem necessárias no terceiro segmento por um motivo de fácil percepção: a ausência dos pais. Skye (Indya Moore, de Pose, 2018-2021) e Luka Sabbat (cuja estreia no cinema foi sob o comando de Jarmusch no anterior Os Mortos Não Morrem, 2019) estão mais uma vez juntos, e agora por um motivo alheio as suas vontades, ainda que urgente: precisam desocupar o apartamento que pertenceu aos pais, falecidos recentemente em um acidente aéreo. Nada tão próximo cujo impacto da tragédia ainda se faça presente, mas ainda assim latente a ponto de despertar memórias e provocações. Eles se perguntam quem eram aqueles que não mais estão ali, de onde teriam vindo, como esse casal teria se conhecido, se apaixonado e gerado dois filhos como eles. É quando o filme chega próximo do fim, que parece encontrar a emoção que havia ficado escondida por meio de tanto esforço até aquele momento.

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Jovens que atravessam o caminho dos demais, de forma rápida e sem olhar para os lados, mas exibidos em câmera lenta, quase como anjos – ou fantasmas. Um brinde feito de forma desajeitada – e hesitante. Um relógio que chama por demais atenção, ou uma referência a um parente que nunca existiu. Esses são os laços aleatórios que ligam essas histórias na superfície, mas que na realidade servem de iscas para mergulhos mais profundos e transformadores. Pai Mãe Irmã Irmão fala, sim, destes arquétipos apontados no batismo, mas é como se algo estivesse faltando e fosse justamente esse vazio que os envolvidos tanto se dedicassem a preencher. Jim Jarmusch, portanto, por meio de um traçado quase ingênuo, mas em nada inocente, tangencia portas que precisam desse lembrete para reafirmar suas existências, enquanto delega a tarefa de transpô-las tanto ao espectador, que decidirá por si se cabe ou não tal empenho, como também aos personagens, que ganham vida tanto pelo histórico que carregam até o ponto em que se apresentam, como também pelo muito que terão a enfrentar depois. Um filme sem início e nem fim, e justamente por isso, tão imensamente gratificante.

Filme visto durante a 49a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, em outubro de 2025

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é crítico de cinema, presidente da ACCIRS - Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul (gestão 2016-2018), e membro fundador da ABRACCINE - Associação Brasileira de Críticos de Cinema. Já atuou na televisão, jornal, rádio, revista e internet. Participou como autor dos livros Contos da Oficina 34 (2005) e 100 Melhores Filmes Brasileiros (2016). Criador e editor-chefe do portal Papo de Cinema.

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